Aviões, Palhaços e Oswaldo Montenegro (por Hpcharles)


Existem basicamente três coisas que me assustam. Não, não tenho medo da morte, não tenho medo de acordar em uma banheira cheia de gelo e meu rim ter sido roubado e nem tampouco da menina de “O Chamado”.  Tenho medo de avião, de palhaços e de, em uma viagem, sentar ao lado do Oswaldo Montenegro.

Eu não me recordo bem quando meu medo de avião começou. Não lembro mesmo. Sei que, quando adolescente, passei um sufoco em um um jatinho particular, o que deve ter aumentado a sensação de terror devido às reduzidas dimensões do bicho. Mas não posso dizer que foi dali que “o bagulho ficou sinistro”.


Quanto à minha coulrofobia, sei que é ridículo, mas parece não ser tão raro assim. O Robert Pattinson tem e é vampiro, o que piora as coisas. Phil Dunphy, o personagem mais legal do mundo, também tem, então estou bem acompanhado. Mas que palhaços me causam calafrios, não posso negar.


Mas confessem amiguinhos...quem aí já teve que viajar junto de um “xarope” daqueles, do tipo encardido? Sim, ficar horas ao lado de um chato sem poder fazer nada a respeito. Vou te contar, é foda. E claro, para mim a coisa piora se for em um avião.

Aliás, dizer que tenho “medo” de avião é um eufemismo covarde e sem vergonha. Me borro mesmo. Só entro no avião na base do Frontal com vodka. Recomendo fortemente que não tentem isso em casa, pois é preciso ser profissional, com faculdade e carteira assinada. Mas é isso ou não embarcar. Existem viagens da quais não me lembro sequer de ter entrado na aeronave. Sim, é sério.

Lembro de dois casos “cRássicos” que tive com chatos. Um foi em um dia que, para a minha falta de sorte, estava sem a “medicação”, e tive que aguentar a turbulência JUNTO com o chato. Bom, no caso era uma chata, o que não melhorou minha situação em absolutamente NADA.

Era um maldito vôo a trabalho para Brasília, o que por si só, já deveria ser suficientemente maçante. Pois bem, me senta uma senhorita de seus trinta e poucos anos com um aterrorizador sorriso nos lábios, o que já prenunciava o inelutável “small talk” que se seguiria e que tanto odeio.

O avião atinge altitude de cruzeiro, eu me cagando e a Pomba Gira me saca assim, “out of the blue”, a foto do seu filho de dois anos de idade. Me diz então: “É meu filho!” Whaaaat theeee Fuuuuck? Quem faria isso sem eu ter dado nenhuma brecha? Sem ter feito nenhuma pergunta? Sequer olhei para o lado, juro!

E começou: “esse é meu filhinho, ele está na natação e faz isso ou aquilo”. Minha primeira impressão foi, “que puta cabeção o do moleque”. Mas me contive e soltei um grotesco “aham”.

Ah sim, vocês acham que isso conteve a “matraca”? Que nada.  E toma de contar que o guri era alérgico, que gostava de tal comida e seguiu essa reta o tempo todo. E eu procurando um 45 para botar na boca. Na boa, se alguma alma caridosa que por acaso vier a ler esse texto puder me explicar, eu agradeço penhoradamente, MAS PORQUE DIABOS AS PESSOAS ACHAM QUE NOS INTERESSAREMOS PELOS FILHOS DELAS!?!?!?!?!

Tá, eu sei que bebês são bonitinhos e tudo, mas e daí? Foda-se, ué! Eu tô numa parada mais pesada do que o ar, a dez mil metros de altura, cheio de combustível e vem uma pessoa que nunca vi mais gorda, me falar sobre o seu rebento e eu tenho que ser legal? Eu lá pareço o Michael Jackson para querer saber de criancinhas? Ah, vá cheirar! Me deixa surtar em paz, cacete!

Bom, naquele dia não estava para amigos e, depois de quinze minutos ouvindo aquela ladainha em meus ouvidos, cumulada com a trepidação de um vôo horrível, dei um basta. Notei que apesar de claramente demonstrar que não poderia ligar menos para a sua relação edipiana, não obtive nenhuma indicação de que o papo iria cessar. Não resisti e agi como um lorde inglês com a doce donzela, proferindo uma polida sentença: “a senhora poderia calar a porra da boca, em nome do demônio!!!!!!”. Dali para frente a viagem foi tranquila.  Os passageiros do banco da frente também se calaram e a comissária me trouxe uma bebida "de grátis". Viu que fantástico?

