Internet, terra dos bravos, lar dos destemidos (por Hpcharles)


Um dos primeiros textos que escrevi nesse fagueiro bloguinho cuidava da agressividade e da estupidez com que algumas pessoas defendiam seus livros e autores preferidos. Começava a acompanhar vlogs literários com um pouco mais de assiduidade e, mesmo com todo o meu background, oriundo de um canal que abordava assuntos ligados a ateísmo e religião, me surpreendi com a virulência das postagens, com as fuleiragens e com os xingamentos gratuitos ao se manifestar qualquer opinião que não fosse de encontro à exímia pontaria da Katniss.
Mesmo que nada ou muito pouco sustentasse seus argumentos, alguns fãs de portentosos atores e distopias “aborrecentes”, excitados com a masculinidade do Edward ou fascinados com a originalidade de Hunger Games, pareciam insultados pessoalmente com qualquer crítica que se fizesse a tais obras-primas.
E assim batiam pezinho, chamavam de burros, clamavam aos céus por justiça. Fiquei impressionado. Do alto da minha tola ingenuidade, acreditava que ninguém discutiria por livros. Bom, pelo menos não tão hostilmente. Como escrevi na oportunidade, na minha época não havia “team Sherlock ou team Poirot”. Aquilo tudo não fazia muito sentido para mim. Talvez porque não houvesse mesmo. Religião, vá lá, era mais do que esperado, afinal é algo impregnado na cultura familiar, é a alavanca moral para muitos. Mas livros...foi meio que surpresa. Confesso.
Algum tempo se passou e percebo com tristeza que a prática da catarse digital, com o abuso da vulgar e contemporânea válvula de escape das frustrações diárias através do teclado, não é prerrogativa de discussões acerca de livros, política, ou religião. Hodiernamente, ela impera até no que tange ao iogurte. E isso acontece porque, evidentemente, o problema está nas pessoas. Dedução óbvia, porém desagradável de engolir.
Lamentavelmente, a internet tem se tornado estrada pavimentada por pseudo intelectuais que ululam paudurescentes, ávidos por atenção e por usarem as palavras que aprenderam naquele dia. Por adolescentes chateados com mais uma espinha que apareceu “out of the blue”, justo quando a Minancora acabou. Por fascistas, que vivendo em uma bolha coalhada de valores morais “superiores”, vociferam para que tais sandices sejam impostas a todos, suprimindo a diversidade. Por fundamentalistas religiosos, ansiosos por salvar quem não deseja ser salvo. Por analfabetos funcionais que não se dão ao trabalho de dar um simples Google no assunto antes de comentar estultices, mas que já chegam xingando, estabalhoados que são. E com “ch”, passando imediato recibo de sua condição.
Me perdoem a lhaneza repentina, mas estou cansado. Em que pese a incrível ferramenta de consulta, a estupenda capacidade de interatividade ao alcance dos dedos, a irrefreável propensão à sociabilidade e entretenimento, a internet, também, é a casa dos mal amados e dos cretinos. E eles aparecem em cachos. Procuram o embate, são draconianos em suas opiniões, previsíveis, os machos alfas dos comentários. Prontos para fazer de qualquer discordância uma luta de MMA. Só porque atrás do teclado são foda.
Pegam raivinha, chamam “pra porrada”, negativam aleatoriamente, parvos que são. E notem bem, não estou aqui defendendo a tolerância com o intolerável, o respeito que não foi conquistado, a cortesia britânica ou condenando a arrogância oriunda de conhecimento superior. Isso seria hipocrisia da mais vil e pedestre. Até porque é possível ser extremamente indelicado, quiçá rude ou xucro, sem o uso de termos chulos, de palavrões. O que me chateia mesmo, é o pé na porta que encerra o assunto. Aquele que previne o pleito, a objeção, o diálogo. Isso é péssimo. Mata o tesão.
Asininos, os caras perdem antes mesmo de começar o jogo, já que o negócio é ter razão, mesmo que a força. Em suas cabecinhas vazias, é preferível serem ridículos a parecerem frouxos, seja lá o que isso signifique para eles. O insuportável para tais sujeitos - e não digam que nunca se depararam com infelizes desse calibre em suas viagens binárias - é a admissão de que podem aprender algo com o contraditório. Que possam amealhar conhecimento através da opinião alheia.
Comigo é justamente o contrário. Aprecio o calor da discussão e, por vezes, sou eu quem coloca mais álcool na fogueira, mas sou inteligente o suficiente para perceber que aprendi mais quando estava errado do que quando acreditava estar certo. Mudo de opinião face ao melhor argumento, sem pudor ou dor na consciência. É uma pequena virtude entre tantos defeitos. Mas o acerto dessa postura é de meridiana clareza.
