RELAÇÕES EM FRAMES (por Hpcharles)


Por dever de ofício, sempre ouvi reclamações e lamúrias de casais. Foi mais de uma década como advogado, lidando com direito de família e atuando meio que como “psicólogo dativo”, nomeado pela natureza das questões e incidentes que envolvem tais lides.

Acho que meu “jogo de cintura” nessa seara, vem daí. Com o tempo a gente aprende uma coisa importantíssima no que tange às relações e aos rompimentos dessas mesmas relações. Aprendemos que existem sempre três versões para a mesma história: a de um lado, a de outro e a verdadeira.

É um que traiu, é outro que foi desidioso, é mal administração do dinheiro da casa, é a sogra que aporrinha, é o “exu tranca rua”. No final, dá no mesmo. Mas a existe um consenso. A culpa é sempre do outro. Isso é fato. Se lembram do ditado, “filho feio não tem dono”? Pois é...

Que as relações se desgastam, que o dia a dia é inimigo do romance, que tudo contribui para acabar com o “conto de fadas”, isso é notório. Quem já teve uma relação que seja, sabe disso.

No entanto, o que me incomoda é ouvir ladainha de quem está mais sujo do que pau de galinheiro. E acredite, isso não é só do lado das mulheres não. Sempre tive muitas amigas e sei como a banda toca por lá, mas os homens também  distribuem a sua cota de mi-mi-mi. As justificativas é que mudam um pouco. Normalmente possuem direção sexual ou falta de espaço. Já as mulheres, reclamam de atenção e carinho. 

Mas a questão não é essa. O problema é que quando termina o enlace, o outro, com raras exceções, é uma merda. Nunca aguentei ouvir o tal do: “perdi anos com fulaninho”. É mesmo? Pois tivemos a emenda constitucional que regulamentou a lei própria do divórcio em 1977.

Sim, eu sei que pelos filhos você tentou. Eu sei que você lutou até o final para que desse certo. Não estou discutindo isso. Estou discutindo a partição da responsabilidade pelo “fracasso”, se é que houve. Até porque, após dez anos de relação, por exemplo, será que podemos dizer que tudo foi um fiasco? Parece que não. Agora, se para você, relação é o mesmo que filme da Disney, então o problema é a sua concepção de realidade e não a relação em si.

Dessa forma, não seria mais correto, mais justo e muito mais importante, reconhecer a sua parcela nesse mesmo “fracasso”? Ora, eram dois na história, né? Sei, tu acertaste em tudo e outro errou em tudo. Fodão você, hein? Pra cima de “moi” não! Faz o seguinte então: ouça a outra versão do conto. Isso mesmo, tente ouvir os argumentos do lado de lá. Você pode se surpreender.

No entanto, talvez seja mais produtivo, fazer um “mea culpa” para melhorar na próxima. Nunca é tarde. Dizem que maturidade não é a quantidade de experiências que tivemos, mas sim o que fazemos com as experiências que tivemos. Lembro que a definição de loucura é repetir o mesmo comportamento, esperando um resultado diferente. Tenho um amigo que, aos 40, já está no quarto casamento. Outro dia ele me disse: “cara, estou me separando novamente. Estou começando a achar que o problema está em mim”. Pois é, se você não rompe o ciclo, vai colher a mesma tempestade e os “recamiers” agradecem, afinal psicanalista também come, né?

Uma coisa que percebi é que quando a coisa aperta, os casais costumam se esquecer do que os uniu em primeiro lugar. Se esquecem dos beijos apaixonados, das confissões tímidas, das mãos dadas. O tempo é um filho da puta, eu reconheço. Mas por que não usá-lo em nosso favor? Por que não lembrar também que você não escolheu aquela pessoa ao acaso? Que alguma coisa havia e que ninguém fica tanto tempo com o outro, impunimente. Não estou falando das prolixas ficadas hodiernas, mas sim daquelas pessoas que passaram em sua vida e que alteravam seus batimentos cardíacos apenas com um olhar.

Mas como fazer isso? Lembrar dessas coisas é tão difícil nos momentos de crise, não é mesmo? Não disse que seria fácil, mas acho perfeitamente possível. Para isso porém, é preciso ser criativo e se comprometer. Parafraseando Nelson Rodrigues, sem isso você não chupa nem um Chicabom.

Uma coisa que eu e minha noiva desenvolvemos em nossa relação, foi o hábito de trocarmos, rotineiramente, pequenos filmes com declarações de afeto e lembranças dos momentos em que passamos juntos. Através desses curtos arquivos, descobrimos um jeito de renovar nossos desejos, anseios e, de quebra, lembrarmos um ao outro, o porque de estarmos abraçados nessa viagem.

Claro que temos todos os problemas pertinentes à qualquer relação afetiva que se encontre aí fora, e eles ainda são agravados pela distância, que é encardida. Mas ao invés de reclamar e nos desanimar, fazemos o contrário. Usamos o tempo e a distância a nosso favor, se é que é possível. Da laranja, fazemos a laranjada.
No começo eram filminhos bem curtinhos, só para dar um oi, mandar um beijo, dizer que está ali, e que ama. Depois, eu mesmo quis dar uma de “malandro” e elaborei uma edição legal, fiz uma graça e achei que estivesse abafando. Que nada, em meu aniversário, recebi um vídeo super simples e que me botou em meu devido lugar. Não havia música composta para aquilo, não havia malabarismo de imagens e nem apelo linguístico. Havia apenas uma pequena coleção de e-mail`s trocados, comentários deixados esporadicamente, linha do tempo virtual e alguns beijos binários. A “maldita” usou o tempo a seu favor. Criatividade minha gente, é preciso ter malemolência.

A pergunta que não quer calar é? Será que, se em determinado momento daquela relação, você tivesse olhado para trás, acertado os ponteiros ou tivesse uma atitude mais firme ou mais flexível, dependendo da situação, o desfecho não poderia ter sido diferente?

Percebam, isso não é uma crítica alienada, já estive nesse barco mais de uma vez, acreditem. A crase sanguínea é: “qual é a minha parcela de culpa no mingau que desandou”? Melhor, o que fazer para que isso não se repita? É, porque não mudar e depois botar a cangalha no outro não resolve, e você já deve ter percebido isso.

Por isso, se você tem a sorte de ter uma pessoa legal a seu lado, mas de repente anda desanimada(o), sem vontade de cantar uma bela canção, ou acha que o OUTRO mudou, vá até o espelho. Veja se você também não mudou. Veja se a sua entrega é a mesma. Note se o seu carinho se mantém. Seja honesto, justo. Entenda que relações são trocas, via de mão dupla e que, pelo menos 50% de tudo que diz respeito a elas, tem que ter o seu dedo para funcionar. O resto é desculpa esfarrapada para contar no cabelereiro ou na pelada com os amigos.

Por derradeiro, lembre que alterando o ângulo e a perspectiva, o que você está fazendo é exatamente o mesmo que eu faço, quando ligo meu o Imovie para enviar meus “mp4” com corações de bytes. Está gravando um filme. Só que é sobre a sua vida e você é o diretor. Você terá problemas de orçamento, em determinado dia os atores não desempenharão o papel como você deseja e o tempo, por vezes, não vai ajudar as filmagens. Mais ainda assim, quem faz os cortes, em última instância, é você. É a sua visão no olho da câmera que vai decidir o caminho a se tomar. E dependendo da cena que escolher, você tanto pode ficar uma apenas semaninha no cinema, como pode ganhar um Oscar.


   Hpcharles


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