Já sei...um visigodo teria sido mais gentil. Mas quem viveu situação similar sabe que, se você está tenso, é quase impossível aguentar. Lembro de uma outra ocasião em que passei esse sufoco e nessa não tinha o avião...mas tinha o maior chato do mundo. Literalmente.

Isso foi em 1998 e eu estava em Londres em uma daquelas viagens inesperadas e bacanas, que acontecem poucas vezes em nossas vidas. Como não tinha feito nenhum tipo de planejamento e sobrava tempo, dei uma pesquisada rápida e resolvi pegar uns pacotes daqueles vagabundos, de rotas de pontos turísticos, nos arredores londrinos. Me lembro que o passeio que escolhi para o dia era, se não me engano, visita à Catedral de Salisbury, que é uma pequena cidade no condado de Wiltshire, Bath em Somerset(os banhos romanos) e finalizava com Stonehenge.


E lá vai o HP, bem orgulhoso de sua escolha. Um frio de fazer obturação cair, chuva fina, noto que esqueci o cachecol. Carioca prego da porra. Encontro o meu assento em um ônibus novo em folha mas estranhamente estreito, com corredor e poltronas bem apertadas. Até aí tava sussa. Mas shit happens...

                                                Windsor Castle (passeio do dia seguinte)

Sério, me entra no ônibus um americano de uns dois metros de altura e gordo, do tipo que põe o cinto com um boomerang. Adivinha do lado de quem ele sentou? Dou três chances: da Cuca, do Saci ou do Hp?

Quando o “João Grandão” pousou sua bunda gorda, três coisas aconteceram. Um leve tremor de terra foi sentido no Paquistão, minhas costelas trincaram ao ser empurrado contra a parede do "buzum" e o pior de tudo...ele falou comigo. “Hey pal!”

Pensei, ”IH, FODEU”! Me apressei em verificar a quantidade de bateria do mini-disc que tinha comprado(mais uma buginganga que tive, que não deu certo) e percebi que a desculpa de ouvir músicas não daria para chegar nem ao fim do primeiro ponto turístico.

Como um condenado à morte por câmara de gás que busca de forma inútil prender a respiração para adiar o inevitável, coloquei os fones e torci para que a bateria durasse o máximo possível. É claro que não deu certo.

Não levou mais do que um minuto após tirar o fone do ouvido para “Little John” me fazer a pergunta que tanto temia: “Where are you from?”

Confesso que considerei em responder educadamente: “da puta que o pariu, você conhece?”. Claro que segurei a onda, o cara era um senhor de uns sessenta anos e tirando isso, um tapa do cara em minha orelha me faria rodar até o fim da viagem. Tive que responder que era do Brasil e isso foi um grande erro. Ele pareceu ter gostado da ideia de conversar com um sujeito que vivia no meio de onças e índios. E começou a Via Crucis...

Meu nome é John, sou técnico de futebol (americano) em uma High School em Kansas City. Tenho três filhos e problema na coluna e blá, blá, blá.  E eu pensando...”really?! I don`t give a fuck, die in hell!!!!”

Sabe aquelas raras oportunidades em que você está sozinho, em um lugar que provavelmente nunca mais voltará e deseja ter a experiência completa? Aproveitar a paisagem, reparar nos detalhes, quietinho? É pedir muito? Parece...

Minhas costelas me incomodavam e meus ouvidos zuniam quando paramos na Catedral de Salisbury. Considerei estar em uma igreja e avaliei a possibilidade de orar para que John subitamente  ficasse mudo, mas como ateu, não acreditava mesmo que a mandinga funcionaria. Para piorar, ao tentar me desvencilhar do maior treinador de todos os tempos, me perdi da excursão. Suava frio, o inglês começou a quicar ao pedir informações e não conseguia achar o "rest stop", onde ficavam os ônibus.

Catedral de Salisbury


Com um pouco de sorte, achei a guia, o que me aliviou um pouco a apreensão. Claro que esse alívio durou pouco. Subi no ônibus e o mesmo sorriso amarelo me esperava. "Hey buddy!"

Me digam, porque “Little John” não se sentou ao lado da esposa? Mais de dez anos se passaram e ainda acordo à noite, suado, com essa indagação.

E toca para Bath. Mais algumas horas ouvindo os dolorosos monólogos de “Johnny” e de compressão em minhas costelas. 

