CONTO #28: Nosso Pai (Leopoldo Alas, ou Clarín)

          

           Publicado em 1893, Nosso Pai, escrito por Leopoldo Alas, autor espanhol conhecido como Clarín, conta a história desse garoto, Juan de Dios, cuja figura angelical chamava a atenção de todos, inclusive dos padres da igreja que frequentava.
              Desde muito pequeno, o garoto já mostrava vocação para o sacerdócio, brincando de sermão em casa, improvisando um altar com os velhos móveis. Não deu outra: o garoto se torna padre.
              Os anos passam, e Juan de Dios que nunca duvidara de sua vocação, encontra uma moça da paróquia, tão bela e angelical quanto ele (a moça mais bonita de toda a cidade, diga-se). Descobre que a moça, de origem humilde, é comprometida com o filho fanfarrão de uma rica família da redondeza, e conforme a leitura segue, sabemos que esse rapaz só se compromete com ela por ser a moça mais bonita, e não exatamente por amá-la. Esse rapaz viaja frequentemente; passa meses fora, e numa dessas viagens, a garota, que sempre teve uma saúde frágil, adoece; cai de cama. Nosso padre é, então, chamado para sua extrema unção.
             O desenrolar da história e a explicação para seu título são, no mínimo, surpreendentes, e um tanto quanto chocantes (e NÃO, eles não são irmãos de sangue).
              Um dos contos mais tristes que eu já li, sem dúvida.


"Até o senhor Bispo, varão austero que andava pelo templo como que tremendo de santo temor a Deus, mais de uma vez se deteve ao passar rente ao menino, cuja cabeça dourada brilhava sobre o humilde terninho preto como um cálice sagrado entre os panos de enlutado altar; e sem poder resistir à tentação, o bom místico, vencedor de tantas, inclinava-se para beijar a testa daquela doce imagem dos anjos que como um gênio familiar frequentava o templo."
(p. 10)

"Ou eu observo mal, ou as crianças de hoje não costumam ter altares. Compadeço-me principalmente dos que ajam de ser poetas."
(p. 11)

"(...) para ele, ser mais que outros, valer mais que outros, era uma aparência, uma diabólica invenção; ninguém valia mais que ninguém; toda dignidade exterior, toda distinção, todo prêmio eram fogos-fátuos, inúteis, sem sentido. Emular glórias era tão vão, tão insosso, tão inútil quanto discutir. (...)"
(p.12/13)

"A menina já era uma jovem esbelta, não muito alta, magra, de uma elegância como que doentia, como uma deusa da febre. O amor por aquela mulher deveria vir de mistura com uma dulcíssima caridade. Era preciso amá-la também para cuidar dela."
(p. 16)

"Procurou um colega discreto, experiente. O colega não o compreendeu. Enxergou o pecado maior, justamente por ser romântico, platônico. "É que o diabo se disfarçava bem; mas lá andava o diabo.""
(p. 19)

""Eu não aspiro a nada; eu não posso ter ciúme; eu não quero o corpo dela, nem da alma nada além do que ela dá sem querer em cada olhar que por acaso encontra o meu. Meu carinho seria infame se não fosse assim.""
(p.21)



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