CONTO #38: Uma pequena viagem (Ray Bradbury)



          Publicado pela primeira vez na revista de ficção científica Galaxy, em 1951, Uma pequena viagem (A little journey) é o conto de abre a coletânea A cidade inteira dorme e outros contos
          No conto o autor nos situa em outro planeta, em um futuro distante. Nessa realidade alternativa, viagens interplanetárias são possíveis e corriqueiras. Somos, então,  apresentados às personagens principais: um grupo de senhoras da melhor idade, que economizaram durante anos e anos a fio para fazer a viagem final. Mas não se trata exatamente disso que você está pensando: Essa viagem, vendida por uma figura pouco confiável, mas cheia de lábia, é uma viagem a caminho de Deus.
          Como não poderia deixar de ser, a data da viagem é marcada no ato da compra do pacote. E adiada, assim que se aproxima. Muito bem, sem problema, elas aguardam a próxima data marcada. E, mais uma vez, é adiada. Essa situação se repete vezes e vezes, até que elas se cansam. Querem uma data definitiva, e querem saber o motivo do atraso.
          O desfecho da história é, no mínimo, intrigante.


"Havia duas coisas importantes - uma, que ela era velha demais; 
outra, que o sr. Thirkell a estava levando para Deus. E ele não tinha
dado um tapinha na mão dela e dito: "Senhora Bellowes, vamos partir para o espaço 
em meu foguete e e
ncontrá-Lo juntos"?
(p.7)

"Parece que fizeram uma coisa terrível conosco", ela disse. "Não tenho dinheiro para voltar
para casa na Terra e tenho orgulho demais para ir ao governo e contar contar
a eles que um homem comum como este nos tapeou, levando
todas as nossas economias. Não sei como vocês se sentem quanto
a isso, todas, vocês, mas o motivo por que todas viemos é que tenho
oitenta e cinco anos e você tem oitenta e nove, e você setenta e oito e todas nós
estamos nos encaminhando para os cem anos, e não há nada na Terra para a gente, e não parece  haver nada em Marte, Também. "
(p.13)


Onde encontrar Uma pequena viagem: A cidade inteira dorme, de Ray Bradbury

CONTO #37: Uma questão temporária (Jhumpa Lahiri)



          Publicado pela primeira vez na revista The New Yorker, em 20 de abril de 1998, e mais tarde compondo a coletânea de contos "Intérprete de males", Uma questão temporária (A temporary matter) nos conta a história desse jovem casal cujo relacionamento está, aos poucos, desmoronando.
          A notificação de que a eletricidade seria cortada nos próximos dias durante uma hora, acaba interferindo na rotina do casal. Conforme os dias passam, o leitor entra em contato com os problemas que os dois vem enfrentando já há algum tempo, principalmente desde a perda de um bebê muito esperado.
          A autora não entrega de bandeja o que o que está acontecendo; o leitor é levado a achar que sabe direitinho do que o conto se trata - mas é enganado. Nada nos prepara para o choque de realidade nua e crua que teremos diante dos olhos. A crueldade com que ambas as partes se vinga, lenta e dolorosamente, do outro não é agradável de se acompanhar. É quase como se estivéssemos observando a uma cena que se desenrola atrás de pesadas cortinas, sendo afastadas lentamente. E o final do conto é avassalador.


"A notificação informava que era uma questão temporária: por cinco dias
a eletricidade seria cortada por uma hora, a partir das oito da noite. Uma linha caíra na
última tempestade de neve e os operários iriam aproveitar as noites mais brandas para arrumá-la.
O trabalho afetaria apenas as casas da tranquila rua arborizada na qual Shoba e Shukumar
moravam havia três anos, de onde se podia ir a pé até as lojas com fachada de
tijolos e o ponto do bonde."
(p. 9)

"Uma vez, essas imagens de paternidade haviam perturbado Shukumar, somando-se à ansiedade de ainda ser estudante aos 35 anos. Mas naquela manhã de outubro, bem cedo, as árvores ainda pesadas com folhas de bronze, ele deu as boas-vindas à imagem pela primeira vez."
(p. 11)

"Em algum momento da noite, ela o visitava. Quando ele a ouvia
chegando, deixava de lado o romance e começava a digitar frases. Ela
pousava as mãos nos ombros dele e olhava junto com ele a luminosidade 
azulada da tela do monitor. "Não trabalhe demais", ela dizia
depois de um ou dois minutos, e ia para a cama. Era o único momento
do dia em que o procurava e, no entanto, ele passara a abominar aquilo. "
(p. 16)

"Nunca falava com ele sobre Shoba; uma vez, quando ele mencionou a morte do bebê,
ela ergueu os olhos do tricô e disse:
- Mas você nem estava lá. "
(p. 17)


Onde encontrar Uma questão temporária: Intérprete de Males, de Jhumpa Lahiri

A Dark Song - Mês do Horror (por Hpcharles)



"Joseph Solomon: You've been looking shit up on the Internet. No, this is Gnosticism. 
Sophia Howard: I was told it was based on the Kabbalah.
Joseph Solomon: It's there as grammar. A structure. The Kabbalah is an exploration of god. We're doing something much darker.." 


Eu posso afirmar sem medo de errar que, até o momento, os melhores filmes de horror que vi neste ano são: Ghost Stories, Hereditary e A Dark Song. Se me pusessem uma arma na cabeça e me obrigassem a escolher um, escolheria A Dark Song. Em que pese a singularidade contida nos 3 filmes, e quem os assistiu sabe que todos eles primam exatamente por serem absolutamente fora do padrão - normalmente "lugar comum" - dos filmes de terror dos dias atuais. 