O lugar é legal à beça. História pura. As antigas termas possuiam,  no entanto,  várias placas alertando para o fato de que a àgua estava contaminada com algum tipo estranho de bactéria e recomendavam fortemente para que não entrássemos em contato com ela. Imediatamente uma esperança tomou conta do meu coraçãozinho. 

E se por uma obra do acaso João Grandão caísse naquela piscina infectada e as bactérias devorassem sua língua? É, não se pode ter tudo. Dito isso, tentei ficar o mais “stealth possível” e, após uma visita rápida ao gift shop, Bath também ficava para trás.

Bath 


Já no caminho para Stonehenge fomos avisados pela guia que pararíamos para o almoço, que aliás, já estava incluso no preço. Almoço incluso sempre gera riscos. Mas eu só pensava em sair dali e esticar meu dorso, que claramente nunca mais seria o mesmo. E toma de contar como é a vida em Kansas...

Descemos em uma pequena taverna e para o meu desespero, que esperava pelo menos almoçar em silêncio, a mesa era coletiva. MESA COLETIVA NÃO, CARALHO! Odeio essa porra com todas as minhas forças. Nem no MacDonalds eu fico à vontade em comer com estranhos. Você por acaso já se viu no espelho enquanto come? Not cool...

Court Gardens(passeio do dia seguinte)


Sento na ponta da mesa com cara de poucos amigos, mas o filho da puta do “Little John” já tinha avisado aos “miguxos” de excursão que tinha um brasileiro infiltrado na bagaça. Na boa, responder sobre o Carnaval e escolas de samba a caminho de Stonehenge, ninguém merece. Ora, porque não escolheram uma viagem para o Rio ao invés de Londres? Para quê, né? Pergunta ao Hp que ele responde...

E a comida que já estava uma merda (almoço incluído = armadilha), teve como “tempero” uma explicação repleta de brasilidade sobre o fato de que é puro boato que no Brasil as pessoas  trabalham de biquíni e falam espanhol. Depois querem falar de Roraima. Visitem Kansas e descubram o sentido da palavra “caipira”. E todos me olhando comer. Deviam estar pensando, "olha, ele usa garfo e faca". Me senti como um patinho de tiro ao alvo. Não dava para os gringos serem de NY ou LA e ter ao menos alguém de menos de 65 anos na mesa? Tava feliz demais...

Não comi praticamente nada, mas a água da estalagem em compensação, era ótima. Ao sentarmos de novo na porra do ônibus, já estava puto dentro das calças. João Grandão falava e já não ouvia, só via seus lábios se mexerem. Pensei alegremente, “em Stonehenge vou encontrar uma lança esquecida por um druída e vou enfiar no reto do desgraçado, quem sabe assim ele se cala”. Empalação nunca me pareceu tão apropriado. Vocês estão com pena do pequeno mamute? Tá, na próxima sentem vocês do lado dele.

                                                                      Stonehenge


Em pouco tempo chegamos ao famoso local das pedras místicas e, ao descer do ônibus, uma baforada de ar gélido rasgou minha carne. A palavra frio passaria a ter novo significado para mim depois de ficar alguns minutos naquele descampado. Japoneses tiravam faceiros, as suas costumeiras e pródigas fotos acrobáticas, em suas poses engraçadas. 

Mais um tempinho batendo queixo e quando estava quase entregue, preparado para o sofrimento da volta, tive uma ideia brilhante. A de dizer à guia que estava passando mal, com ânsia de vômito. Atenciosa ela se apressou em conseguir um assento isolado. Não por se preocupar comigo, mas porque de fato, não queria que nenhum passageiro tivesse as sobras de meu parco almoço, em suas roupas. Ah Hp, seu “clever bastard”.

Foi um dos melhores fins de excursão de minha vida. Sentado, só, intocável. Apreciando enfim, a beleza da paisagem e a virtude do silêncio.

Por isso é que talvez tenha desenvolvido um certo pânico de gente chata. As pessoas sempre dizem que tem medo de várias coisas, mas estas normalmente são relacionadas a coisas comuns, que vão desde filme de terror até ficar doente. Já eu, penso em como seria a mistura das coisas de que tenho medo. É isso que me apavora de verdade. Sempre imagino que um dia vou entrar em um avião e ao meu lado sentará um palhaço. E quando eu menos esperar, ele se virará para mim e eu perceberei que ele, além de palhaço, é o Oswaldo Montenegro, o cara mais chato do mundo.


