CONTO #33: Depois do anoitecer (Kazuo Ishiguro)

          

          Publicado pela primeira vez em 2001 na revista The New Yorker, Depois de anoitecer (A village after dark) é publicado por aqui junto ao romance Os resíduos do dia (ou, Os vestígios do dia, dependendo da edição que você encontrar por aí).
            Esse é um conto estranho. Para dizer o mínimo. Acompanhamos esse idoso, o narrador, em sua viagem de volta à sua vila de origem.
             Logo no primeiro parágrafo, sabemos que ele chega lá logo após escurecer, e mesmo fazendo décadas desde a última vez que esteve ali, ele é reconhecido, logo de cara, por uma jovem maltrapilha que o recebe muito bem, por já ter ouvido muito falar sobre ele e sua turma.
          Aparentemente, o narrador e sua turma de jovens idealistas fizeram muito sucesso naquela vila no seu tempo, influenciando a população. Aos poucos, conforme a história corre, vamos percebendo que aquela influência talvez não tenha sido tão positiva quanto ele imaginava. Mas o autor não deixa claro que tipo de influência foi essa. Estamos falando do pós guerra? Não sabemos.
          O ponto mais estranho desse conto talvez seja o momento em que, cansado de sua viagem, ele resolve bater em uma porta aleatória; é reconhecido e bem recebido. Uma vez dentro da casa, ele finalmente a reconhece como sendo a sua casa, aquela onde passara a juventude. O narrador se sente tão em casa, que inclusive resolve tirar um cochilo, ali mesmo, sem sequer perguntar aos moradores atuais se aquilo seria uma boa ideia. E durante esse sono leve, vai ouvindo vozes do passado e do presente. As do presente não se sentem nada confortáveis com aquela forma decadente que ali está, e demonstram arrependimento por terem-no seguido em algum momento.
          O único ponto de intersecção que vejo nessa história e n'Os resíduos do dia, é a espera pelo ônibus, que quando chega, coloca um ponto final em tudo o que se passou. É o "point of no return", dos personagens de Ishiguro. E a insistência dos moradores para que ele pegue esse ônibus, mostra ao leitor que ali, naquela vila, já não existe nada para aquele idoso.
         Teria ele pensado que ao voltar àquela vila , seria bem recebido e aceito pelos velhos conhecidos com a mesma pompa e circunstância e prestígio que era aceito ali quando jovem? Será que ele demonstra arrependimento?
          A estranheza do conto, pelo menos do meu ponto de vista, se dá pelo ambiente onírico, envolto em névoa (a névoa do anoitecer), e a sensação de que estamos vendo um episódio de Twilight Zone (Além da imaginação). Para mim, esse personagem está morto, e não encontrou abrigo e descanso eternos junto aos seus, como deveria ter imaginado que seria.

"Houve tempo em que eu podia viajar semanas sem fim pela
Inglaterra e continuar muito alerta, em que o efeito da viagem
sobre mim era, no máximo, o de me deixar mais afiado. Agora,
porém, que estou mais velho, fico desorientado com maior facilidade.
Assim foi que, ao chegar à aldeia, logo depois do escurecer, não consegui absolutamente me localizar.
Não dava nem para acreditar que estava na mesma aldeia onde eu vivera não muito tempo antes e onde chegara a exercer tamanha influência."
(p. 271)

""Fletcher", disse ela, "quando nós nos conhecemos, eu era moça e bonita. Idolatrava você e tudo o que dizia me parecia uma resposta. Agora, aí está você, de volta. Durante muitos anos eu quis lhe dizer que você arruinou minha vida.""
(p. 176)



Onde encontrar "Depois do anoitecer": Os vestígios do dia, de Kazuo Ishiguro

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