Confesso que descobri A Dark Song por acaso. Coisas da Internet. No dia seguinte já havia importado o Bluray tamanha a avidez que estava em possuir aquela pérola em minha humilde coleçãozinha. É de pequenos prazeres que se constrói nossa felicidade nesse planetinha azul, não deixe que lhes digam o contrário.

Bom, chega de papo furado. O filme começa sem nos dar pista alguma sobre o que teremos pela frente. Uma mulher (Sophia) tentando alugar uma casa. Tal casa precisa atender a condições bem específicas. Ser completamente isolada e estar posicionada de determinada forma em relação aos Pontos Cardeais.

A cena é cortada então para o encontro dos protagonistas que basicamente serão os dois únicos atores no filme inteiro. Joseph Solomon é um ocultista e foi procurado por Sophia a fim de que este realize um ritual praticado por alguns gnósticos e que se chama "Abramelin Operation". Sendo bem sucedida a incomum e poderosa liturgia supostamente concede o atendimento de um desejo pelo anjo da guarda de quem a executa

Apesar de Sophia ter aceitado o preço combinado por Solomon para efetuar o ritual, este parece imensamente relutante em prosseguir. Para Solomon o motivo é mais importante do que o dinheiro. Sophia então afirma que deseja se comunicar com seu filho que morreu recentemente. Aqui vai um spoiler indispensável, me desculpem. Ela mente. Solomon, ainda hesitante, então se compadece de Sophia e aceita prosseguir com sua missão. 

Para atender ao que ordena o ritual Sophia precisou se manter casta durante meses e terá que passar por inúmeras privações como jejum extremo, ficar sem dormir, e ser capaz de falar vários idiomas. Ela acena a Solomon que está preparada e este então "sela" a casa. A partir daquele momento nenhum dois dois pode deixar a propriedade sem que o ritual esteja terminado. O próprio ritual não permitiria. 

Daí para frente, meus amigos, temos uma viagem ao ocultismo e esse é realmente o ponto forte do filme. O texto é espetacular e faz o espectador acreditar no que está vendo. Não é como um filme trivial de bruxas, repleto de CGIs e repetições de frases prontas. Quem escreveu A Dark Song sabia o que estava fazendo e estudou o assunto. O clima clasutrofóbico criado na casa e a relação crescente e sombria entre Sophia e Solomon aperta o coração de quem está assistindo. Todos os passos na cerimônia precisam ser executados à risca e não pode haver erros. Não há volta, não se pode desistir. A não ser pagando com a própria vida. 

Tudo caminha razoavelmente até que Solomon percebe que algo parece estar faltando, que existe uma peça fora do lugar. É nesse momento que, desconfiado, imprensa Sophia a lhe dizer qual é o REAL motivo para a performance do ritual. Sophia então diz que o que deseja mesmo é VINGANÇA. Seu filho havia sido, na verdade, assassinado por um grupo de jovens que jamais haviam sido punidos. Solomon enlouquece porque sabe que aquilo compromete todo o ritual e precisa então encontrar um "atalho", uma forma de contornar tal tragédia. Sabe que a MENTIRA desconecta o ritual de seu propósito e que traz CONSEQUÊNCIAS graves. A solução é insana. Mas precisa ser executada. 



Não pretendo contar nem mais uma vírgula do filme. Não quero dar mais spoilers e nem estragar a experiência de quem se interessar em assistir o filme. Apenas quero advertir sobre a parte mais importante da película. Sobre seu real tema. Algo que só é revelado bem no final. A Dark Song usa de um expediente sui generis para abortar a verdadeira mensagem que quer passar. E essa mensagem é: REDENÇÃO. Redenção no sentido estrito de LIBERTAÇÃO e no sentido amplo de conquista da paz interior. Libertação de culpa, libertação no sentido de ser capaz de perdoar a outros e a si mesmo. 

O filme então que o ritual serve para nos mostrar que o importante não é ter um desejo concedido, mas sim par nos indicar a trilha do CONHECIMENTO. O ritual é um caminho e não uma chegada. Solomon, por sua, vez, afirma que seu desejo é a invisibilidade. Ele não se refere a se tornar invisível objetivamente - lembra que eu escrevi que não era um filminho de bruxas? - mas sim se tornar distante do mundo cotidiano, se afastar da sociedade e suas trivialidades. Percebem o peso da mensagem?

Meus caros, gostem ou não de A Dark Song, esta obra oferece uma experiência singular. É um "filme de terror" diferente de tudo que já vi no gênero e garanto...já vi muita coisa. A Dark Song é um filme para te fazer pensar nas perdas que amealhamos ao longo da vida e nos mostrar o quanto é difícil sobreviver com essa bagagem de amarguras e culpas. O filme nos ensina, enfim, que as etapas de um ritual em direção ao conhecimento não são muito diferentes dos passos e escolhas que assumimos em nossas vidas. Que as mentiras que contamos a nós mesmos é que nos catapultam em direção a nossas tragédias pessoais e que apenas a verdade e o conhecimento podem nos redimir do mundo e. sobretudo, de nós mesmos.

A Dark Song é apenas um filme. O ritual é apenas um caminho. O conhecimento é opcional e voluntário. Mas o resultado é sempre oriundo de uma ESCOLHA individual e intransferível. 

E aí, como ficamos? Conhecimento e conversação ou ignorância? Redenção ou dor? Luz ou trevas? A decisão é sua. Sempre sua.



 
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