Está aí consignada, uma síntese de meus maiores temores na vida. O verdadeiro sentido da palavra “agonia”. Viram que piadinha chata com o Oswaldo?

Pois é, multipliquem isso por horas e entenderão porque tenho pânico de chatos. 

Hpcharles

12 comentários:

  1. Me identifiquei. Também tenho medo de avião (uma fobia controlada); medo de palhaços (o filme It -Uma Obra-Prima do Medo ajudou muito); e PAVOR de gente chata. Aliás, não ligo que conversem comigo na rua. Eu dou atenção e sou muito solícita.

    O que me deixa furiosa são parentes e conhecidos de familiares (que para mim são estranhos!), na minha casa, usando meu banheiro, mexendo nos meus livros e fazendo milhões de perguntas. Enfim, pessoas que me tirem da rotina. Com isso eu não consigo lidar. Agora tenho aqui 3 priminhas com menos de 10 anos. Elas gritam, correm, deixam o banheiro emporcalhado, choram, comem toda a comida... um horror!

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    1. Putz, adoro "IT"! Pois é, mas "família" por si só já merece um texto exclusivo, rs.

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  2. Palhaços e gente chata? Help! São, de longe, minhas maiores fobias.

    Já sentou cada um do meu lado no ônibus pra contar história... Teve um que, quando eu disse que não tinha religião - porque ele perguntou sobre-, resolveu não parar de falar que eu precisava ir à Igreja e, depois, sobre como era rico e perdeu seu dinheiro - além de me contar tudo sobre seus filhos, é claro. Lá se foram os 40 minutos mais longos da minha vida.

    Quando me levantei para descer do ônibus ele me disse que já havia sido vereador há muito tempo, que estava concorrendo novamente, e então me deu o cartão pedindo que eu não me esquecesse dele na eleição. SERIOUSLY? Pois é.

    Enfim, ótimo texto!

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    1. Putz, crente pregando na condução deve ser de cair o cu da bunda. E no final ainda pediu voto? Fala sério, né? Depois se a gente da um pedala, ainda dizem que somos grossos...

      1 abç.

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  3. E eu achando que conversar sobre "como tem chovido ultimamente em!" com o motorista de táxi na hora do 'rush' era ruim. Credo Hp, espero que não passe por essa situação de novo cara, sério mesmo, ainda mais em uma viajem dessas!

    Abraços!

    P.S. Pior que se tivesse xingado o cara - digo, o americano, provavelmente ele ia espalhar a 'má fama' dos brasileiros pelo Kansas inteiro.

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    1. Rs, cara pior que foi tudo assim mesmo. Tirando os detalhes de humor que inseri na narrativa para descontrair, a parada me deixou bem chateado no dia. Tinha consciência de que aquela era uma viagem que poderia não acontecer mais em minha vida e queria aproveita-la do meu jeito, com minhas reflexões, quieto em meu canto. Além disso, viajei horas apertado no banco. É de tirar a paciência de qualquer um.

      1 abç.

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  4. Fuck!! Isso já rolou comigo também, em uma viagem a Itália! Mas nem de longe, "A" acompanhante falastrona, era parecida com o "Big John".Eu só disse que queria dormir, e que não falava espanhol( com sotaque impecável,modéstia a parte),o que provavelmente fez com que ela calasse a matraca.kkkkk.Fiquei muito tempo com medo de palhaços,por causa do filme "Poltergeist"! Ri litros na parte do almoço!Huhauhauhaua.

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  5. Eu adoraria comprar um livro seu HP. Seus textos são impecáveis!, eu os leio completamente em menos de 5 minutos. É coisa de outro mundo homem!

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    1. Rs, ele virá Cláudio, ele virá. Grande abç.

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  6. Nunca tive medo de avião. Ano passado, indo para Brasília (tá, to morando aqui agora...), o avião despressurizou, as famosas "máscaras de oxigênio" caíram sobre minha cabeça, acompanhadas de 37 min de turbulências infinitas até chegar em Brasilia. Depois desse lindo dia, tenho pavor de avião. Sim, viajo muito e preciso dele, mas realmente tenho muito, muito medo mesmo. Sei como se sente, garoto! Adorei o texto! Isa - LidoLendo.

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    1. Bom Isa, eu garanto que a se coisa ficar realmente insuportável, o coquetel de ansiolítico + vodka que citei não só teria resolvido a crise como te faria PILOTAR o maldito avião, caso precisasse. Yeah, that`s how i rule...

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