A pluralidade de opiniões, os diferentes focos e ensejos sobre determinado assunto, a inserção acadêmica, tudo isso deve ajudar ao se abordar uma questão. Pelo menos deveria. Mas parece que não. Espanca os olhos a multiplicação de donos de verdades imutáveis, que desprezam o sarcasmo, mas demonstram incrível estima pela escatologia, pelos xingamentos mais mequetrefes.
Desde quadrinhos, passando pelo filme de ontem, até “a cerveja que presta”, para eles tudo parece discussão de arquibancada. Se alguém ousa afirmar que o gosto deles não é o melhor, ou esposar visão distinta da que possuem os Hércules da internet, pronto. É o suficiente. "The treta has been planted".  Isso é cansativo. Para caralho.
E tudo porque o cara PRECISA dar a opinião dele por mais infantil, repleta de chavões, mal educada que seja. Se não a explicitar ele sucumbe, digerido nas próprias fezes. Notem, não é preciso ser cordeirinho, não é isso que se discute aqui. A questão é o carrinho na canela ofertado sem sequer ter se buscado a bola. É preciso haver o jogo, pelo menos. A parada é a ode ao improfícuo, ao desserviço,  é a burrice contumaz.
Qualquer coisa parece ofender. Bom, nem tudo. Sejamos justos. Esses mesmos estelionatários intelectuais, exceções consideradas, normalmente parecem ter um apego especial pela homofobia, pelo racismo, pela misoginia, pelo preconceito de qualquer teor. Quem discorda disto recebe um arroto mal cheiroso nas fuças, sob a pecha de desprezo pelo politicamente correto. O curioso é que também não nutro nenhuma simpatia por tal engodo, mas não vejo como isso possa ser traduzido como sinônimo ou servir de desculpas para posts excludentes, egoístas, repletos de insânias hidrófobas. O caso seria de menos educação formal? Ou de "menas" leitura? Digam vocês.
Penso que não estou sozinho nesse sentimento. Por vezes converso com conhecidos que já estão de saco cheio. Que passaram a usar a internet para qualquer finalidade que não incorra em diálogos. Argumentam que o nível “tá muito baixo”. E fica cada vez mais difícil refutar essa assertiva. Tal o manancial de falácias, tal o desinteresse pelo contraditório genuíno, tal a indiferença pelo que o próximo pode agregar à conversa.
Muitas coisas legais podem ser encontradas na internet, muitas mesmo. Mas ao que parece esses onagros tem se reproduzido religiosamente, atrapalhando a brincadeira. Estão por todos os lados. Joselitos desengonçados. Disfarçados, apócrifos ou de cara limpa, com frequência de carola em missa, néscios como sempre. Me parece que a vida já está difícil demais. Existe uma quantidade enorme de aborrecimentos e vicissitudes inevitáveis no cotidiano. Trânsito, doenças, contas, impostos sem retorno, falta de segurança pública, entre tantas coisas desagradáveis. Será que precisamos de mais uma? É uma pergunta justa. A gente acaba por se policiar, por puxar o freio de mão.
O fato é que pelo que ouço e me dizem, vem crescendo o número de pessoas que se furta a redigir comentários fora do trivial ou do comezinho. Justamente para evitar escaramuças. Isso é triste "bagaraio". Claro que agradecimentos e elogios são ótimos, um puta incentivo. Porém, mais úteis ainda, são aqueles recados que contribuem para a discussão de alguma forma. Que trazem informações pertinentes, opiniões bacanas, um olhar dissemelhante sobre a matéria.
Fico pensando como seria o dia em que os que desejam contribuir de verdade se ausentarem de vez. Restarão então apenas os trolls incontaminados, os indesejados em todas as searas, os fracassados em todas as esferas, os rejeitados de toda a sorte. Um mundo onde atributos aspergianos serão endêmicos, os coloquialismos e ironias incompreensíveis, um paraíso onde cada frase que não levar “LOL” ao final será assumida como verdadeira. Que belo panorama.
O autêntico Éden, onde, por trás de cada teclado, haverá mãos hirsutas, guerreiras, besuntadas de Cheetos e molhadas pelo o suor da Fanta "litrão" bebida no gargalo, com unhas pintalgadas ou com uma demão do esmalte incolor campeão. Nesse dia eles terão, enfim, vencido a batalha cibernética, dando mais um passo na direção de redimir a humanidade, fazendo deste pequeno planeta azul, um mundo melhor.
Quanto a mim, já terei me ido faz tempo. Embaraçado e derrotado, resignado a meus aposentos, só me restará colocar os pés para cima, e, com um copo de whisky em uma das mãos, e segurando um bom livro desbotado em outra, acatar meu desbaratamento, acompanhado pela solidão de meus amigos.

