Jim Duran para Governador do Universo (por Hpcharles)



Em primeiro lugar, gostaria de deixar claro que não conheço Jim Duran pessoalmente. Não posso me considerar seu amigo ou confidente, vez que não conquistei tal prerrogativa. Tampouco, quem me conhece ou acompanha meus textos - cada vez mais escassos - sabe que não sou muito afeto a afagos. Estou mais para aquele cara intragável que reclama e critica a quase tudo com a complacência de um huno, com ou sem razão e fora de hora, culpando tais surtos como mero fruto de uma infalível reflexão pouco otimista acerca de um mundo onde existe pouquíssimo whisky para se resgatar e se separar os menoscabados sãos e ilibados, dos filhos das putas e ignorantes que abundam como ratos em nossa combalida e acrimônia sociedade.
Esclarecido isso, é de bom alvitre ressaltar que conheci Duran através de minha esposa (mais uma que devo a ela). Confesso, despudorado, que sigo seu canal no Youtube e vejo seu Instagram com fidelidade de cão guia. O fato de o professor ter apenas pouco mais de 800 inscritos e o Bonde da Stronda quase 600.000, para mim já bastaria para evidenciar que, se deus existe, ele não se importa. E para provar, evidentemente, que estamos fodidos. E mal pagos. E sem vaselina. E com vidro moído.
Quando não se conhece uma pessoa a quem se admira nos permitirmos traçar em nossas mentes doentias, coalhadas de patologias carinhosamente esculpidas por nossos amados progenitores, as mais variadas acepções e julgamentos, livres de quaisquer limites. Bom, pelo menos até que o corpo de bombeiros bata em nossa porta ou que o Haldol com Fenergan faça efeito. Mas só se for o caso. Jim é tão legal que não inspira qualquer negatividade. Nem os sociopatas se irritam e imbecis não o seguem. E se seguem, não deveriam.
Pois vou me permitir, ao arrepio de consentimento, passar minhas impressões sobre o poeta e mestre que, por trapaça do universo, nunca tive em sala de aula. É claro que posso estar redondamente enganado, mas que se foda...as impressões são minhas.
Pra começo de conversa, Jim Duran faz o impossível nos dias de hoje. É um gordo aceito. Bebe, fuma e está em constante movimento físico e intelectual. Parece ser queridíssimo do público feminino e é cool as fuck. Para mim, o cara é a epítome do que considero o verdadeiro Rock and Roll. É como se o Hank Moody resolvesse trocar a cocaína pela picanha com a gordurinha nas bordas e isso não alterasse em nada os episódios.
“Ah, Hp...que exagero”. Exagero nada. “Eu quero acreditar”. Duran não teve nenhuma oportunidade em Hollywood e nasceu no Brasil. Vamos contextualizar a parada. Tá dando duro em sala de aula, onde deve enfrentar muito mais alienígenas do que Duchovny jamais o fez em todas as temporadas de Arquivo X.
Jim é aquele cara que mostra seus livros sentado em uma mesa em frente à geladeira e penso comigo... “danem-se os livros...mostra o que tem na geladeira”. Não que não curta o que o sujeito lê, muito pelo contrário. Mas é que de Duran espero mais. Espero que faça um poema sobre a mostarda especial que comprou na noite anterior, contrariando o que reza a cartilha de quem recebe salário de professor. E espero isso porque quero copiá-lo. Sem ele saber.
Eu sei que aqueles que são seus amigos de verdade, os que o amam intensamente, seus familiares, alunos e até as bulas de remédio, lhe enchem os colhões para que pare de fumar, para emagrecer, para parar de beber. Isso é comezinho quando se atinge certa idade. Mas eu, egoísta que sou, quero é lhe levar uma garrafa de Jack Daniels para a bebermos inteira. Aos shots e ouvindo AC/DC. Porque bêbado, Duran deve ser ainda mais legal. Aquele bêbado que se acalma e não se torna excessivamente amável, porque no caso do poeta em comento, não seria preciso. Porque dormiria em sua embriaguez, porque se sabe capaz de amar sóbrio.
É claro que, consignada a minha inexplicável empatia - essa é a palavra - pela personalidade afetuosa e interessante que acompanho de longe, e resignado pela distância física, deveria, por apego ao bom senso e amor ao próximo, ensaiar a  mesma cantilena que ele deve estar de saco cheio de ouvir, no sentido de se cuidar. Bom, Jim...sorry, buddy...não será por mim. Para mim você não tem de mudar nada. Ok, poderia mudar para o Rio. Tem um boteco legal aqui perto. Eu converso com o Fagundes e ele abre uma conta para ti. Fico como fiador. Servem linguiça frita acebolada e chopp gelado. Não recomendo o ovo rosa, mas o Fagundes é gente boa e tem sempre um Engov sob o balcão. Com sorte, faria vista grossa ao charuto. Mas tem que conquistar o portuga, irmão. Isso é contigo.
O que me impressiona é que, nesse universo de vlogs e blogs literários, onde indicam tantas coisas boas, tantos livros fantásticos, tantos filmes imperdíveis, pouca gente recomende Jim Duran. Então é isso. Eu recomendo Jim Duran. Pronto. Sua poesias enternecedoras, suas fotos despretensiosas, quase todas com um coeficiente de nostalgia, seus comentários eivados de gentileza, sua personalidade naturalmente descolada, seu coração onde parece caber todo um país, tudo fica devidamente recomendado.
Ontem ouvi Duran recitar Bukowski e não ouvi a voz de Duran, mas de Bukowski. Primeiro pensei em prestidigitação vulgar, mas não, eu deveria saber. Foi mediunidade pura. Uma combinação de além-túmulo. Eles se entenderam. Foi isso. Jim irá negar, mas foi isso.
Quando vejo seus vídeos, sou estranhamente acometido de um paradoxal sentimento de raiva e de culpa. Raiva porque queria que ele fizesse mais vídeos, porque desejo que ele fale mais sobre como enxerga a vida à revelia das frivolidades cotidianas, porque dele, naquele momento em que singra a tela de meu computador, exijo ilações metafísicas e, porque, acima de tudo, entendo que Jim precisa mostrar o que tem em sua geladeira. Mas e a culpa? A culpa é justo porque tive raiva dele por um segundo que seja. Fogo de artifício. Como ter raiva de uma figura como essa? Duran é aquele tipo de sujeito que te daria a última mordida de seu Big Mac. O maldito é ungido pela malemolência comportamental. E ponto.
Mas como escrevi, nem sei muito do cara. Tudo chute. E, se estiver errando o gol, por obséquio, não me contem. E não me contem porque fidedignamente acredito que precisamos de mais Duran no mundo. Precisamos de mais Duran recitando Bukowski no mundo. Precisamos de mais fotos do gordo aceito, bebendo whisky e fumando seu charuto, com seu cachorro negro no colo, sendo professor, abraçando genuinamente e sendo abraçado ainda mais genuinamente e largando um foda-se, só para mostrar que é humano e que pode. Porque Duran é daqueles que cai e levanta. Que cura ressaca com cerveja, onisciente de sua mortalidade e fraquezas, mas também sabedor que é o resultado inelutável do que sua existência filosófica e poética fez dele. Jim Duran então não se debate ou esperneia não porque sabe que seria inútil. Mas porque é meio que teimosia, meio que bebida e fumo, meio que dono de um cachorro negro, meio que indomável, meio que mestre, meio que poeta.
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