CONTO #18: Êxtase (Katherine Mansfield)

       
          
          Publicado pela primeira vez em 1918, Êxtase (Bliss) conta a história de Bertha Young, essa mulher estranhamente feliz
            Tudo vai bem na vida de Bertha. Trinta anos de idade (considerada por muitos como o início da derrocada na vida das mulheres - note bem o início do conto: "Embora tivesse trinta anos, Bertha Young ainda passava por momentos como aquele..." [momento, esse, de alegria inexplicável, veja bem]). Bem casada. Mãe de uma bebê linda e fofa. Vida boa, sem grandes preocupações, a não ser a presença constante de uma babá que às vezes passa dos limites, e de quem tem um certo ciúme com relação à bebê. Amigos influentes.
       Naquela noite, Bertha e a família recebem amigos para o jantar. Dentre eles, uma amiga diferente, que ela adora e que o marido achincalha em comentários para a esposa. 
          E o que parece um conto sobre a vidinha boa da classe média, vai tomando a forma de uma história de infidelidade; na sua cara; bem debaixo do seu nariz; com todas as dicas sendo jogadas, assim, no seu colo. E só você não vê. Tudo isso de forma elegante e comedida.
         Ao ler o conto, bote reparo no simbolismo, principalmente envolvendo a lua e a pereira no jardim. Fica a dica.

"O que fazer se você tem trinta anos e, ao dobrar a esquina da própria rua, de repente
é tomada por uma sensação de êxtase, êxtase absoluto! - como se tivesse engolido um pedaço
luminoso daquele sol da tarde e que ardesse em seu peito, irradiando uma chuvinha de centelhas em cada partícula, até cada uma das pontas dos dedos...?"
(p. 11)

"Como isso era absurdo. Por que, então, ter um bebê se ele deve ser mantido - não em um estojo como um violino raro, raríssimo - e sim no colo de outra mulher?"
(p. 14)

"Harry tinha tanto gosto pela vida. Ah, como ela apreciava isso nele. E sua paixão
pela luta - por encarar tudo que surgia contra si como mais um teste de poder e coragem - , isso ela também entendia. Mesmo quando ocasionalmente podia lhe fazer parecer um pouco ridículo àqueles que não o conheciam bem... Mas havia momentos nos quais ele se atirava numa batalha onde
não havia batalha... "
(p. 19)

"Não, eles não tinham a mesma sensação. Eles eram uns queridos - queridos -, e ela adorava tê-los
ali, à sua mesa, e oferecer comida e vinhos deliciosos. Para dizer a verdade, desejava
lhes dizer como eram encantadores, e que grupo decorativo compunham,
como pareciam estimular uns aos outros e como lhe faziam lembrar
uma peça de Tchekhov!"
(p. 21)

          Depois da leitura desse conto, fiquei com a impressão de que Clarice Lispector não só lia Katherine Mansfield, como a copiava fortemente. 

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