This Star Won't Go Out (A estrela que nunca vai se apagar) - Esther Earl


Comprei esse livro em e-book.

Fico sempre surpresa com a rapidez com que a Amazon envia o livro para o meu Kindle.

Mas não foi pela rapidez e praticidade que resolvi comprar esse livro em ebook, e, sim, porque  eu sabia que não seria o tipo de livro que eu gostaria de manter na estante;  eu não o releria.

Alguém deve estar se perguntando: para quê comprar um livro que você já sabe que não vai querer reler?
Vou responder por mim, obviamente: porque eu precisava ler esse livro.

Explico.

Quando adolescente, e arranhando os primeiros blogs no Live Journal, em meados de 1996, uma das coisas que já me incomodavam naquela época eram os blogs de pessoas doentes, contando com todos os detalhes suas situações, seus tratamentos, relatando tudo de duas formas possíveis: A) como se nada fosse (estilo: “fui ali comprar um quilo de batatas”), ou, B) com carga emotiva carregada de pedidos implícitos de “tenham dó de mim”.

Esses blogs faziam sucesso.

E eu nunca entendi muito bem por quê.

Provavelmente, pelo mesmo motivo de tanta gente assistir Datena (programa sensacionalista de extrema baixa qualidade, sendo Datena o sobrenome do apresentador): comparar seu sofrimento ao dos outros e perceber, que, a vida, apesar de seus percalços, ainda é boa, e melhor do que a de muitos por aí.

Mas, o que me aborreceu, mesmo, foi a descoberta de que diversos desses blogs grandes, escritos por doentes terminais, na verdade eram embustes......................

Revolta total dos leitores assíduos.

Mais alguém aí pegou essa onda de “sick blogs”nessa época?

Quando eu descobri que algumas pessoas “inovaram”, fazendo em vídeos postagens sobre seus tratamentos de cancer, aids, e outras doenças igualmente graves, automaticamente me lembrei dos embustes.

(Que fique bem claro que, alguns blogueiros da época realmente usavam seus blogs como válvula de escape para seus problemas de saúde.)

Quando os Vlogbrothers, autores de um dos canais do youtube que eu já seguia desde meados de 2006, indicaram o canal dessa garota, Esther, adolescente que sofria com cancer de tireoide, é claro que lembrei mais uma vez dos embustes. Mas eu já era uma “nerdfighter” tardia, velha e chata, é verdade; e,  mesmo com o pé atrás, segui a dica e passei a acompanhar os vídeos da garota. E, sim, ela reclamava da vida, mas não era só isso – era uma garota bem madura para sua idade além de engraçada e divertida.

Não vi muitos dos seus vídeos (postados sem muita frequencia); nem comentava. Mas também fiquei triste quando soube de seu falecimento. E me deu aquele calorzinho no peito ao saber que a história dela serviu de inspiração pra um dos livros do Sr. Green. Que está virando filme, vejam bem.

