CONTO #7: A terceira renúncia (Gabriel Garcia Marquez)


          Publicado em algum lugar entre 1947 e 1955 (ano de publicação da coletânea de contos Ojos de Perro Azul), A terceira renúncia é um conto assustador. Simples assim. Sobre um rapaz, hoje com 25 anos de idade, mas que está morto desde os 7. Posso estar enganada, mas o garoto foi diagnosticado com febre tifoide e, desde então, vive em estado vegetativo dentro de seu ataúde. Continua crescendo e o crescimento aparente é o único fato que faz a mãe acreditar que seu filho ainda está vivo. O horror vem da descrição das sensações do garoto contadas por um narrador em terceira pessoa e que é o único que sabe o que se passa pela cabeça do morto. Desde a dor de cabeça insuportável causada por um ruído repetitivo, até o pavor pelos ratos que andam pela sala de madrugada e o medo de ser enterrado vivo.


"Assim era aquele ruído: interminável como o golpear de cabeça de um menino contra um muro de concreto. Como todos os golpes duros dados contra as coisas sólidas da natureza. Mas já não o atormentaria mais se pudesse cercá-lo, isolá-lo. Ir talhando contra a própria sombra a figura variável. E agarrá-lo. Apertá-lo, agora sim definitivamente; atirá-lo com todas as forças contra o pavimento e pisoteá-lo com ferocidade até quando não mais pudesse mexer-se verdadeiramente, até quando pudesse dizer, arquejante, que dera morte ao ruído que o atormentava, que o enlouquecia e que agora estava atirado ao chão como qualquer coisa comum, convertido em morto integral."
(p. 10)

"Sentira esse ruído "nas outras vezes", com a mesma insistência. Sentira, por exemplo, no dia em que morreu pela primeira vez. quando - à vista de um cadáver - percebeu que era seu próprio cadáver. Olhou-o e se apalpou. Sentia-se intangível, inespacial, inexistente. ele era verdadeiramente um cadáver, e já estava sentindo, sobre seu corpo jovem e doentio, a passagem da morte."
(p.11)

"- Senhora, seu menino tem uma enfermidade grave: está morto. Apesar disso, faremos todo o possível para conservar sua vida mais além da morte."
(p.12)

"Tinha satisfação materna de vê-lo. Assim mesmo, cuidou de evitar a presença de estranhos na casa. Afinal, era desagradável e misteriosa a existência de um morto, por longos anos, em uma residência."
(p.15)

"Um dia sentirá que se desmorona seu sólido esqueleto; e quando tratar de mencionar, de examinar cada um de seus membros, não os encontrará. Sentirá que não tem forma exata definida, e saberá resignadamente que perdeu sua perfeita autonomia de vinte e cinco anos e que se converteu num punhado de pó sem forma, sem definição geométrica."
p.17)

"Sabia agora que estava verdadeiramente morto, ou ao menos inapropriadamente vivo. Dava no mesmo."
(p.20)

Excepcional.

Onde encontrar A terceira renúncia: Olhos de cão azul (Gabriel Garcia Marquez)

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