Perda (por Hpcharles)

“Closing time, every new beginning
  Comes from some other beginning's end”
Semisonic

"Perder-se também é caminho."


Estou absolutamente convencido de que nossa missão enquanto desfrutamos desse curto espaço de tempo que nos é concedido nesse lindo planeta azul, é aprender a lidar com as perdas. E notem, não há qualquer ilação de transcendência contida nessa assertiva.

Ela é oriunda apenas de constatações empíricas, de experiências anedóticas e de leitura exaustiva. Tudo isso me fez compreender, sem dar margem a qualquer resquício de dúvidas, que na vida não basta matar um leão por dia. É preciso também enterrá-lo.

Não seria absurdo dizer que desde de bem pequenos tentamos evitar ou nos preparar para o inevitável, ou para aquilo que não existe de fato preparo. Somos geneticamente construídos para isso. Uma pena, pois vida nada mais é do que uma sucessão trágica e ilimitada de perdas. Perda de emprego, de relações afetivas, de parentes amados, de saúde, de juventude.

O processo pelo qual o ser humano lida com isso varia muito. Alguns buscam na religião uma maneira de se consolar, acreditando em algo melhor em uma pretensa pós vida. Se fiam em reencontros no além. Perseguem a guarida de uma existência menos dolorosa, à revelia do que se sabe de fato, sob a mão de um pai protetor, mesmo que tirânico. Tudo para que doa menos.

Outros, ao arrepio da própria saúde, ou do bom senso, encontram anestesia nas drogas. E obviamente incluo o álcool e o cigarro. Alguns comem muito, ingerindo inconscientemente, o afeto que lhes carece. Em mão oblíqua, existem os que não comem, tentando atabalhoadamente recuperar a estima ou a aceitação que julgam terem perdido.

Em que pesem os fatores orgânicos que possam levar a tais comportamentos, as perdas permanecem. São reais e sangram como um soco na boca. Partem corações, espremem artérias, catapultam remédios para dentro do corpo, imploram por amadurecimento. Essa é a parte que nos cabe deste latifúndio.

No entanto, assistimos a um mundo globalizado. Tudo precisa ser célere, premente, precoce como o pau que goza desposado do prazer mais íntimo que poderia dar ou receber, pois o negócio mesmo é ejacular. O corte precisa fechar rápido, mesmo que a cicatriz não seja rasteira. Kübler-Ross foi barrado numa catraca cada vez mais seletiva, mas que gira com extrema velocidade.

Nesse diapasão, o luto, ingrediente fundamental nessa equação, é defenestrado. As pessoas pulam de uma relação para a outra como macacos em cipós. Muitas vezes não desabafam sobre a falta que sentem de seus pais que há pouco se foram, pois há escassez de ombros genuínos numa sociedade que pune o "ser" em detrimento do "ter". Os amigos se fazem e se desfazem em “clicks”, consignados mecanicamente por dedos mortos em mouses vivos.

As revistas, a propaganda, a burrice da sociedade, por outro lado, clama pela beleza eterna, pelo consumo pantagruélico, contumaz, asnático, de tal forma que não sobre tempo para se discorrer sobre o que importa de fato ou não. "Compre o composto protéico, anabólico, paudurescente, hipertrófico, saradão. Tome todas as manhãs o yogurte de sorriso farto, pele apessegada, chapinha animada, dei uma bela cagada, Louis Vuitton".

Aceitamos cartão. Pode escolher. Crioterapia, Geoterapia, Termoterapia, Massoterapia. Spa das mãos, dos pés, da alma, Botox na boca. Banho de chocolate, de vinho, banho asséptico de lâmina afiada, sabão de gordura e sangue. Corte contuso, perfurante, rejuvenescedor, máquina do tempo. Pare a gravidade, as leis da física, pare o mundo que eu quero descer.

Melhor isso do que aprender a envelhecer. Melhor isso do que lidar. Não há espaço para lidar. Não há perdão para “perdedores”. Seja ganancioso, a ambição é a fronteira final. Mas as perdas malditas, essas persistem. São irrefreáveis. Uma hora ou outra se impõem. E você tomba, tal qual a um César apunhalado, impassível diante de uma luta que foi perdida no instante em que você nasceu. E se você acha que isso é mera filosofia, vai aprender que ela acaba no exato momento em que você precisar atravessar uma rua sozinho quando, sob o olhar de seus progenitores do outro lado da calçada, e perceber que tem que dobrar a esquina sem ajuda, pela primeira vez. Essa é a filosofia da vida. E ao que tudo indica, ela fede.

Existe saída? Não. Existe aceitação, existe paz, existem refrigérios e existem momentos de felicidade. E é apenas isso? Sim, é. Mas por que não seria suficiente? Por que não seria o bastante buscar uma vida pródiga, real, intensa, verossímel, abundante de carinho, livros, filmes, música e arte? Mesmo que no meio disso tudo existam degraus. Mesmo que você caia nesses degraus. E mesmo que ao fim desses degraus, não haja nada a não ser a lembrança da escadaria? Por que alguém haveria de querer mais? O que é que te venderam?

O truque está no caminho, sempre esteve. As perdas são tapas na cara desferidos pela vida quando você acha que sabe todas as respostas. São chutes na canela, quando você tinha a certeza de que era o pica das galáxias. Murros aplicados cirurgicamente, justo quando você achava que estava tudo bem. Vem então a miserável da “vida” te põe uma Glock engatilhada na têmpora e muda todas as perguntas para as quais já você tinha encontrado as respostas. É preciso fazer o teste de novo. E de novo. E de novo.