O livro (The fault in our stars, ou, A culpa é das estrelas, no Brasil) não é sobre a Esther – mas o This Star Won't go out, traduzido rápido demais para o meu gosto de leitora desconfiada, é.

O leitor tem a oportunidade de ler depoimentos de amigos e familiares, bem como velhas entradas escritas pela Esther para seu diário, entradas antigas em seus blogs; trechos de bate-papos com seus amigos virtuais; desenhos feitos por ela; cartas aos pais; e, as três partes que quebraram as minhas pernas: a carta que ela escreveu para a Esther de 17 anos (ela só viveu até os 16...), a descrição do momento de sua morte, escrita pelo pai, e a transcrição do discurso do pai no velório da filha.

Chorei. Litros.

De modo que, não sei se terei vontade de reler este livro algum dia.

Já me disseram que a edição física é linda e colorida (o oposto da minha edição pro Kindle, que traz os desenhos da Esther e suas fotografias em preto e branco).

E, sinto muito, mas não vou conseguir escapar do cliché: temos muito o que aprender com essa menina fofa.

Acho meio creepy, mas os pais ainda mantém o canal da filha no youtube.


Música para hipsters e redenção (por Hpcharles)



Muito jovem abandonei a guitarra. Os estudos no colégio onde era semi-interno, depois a faculdade concomitante ao trabalho, a puta da vida, tudo isso me afastou da música. Pelo menos aquela que poderia contar com a minha participação em sua criação ou execução. Isso sempre me fez mal. Sempre.

Mas na maioria das vezes, é assim que a banda toca. Aparecem barreiras, muros, empecilhos que nos desviam das rotas mais agradáveis e nos direcionam rumo ao óbvio, ao trivial e, quase sempre, ao que é o suficiente para sobreviver.

São contas, família, preocupação com o trabalho, uma luzinha piscando no painel do carro. Existem tantas possibilidades de desvios que por vezes aquele verdadeiro prazer, aquele hábito coalhado de tesão inato, é relegado para segundo plano. Depois para terceiro. Quarto. E enfim ele é subjugado. Foda...

Acontece que essa mesma vida que lhe tomou aquela paixão, vira e mexe te recorda que tal amor existiu. E assovia que ele não morreu, apenas adormeceu. Pior. Te adverte, através de mil sinais, que um dia a princesa vai acordar, mas que para isso é preciso um beijo. Não se impende um ósculo de cinema. Um na bochecha já deve ser o suficiente. E é justo aí que a maioria erra.

Carecemos de algo que foi ficou na juventude e, muitas vezes, sentimos o impulso de abraçar aquela sensação ou prazer abandonado. Mas não podemos ou devemos embarcar em um resgate atabalhoadamente, como se jovens ainda fôssemos. Podemos ser “lambreteiros” aos quarenta. Mas seremos “lambreteiros” de quarenta. Isso precisa ficar claro como o sol. Um carro esporte não o fará voltar aos vinte se você tiver cinquenta. Mesmo que você o use com o propósito e direção de uma pessoa de vinte. Nesse caso você não irá rejuvenescer, apenas se tornará ridículo.

No entanto, mesmo face a trágica e inapelável realidade imposta pelo tempo, é possível saborear aquele prato que outrora lhe era tão precioso. Basta você achar a receita certa, atualizada, coerente, viável. O único ingrediente que não pode faltar mesmo, é a coragem. Coragem para recomeçar, para descobrir que ainda não é tarde. Coragem para entender que a cútis das mãos não é tão vistosa quanto outrora, mas que os acordes continuam os mesmos. E foi nisso que apostei.

Compreendi que não era apenas o afã de voltar a mexer com música, mas sim a necessidade de me expressar. Minha proposta de vida atual, minha cristalina misantropia, cumulada com a preguiça vagabunda que nos acomete em determinado momento de nossa existência, seja por questões orgânicas, seja por canalhice incontida, nunca me fez sequer cogitar ter uma banda novamente. Então como sair dessa sinuca de bico?

