CONTO #5: O gerânio (Flannery O'Connor)


          Publicado em 1946, O gerânio (The geranium) é um daqueles contos em que, ao iniciar a leitura, você acha que sabe para onde a autora o está levando, MAS aos poucos você vai percebendo que a história vai tomando um rumo completamente diferente. De início a gente vai conhecendo paulatinamente o senhor Dudley, que morava em uma pensão desde a morte da esposa, e que, um belo dia, resolve aceitar o convite da filha para ir morar com ela e sua família. Parecia uma boa ideia - o senhorzinho queria mesmo conhecer a Nova Iorque que assistia nos filmes. Ela prometeu que ele teria seu próprio quarto e ele deve ter imaginado que seria deixado em paz, mas logo a gente vai descobrindo que não era bem assim. Nova Iorque não era como nos filmes e Dudley dividiria o quarto com o neto de dezesseis anos, com quem não conversava. A filha, que achava que o pai precisava se sentir ocupado, lhe pedia favores repetidamente. Vem a saudade da pensão no sul. Dos amigos. Da paisagem que incluía um rio e gerânios. Um vizinho de janela também tem um gerânio. E o senhorzinho sabe de cor o horário em que a planta é colocada para tomar sol na janela todos os dias. Até aí, parece que o conto é sobre esse senhor de idade, suas saudades, sua melancolia. Então começamos a notar uma certa inclinação racista nesse senhorzinho e que parecia tão simpático. Seu racismo com relação aos novos vizinhos negros chega a transtorná-lo fisicamente. E o que parecia ser um conto sobre a melancolia da velhice, passa a ser um conto sobre racismo - mas aquele racismo arraigado, de quem viveu a vida toda onde "negro tem o seu lugar"; que não aceita que a filha se submeta a viver em um prédio onde negros vivam como ela vive, ou seja, um racismo incurável.

"O gerânio que punham na janela lembrava-o de um garoto de sua terra, um tal de Grisby, que
teve pólio e era deixado no sol, todas as manhãs, para ficar piscando os olhos na cadeira de rodas."
(p.9)

"Mas é que havia por dentro aquela coisa, o desejo que o empurrava para conhecer Nova York (...)
Uma grande cidade era um lugar importante, e a tal coisa dentro dele de repente subiu e escapuliu
e o venceu. Na cidade vista num filme haveria um espaço para ele! Era um lugar importante, 
lá ele teria o seu quarto e então disse que sim."
(p.10)

"Mas às vezes, quando somente a filha e o velho estavam no apartamento, ela era capaz
de sentar-se para bater um papo com ele. Primeiro ela precisava pensar no que teria
teria a dizer, e que em geral lhe escapava antes do momento que considerava oportuno
para se levantar e ir fazer outra coisa. Ele assim tinha de falar qualquer frase
e se esforçava para não repetir o que antes já havia dito. Da segunda vez, ela nunca escutava. 
tinha tomado providências para que o pai passasse os últimos anos de vida com sua própria família, e não numa pensão decadente cheia de velhotas cujas cabeças já vacilavam. Estava cumprindo sua obrigação, ao contrário dos seus irmãos e irmãs, que disse nem queriam saber."
(p.13)

"E o negro perguntou:"O senhor é daqui?"
O velho Dudley, olhando para a porta, fez que não com a cabeça. Para o negro, até então não tinha olhado. Durante toda a subida nem sequer o olhou de fato."
(p.21)

"Havia um homem olhando para ele. Um homem, na janela do outro lado do beco, não tirava os olhos dele. O homem via o velho chorar. Quem estava onde devia estar o gerânio era um homem de camiseta que o via encher-se de lágrimas, à espera de ver sua garganta estourar. O velho Dudley o olhou de volta. Era o gerânio que devia estar lá."
(p.21)

Mais um conto de deixar no coração pesado.

Onde encontrar O Gerânio: F. O'Connor Contos completos





Um comentário:

  1. Infelizmente está esgotado! me interessei e vou anotar aqui para comprar.

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