Mas existe uma pequena diferença aí. Ela faz toda a diferença. As perguntas não são as mesmas, mas você também não é. Você já aprendeu com as primeiras pancadas. É capaz de se levantar sozinho. Continua doendo, mas no fundo você sabe que até a dor mais aguda um dia passa, ou fica adormecida, criogênica. E você se dá conta de que é possível conviver com ela e que lições foram tomadas. E que sem elas você ainda seria aquela criança segurando a mão da mãe, sem conseguir atravessar a rua.

Só existem duas maneiras para lidar com as perdas. Ou você as rejeita ou as abraça. Para a primeira escolha, só existem placebos. Para a segunda, existe redenção. É você é quem sabe. Sempre é você.

Por pior que pareça, esse texto está longe de ser entreguista ou desanimador. Pelo contrário. Para mim, o processo de enfrentamento das perdas, por mais angustiante e melancólico que seja, é sempre positivo, no frigir dos ovos. Ao fim, quando a cabeça pula para fora da água, o ar que respiro é sempre novo, fresco, revitalizante. A perda pode ser encarada também como uma oportunidade. É o coelho na cartola.

Sim, perderemos empregos, namoradas, parentes, amigos e por fim a saúde. Ficaremos velhos, feios, chatos e nem aquele yogurte mágico ou o composto protéico vai mais resolver. Mas ao nos perdemos inúmeras vezes ao longo do caminho, também nos encontraremos incontavelmente. Faremos novos amigos, teremos novos empregos, amaremos de novo. É verdade, jovens nunca mais seremos. Mas existem compensações. Com o tempo descobrimos que para se matar um elefante não é preciso coalhá-lo de balas, basta um tiro na cabeça. Teremos memórias em profusão, ficaremos mais alertas à nossa mortalidade. A dor, outrora inimiga, se torna companheira, vez que é inevitável. Intimorato, você a agasalha como confidente.

Destarte, não é preciso se desesperar. Ainda que tudo pareça perdido. Ainda que a perda te leve a perder-se de si próprio. Mesmo que a porrada seja insuportável ou que a vida lhe de sinais dê que não vale a pena pela mancheia de momentos de sofrimento que lhe imputou, isso é o modo dela de te advertir que, talvez aonde você só vislumbre “perda”, o que exista de fato é uma “oportunidade”. Para mudar, para começar de novo, para reconstruir, para redimir. Para se despir dos conceitos ultrapassados, vislumbrar novos prismas, estabelecer novas metas, abrir uma janela para outra paisagem, mudar de direção.

É a constatação cristalina e indelével de que aquele final oriundo de uma perda, por mais trágica que ela tenha sido, é também a oportunidade para um novo começo. E não era exatamente isso que você queria? Justo quando mais doía?

13 comentários:

  1. Hp, vc sempre tão preciso!
    Seus textos são bálsamo!!!
    Obrigada mais uma vez.
    Abraço

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  2. Mais um texto perfeito. HPChales sempre nos fazendo refletir. A vida é mesmo uma sequência de perdas, mas também é cheia de momentos bons, felizes. Entretanto na maioria das vezes nem sequer enxergamos esses momentos porque ficamos remoendo as constantes perdas. Precisamos levar a vida menos a sério e viver um dia de cada vez. As dores do passado e as preocupações do futuro é o que nos torna infelizes, então vamos tentar deixar de lado.

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    1. Sim, a vida é repleta de momentos bons, não há dúvidas. Como disse, o texto, apesar de ser um pouco pesado, é um convite a encarar a dor e a perda, olhando por um viés alternativo. O de que cada final, é também um novo começo. E que sem virar a página, é impossível continuar o livro. Dito isso, sempre entendi que aprendemos mais com as derrotas, com as perdas, do que com as vitórias. Vitórias são fáceis. São justamente as derrotas e suas consequências, que nos permitem levar o barco novamente para o prumo.

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  3. Hp respondeu meu comentário *-* momento emoção, rsrs. Sou fã do casal. Duas pessoas inspiradoras.

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  4. ah! como eu precisava ler. um texto assim. muito bom para paarar e refletir sobre a vida.

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  5. Como assim vc está escrevendo sobre a minha vida??? rsrsr bom... foram tantas perdas, das mais doloridas, que aprendi a lidar com elas! Meio que ligo o automático e bola pra frente... Fazer o que, né? Belo texto, garoto! Bjo pra vcs!

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  6. É meu brother! A realidade é nua e crua, ainda bem que estamos preparados, ou não? Matou a pau no texto irmão, sempre lucro em dar uma espiada no blog, Abraço pro cês!!!

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  7. Como o sistema ao qual nós encontramos está nos tornado cegos. a ponto de ignorar uma reflexão tão tapa na cara como essa.

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  8. Incapacidade de lidar com perdas é campo fértil para os aproveitadores. Isso vai da mais rasteira cigana com "poderes" de ler as mãos até o mais o mais graduado político. A cura para o sofrimento humano tem preço vai de R$ 10,00 por uma caixa de analgésicos a R$10.000,00 por alguns dias num spa. As indústrias das curas da alma e do corpo são das mais lucrativas do mundo. Ninguém quer perder e aceitar que as perdas fazem parte da vida é uma capacidade desenvolvida por poucos.

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  9. Nossa, muito bem mesmo. Parabéns!!! Momento reflexão agora.

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