Bem, nunca fui muito fã de música popular, ou dos jabás tocados repetidamente no rádio. Tampouco me tornei um saudosista, apegado aos mesmos conjuntos que ouvia na adolescência. Aliás, isso é um ponto positivo. Não há mérito ou inteligência alguma em se cultivar o hábito obtuso que muitos adquirem após uma certa idade, de acreditar que a solução para o que há de ruim "de hoje" está na panaceia do “o bom era na minha época”. E o motivo é simples: ao se adotar esse raciocínio, se perde muita coisa legal. Esse argumento é intransponível, a meu ver.

Comecei a estudar novamente sobre equipamentos e ler de forma obstinada sobre o que foi criado de novo desde que parei de tocar. Muito tempo se passou e muita coisa havia acontecido. Tive a sorte de me deparar com uns videozinhos postados no Youtube por um carinha chamado Andy Othling. Curti na hora, mesmo não sabendo o que estava curtindo. Um cara sentado, uma guitarra, um monte de pedais e o mais importante...um bom coeficiente de originalidade.

Quase ninguém o assistia à época, mas eu não perdia um vídeo. Gostava da técnica, da sensação que a música do mancebo passava, do fato de que ele não pedia ou precisava de ninguém para dar o recado. Do jeito dele, criava algo não necessariamente novo, mas indubitavelmente pessoal.

Pensei, "I can do that". Claro, não sou profissional, não possuo a técnica do sujeito, nem posso investir em equipamento como faria uma pessoa comum que vive nos EUA e compra pedais de U$300 por U$300. Por outro lado, compreendi que a falta de pretensão poderia ser minha maior aliada. Lembrei que, ao arrepio de meus inúmeros defeitos e de minhas mais pedestres características, possuo uma virtude da qual não abdico: "I don’t give a shit". Sou apegado a ela. Portanto faria música sem pudores e, acima de tudo, para mim. 

Desta feita, comecei a brincar. Errando muito mais do que acertando, o que, diga-se de passagem, acontece até hoje. Mas não me entrego e insisto, como um funâmbulo desengonçado, fazendo das cordas da guitarra a minha corda bamba. Aprendi a montar pedalboards, a posicionar pedais na cadeia, a microfonar um amplificador, entre tantas coisas legais. Ainda assim, queria fazer algo diferente. Como sempre gostei de cinema e a música que faço me parece bem pertinente à trilhas sonoras, tive a ideia de fazer um videozinho de dois minutos combinando um time lapse com a música. A meta então passou a ser casar as imagens com o som, criando, acima de tudo, uma sensação. Soundscapes para landscapes.

Ocorre que, para a minha genuína surpresa, que persiste até hoje, as pessoas curtiram. Vejam só. Por mais experimental, subjetiva, estranha "bagaraio", que seja a insânia proposta. Provando que ainda há espaço para algo fora do óbvio, do comercial, das rimas néscias vendidas a granel em nossas tvs e rádios. E por favor, não estou dizendo que é bom, pois isto sim, seria a pretensão a que me referi antes e que tanto desprezo.

Nos EUA a ambiência se difunde e nem poderia ser diferente, já que apareceu como uma alternativa a mesmice musical que temos por aí hodiernamente. Ainda é considerada uma música feita por hipsters, para hipsters. Mas que se foda. A verdade é que cada vez mais as pessoas se interessam por suas nuances e possibilidades. Tenho visto filmes independentes com trilhas que parecem ter sido feitas com apenas uma guitarra e talvez um pequeno teclado. Novamente, não que isso seja novo ou revolucionário. Apenas a técnica empregada é. E é porque o equipamento utilizado ou é recente ou se tornou acessível apenas agora.


O fato é que as possibilidades são infinitas. Me dá enorme prazer ver a criatividade com que pessoas descompromissadas com o mainstream, utilizam pedais incomuns para criar efeitos improváveis. É revigorante saber que tem gente fazendo música livre de antolhos ou de regramentos castradores, que engessam a mente e os dedos.

