CONTO #19: Linda, uma história horrível (Caio Fernando Abreu)


          Publicado em 1988 e parte integrante do livro "Os dragões não conhecem o paraíso", Linda, uma história horrível conta a história desse filho, que já não via a mãe há anos, indo visitá-la sem aviso (a mãe não tem telefone, eis a desculpa). 
          O conto que já traz em sua epígrafe um trecho de Só as mães são felizes, de Cazuza (Você nunca ouviu falar em maldição, nunca viu um milagre, nunca chorou sozinha num banheiro público, nem nunca quis ver a face de Deus.), transmite um desconforto terrível, a ponto de fazer o leitor desejar terminar logo a leitura para acabar logo com aquilo. Mas não me entenda mal: é um excelente conto. O desconforto se dá quando percebemos que a mãe não está exatamente feliz em rever o filho (preferia que ele tivesse avisado antes), e o filho que está ali por precisar de seu porto seguro, se vê de tal forma desconcertado, que já quer ir embora dali depois de cinco minutos; a partir daí é ladeira abaixo até que as coisas comecem a entrar nos eixos. Mas até lá, o leitor sofre com a incapacidade do filho de desabafar com essa mãe, que não entenderia sua homossexualidade, que não entenderia o problema maior que o levou a buscá-la (AIDS - em que grau de avanço da doença as manchas tomam conta do corpo do acometido? Não sei, mas é nesse pé em que o filho está.).
             E Linda?
         Linda é a cadela de estimação da mãe. Tão envelhecida e decaída quanto sua dona (e seu filho?), traz no corpo manchas de um misto de senilidade e sarna; e é quando essas manchas são notadas pelo filho que o autor puxa o nosso tapete e caímos ao chão em posição fetal chorando convulsivamente.
             A falta de comunicação, o choque de gerações, a incompreensão e o isolamento para evitar a fadiga são temas desse conto.

"Tu não avisou que vinha - ela resmungou no seu velho jeito azedo, que antigamente ele
não compreendera. Mas agora, tantos anos depois, aprendera a traduzir como
que-saudade, seja-bem-vindo, que-bom-ver-você ou qualquer coisa assim. Mais carinhosa, embora inábil."
(p.10)

"De repente, então, enquanto nem ele nem ela diziam nada, quis fugir.
Como se volta uma fita num videocassete, de costas, apanhar a mala, atravessar a sala, o corredor de entrada, ultrapassar o caminho de pedras do jardim, sair novamente para a ruazinha de casas quase todas brancas. 
Até algum táxi, o aeroporto, para outra cidade, longe de Passo de Guanxuma, até a outra vida de onde vinha. 
Anônima, sem laços nem passado. 
Para sempre, para nunca mais. 
Até a morte de qualquer um dos dois, teve medo. 
E desejou.
Alívio, vergonha."
(p. 12)





       

7 comentários:

  1. Esse foi o primeiro livro que li de Caio Fernando Abreu. E fiquei muito impactado. A forma com que ele desenha cada cena-conto é impressionante. Um envolvimento trágico, nos lançando nos dilemas que se impõem. Esse encontro dessas três vias fragilizadas, próximas do fim, mas incapazes de comunicarem explicitamente o que sentiam. Pairam numa superfície de dizer de outros modos, tocando uns nos outros com dor, dificuldade, mas exercendo uma forma específica de sensibilidade. Esse filho "pródigo" que retorna chega sem ser recebido, mas é incorporado aquela casa. Todos eles estão partidos e partindo sem estabelecer a relação que julgavam dever possuir. Queria que Caio F. não tivesse nos deixado tão cedo para ter podido abraçá-lo, encontrá-lo e poder dividir algumas palavras, vez que eles nos deu tantas, tanto, excessivamente entregue a qualquer um que esteja aberto a escutar.

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  2. Parece ótimo!
    Caio Fernando é sempre uma boa pedida. Só li Morangos Mofados há anos!

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  3. Tati, gostaria mt de ver um vídeo seu no canal falando sobre Morangos Mofados, livro de contos do Caio. Please, faço-o. Um grande abraço.

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  4. Caio é dilacerante. Por favor leia mais Caio, precisamos.

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  5. Tati, no começo da epidemia de HIV/AIDS, e mesmo antes do coquetel, era comum os soropositivos terem manchas na pele - algo como o sintoma mais claro da doença.

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  6. Esse conto retrata exatamente o furor que foi o final da década de 80/90. Traz a tona uma gama de problemas sociais e conflitos internos de personagens. A dramatização de personagens soro positivo por CFA é constante em outras narrativas, mas essa em especial coloca o leitor defronte com o grande problema que foi o HIV na época.
    Com certeza, no mesmo período em que este conto foi lançado, nos deparamos com as mais atrativas narrativas da literatura contemporânea nacional. 😉

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  7. Uma coisa interessante aconteceu comigo enquanto eu lia teu post. Fiquei me lembrando de alguns trechos específicos de um livro que comprei depois que vi um publi teu, o Ovelha, do Gustavo Magnani. Não quero dizer que ele "chupinhou" esses trechos deste conto, mas a sensação de semelhança entre o clima que o autor quis criar em Ovelha e a sensação que eu tive lendo teu post são muito semelhantes. Vou atrás deste conto pra comparar. Abraço e parabéns pelo teu trabalho. Teu canal é o meu preferido no YT.

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