Eu optei por fundir aos vídeos e às músicas, em alguns casos, citações escritas ou trechos de poemas recitados, por minha notória e irrefreável afeição à literatura. Mas o interessante é que é possível ser inserido qualquer elemento à ambiência, dependendo das influências e do que escolher quem a faz. Essa amplitude é relevante. Ainda mais hoje em dia.

Mas escrevi tudo isso apenas para dizer que nem sempre é preciso abandonar os sonhos. Os projetos, outrora engavetados, podem ser novamente iluminados. Basta que se encontre o caminho para isso dentro do razoável, do possível, sem ilusões. Quando muito jovem você quer ser o The Edge. Algum tempo depois você descobre que não será. Porém, mais tarde, você percebe que nunca precisou ser. Olha que legal.

O importante é que toda aquela sua energia contida, clamando por se expressar, possa ser gritada, bem como todo aquele recado que fora um dia calado, enfim possa ser transmitido. Se gostarem ótimo, se não curtirem se salvarão os mortos e feridos, da mesma maneira. A crase sanguínea é que você esteja aproveitando. Que esteja se divertindo, sendo feliz exercendo sua individualidade e estendendo os limites de sua criatividade.

Sendo assim, escreva, pinte, fotografe, filme, pegue de novo o instrumento empoeirado atrás da porta. Aquele mesmo que você guardou aos 18, quando eivado de sonhos, abdicou deles face a um “bem maior" ou na expectativa de um "mal menor". O inelutável condão da arte em quaisquer de suas matizes é o de fornecer os elementos capazes de mudar as pessoas e, com isso, transformar a percepção do mundo que nos cerca. Porém, tão importante quanto isto, é o que ela faz com quem a perpetua de alguma forma. Pois atingindo aos outros, atinge também a seu criador, o alterando para sempre.

Sabe aquele garoto de 18 anos? Aquele mesmo que abandonou a música? Ele não existe mais. Apenas quando toca a guitarra. Aquela mesma que também fora rejeitada. Nesses parcos minutos então, o tempo, a idade e o passado, não fazem diferença e nem poderiam. Está aí o resgate. Eis o propósito atingido. No entanto, o que realmente importa, o que conta ou prevalece, é a música. Ela foi o início e deve ser o fim da história.


Livros vs Filmes. Really?! (por Hpcharles)




Se vocês acompanham este humilde bloguinho, sabem que não costumo fazer resenhas de livros, salvo raras exceções. Isto ocorre por dois motivos: primeiro porque tem gente mais competente do que eu para isso e, segundo, porque tenho lido menos do que deveria e assistido mais filmes e séries do que manda a melhor medicina.

De fato, quando a Tati me convidou para escrever neste espaço, achei por bem ocupar o lugar que estava mais vazio. Pensei...“take one for the team”, HP. Resolvi então me dedicar a palpites sobre a vida, comentar sobre os seriados que acho bacanas e a discorrer descompromissadamente sobre a sétima arte. Mas a verdade é que, por vezes, os universos se fundem e o resultado nem sempre é bom. Dito isto, seria justo comparar livros com filmes?

Acredito que é natural e quase inevitável que isso aconteça, até por força do hábito. Agora, se é apropriado ou correto, já é outra história. Penso que não é e o motivo é simples: só se podem comparar coisas similares. Comparar livros com filmes é a mesmíssima coisa que comparar maças com laranjas. É pertinente dizer que se prefere uma coisa à outra, mas não se pode afirmar que uma é “melhor” do que a outra.

E convenhamos, em que pesem as adaptações cambetas, as “chupinhações” descaradas, as descaracterizações vagabundas, a linguagem é totalmente distinta. Tal paragonação não é justa e nem deveria acontecer, vez que até os sentidos utilizados diferem. A experiência não se confunde.

No cinema se enxerga através dos olhos do diretor, há a limitação técnica, a orçamentária, a de interpretação, entre tantas. Com os livros, o limite é o mesmo que sua imaginação empresta às palavras do autor. Uma casa descrita, por melhor que seja, ainda é aquela que sua mente constrói. Um personagem, mesmo quando seus traços e maneirismos são relatados com riqueza de detalhes, continua a ser criado nos moldes do que a mente do leitor esculpe. No que tange aos filmes, existe ainda a insuperável questão da restrição do tempo, o que não ocorre, é cristalino, na literatura.

Para mim só existem dois tipos de livros. Os bem escritos e os mal escritos. Com filmes não muda muito. Há aqueles que são bem filmados e os que não são. É claro que uma miríade de classificações e conceitos podem ser acrescidos, e, excluindo-se a obra eivada de pretensão, creio que o correto seria sermos flexíveis, tanto com os alfarrábios, quanto com as películas. Crucificações hidrófobas ou defesas passionais, não ajudam em nada a desenvolvermos o melhor senso crítico. Por outro lado, não é de bom alvitre nos privarmos de criticar as manjadas tolices, as trilogias "obrigatórias", as sequências caça-níqueis, os remakes desnecessários ou mal feitos, que são lançados à granel no mercado, como se fossem tomates passados, daqueles empurrados em uma xepa qualquer.

Ademais, vamos combinar que para Hollywood o que vale é o velho “If money is there, I don’t care". Podemos citar, por exemplo, a força comercial da literatura “adolescente”. Com o sulco aberto pelo cada vez maior e mais rentável filão da literatura “Y.A.”, é natural que esse mercado se estendesse aos cinemas. Com livros que, em sua maioria, possuem qualidade no mínimo duvidosa, fica mais difícil ainda, se esperar filmes que valham realmente a pena serem vistos. E assim vai.

Mas é preciso lembrar que adaptações não passarão de...adaptações, ora. Assim como é injusto afirmar que todo livro catapultado para o cinema, necessariamente será ruim. Em alguns casos, não muitos, a película supera o papel. Cumpre ressaltar que o caminho, via de regra, é do livro para o cinema e não o contrário. Teremos inevitáveis perdas ou compensações nessa transposição, é claro. Se elas existem em traduções, do papel para o papel, imaginem de um livro para um filme, onde a linguagem é totalmente distinta.

Destarte, seria mais coerente, menos leviano, não traçarmos tal comparação, senão quando muito bem delimitada por considerações de forma. O melhor mesmo seria não fazê-la. Mas como frisei antes, é inevitável e vai continuar a ocorrer.

Contudo, se ainda assim, aquela coceirinha bater e nos sentirmos irrefreáveis em nossa palhaçadinha de meninão sabe tudo, que precisa descer a lenha no filme que se apropriou daquele maravilhoso best-seller, escrito por seu autor predileto, verdadeiro gênio iluminado por deus, tentemos ao menos nos lembrar de que a ideia do vampiro que brilha no sol e da adolescente chata, indecisa entre a necrofilia e a zoofilia, já era ruim antes de contar com a ajuda imprescindível do modorrento Robert Pattinson e da insossa Kristen Stewart.

E por derradeiro, nos recordemos de que a Brida da Tv Manchete pelo menos era engraçada. Humorismo involuntário, talvez. Eu ria, confesso. Não ganhou nenhum prêmio, não foi absurdamente assistida, ninguém dela se lembra. Tampouco o roteiro parecia apresentar erros grosseiros de regência ou concordância quando verbalizado, o que não seria surpresa caso tivesse ocorrido, face restar como espólio natural e genuíno de um cartapácio pacóvio, escrito de forma medíocre. Já o livro propriamente, todos conhecem. O "romance esotérico" não conseguiu me divertir como a novelinha da extinta emissora, mas vendeu aos montes e consagrou o autor mais uma vez, como se os igualmente pedestres "Diário de um Mago" e "O Alquimista", já não contivessem empulhação suficiente. Fico com a Wicca da tv. A produção percebeu de cara que não era para levar à sério e tocaram o barco. Foi melhor assim.

Pelo que se depreende, não é por ser livro ou autor, ao invés de filme ou diretor, que se obtém garantia de qualidade. Não se cuida apenas de forma, mas sobretudo de conteúdo. Ruim pode ser o livro e péssimo pode calhar de ser o filme. Como é possível ser deliciosa a maça e espetacular a laranja. 

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