Papel e Fortalezas Binárias (por Hpcharles)


Eu ainda tive a sorte de receber cartas. De papel. Com odores amadeirados, letras pintadas à mão, tinta borrada. Caligrafia humana, esforço bípede. Músculos segurando a pena, dobradura de celulose. Carimbo, selo, saliva no envelope.

Algumas me trouxeram boas notícias, afago alfabético, saudade vernacular. Outras me causaram dor, raiva, preocupação. Mas todas possuíam um coeficiente de pessoalidade. Marcaram um momento, despertaram uma sensação mais real do que o rei.

O abrir do invólucro que embala as frases teleguiadas sempre me lembrou a infância de pacotinho de figurinhas, com a vantagem de que não se encontrará o número repetido.

As lembranças de minha angústia de moleque esperando o carteiro são absolutamente cristalinas e cingem minha mente. A alegria pelo recebimento, a tristeza nas mãos vazias vestidas de uniforme amarelo e azul. Sei lá...tinha gente durante todo o percurso. A surpresa tinha marca de poeira e rosto.

Compreendo as necessidades e correrias do mundo atual. Os bytes vem do outro lado do mundo em segundos. Negócios são fechados, notícias urgem por serem transmitidas, torpedos sem pólvora são disparados e raramente não atingem o alvo.

Nada disso é inválido, inútil ou negativo em sua essência. Sinal dos tempos. O mundo mudou, as necessidades mudaram, o dia ficou pequeno, o planeta diminuiu. Mas ainda sinto falta das benditas cartas.

Gosto de olhar o pequeno selo colorido, a cor do papel, de segurar o vestígio material da notícia em mãos. De guardar na gaveta, fechar com a chave, não mostrar a ninguém. De saber que nem hacker pode ler.

Minha sobrinha faz sete anos essa semana e me pergunto se algum dia ela receberá alguma correspondência que não seja eletrônica. Claro que não me refiro às propagandas que amassamos sem ler, às contas inevitáveis, aos comunicados do condomínio. Falo daquela mensagem que é tão pessoal que precisou da folha de eucalipto para ser consignada propriamente. Do planejamento, da caminhada ao correio.

Assim como todos, abuso dos SMSs e já digito na velocidade de um adolescente exemplar. Os “e-mails” surgem em abundância em minha “caixa de entrada”. Os “ringtones” separam o joio do trigo. Pessoas “twittam” e o Facebook é quase uma obrigação. Isso às vezes me deixa confuso e, por um instante, penso em diminuir o ritmo, em jogar uma marcha para baixo. Bobagem...sabemos que isso seria impraticável. Tal excesso também impenderia um ato de afastamento da realidade. Não anseio por ser um eremita, só diminuir o frenesi, o ritmo.

Conservo a ablução de passar na caixa de correio antes de sair, assim como mantenho o atávico maneirismo de perguntar ao porteiro se existe algo na portaria que foi esquecido. Quem sabe uma carta de amor, um bilhete de amigos, algo que me devolva à inebriante sensação que tinha em minha infância quando esperava por papel de verdade.

Fernando Pessoa em sua genial e festejada poesia não se esqueceu disso e deixou claro que também escrevia cartas de amor. “Eram ridículas, mas eram cartas...de amor”. Sim, ele não tinha um computador, mas isso não importa agora. O que você preferiria? Receber um “e-mail” de Fernando Pessoa ou uma “carta” de Fernando Pessoa? Há! Eu sabia...

Claro que esses saudosistas parágrafos não se desvencilham da realidade hodierna, mas não dizem que recordar é viver? Pois é, guardo em tinta e papel algumas das fases mais importantes de minha vida. Algumas pessoas já se foram, outras não são mais importantes e de algumas outras, nem me recordo. Mas se tornam visíveis quando leio aqueles manuscritos que requereram, o mínimo que que fosse, alguma dedicação, esforço e tempo. São a materialização de que tais momentos existiram de fato. As cartas os eternizaram de alguma maneira. Isso é muito bom. É Polaroid da vida.

Essas pequenas anotações, formam uma “linha do tempo” muito mais inspiradoras do que a de qualquer interface de qualquer rede social. São só minhas, não há “stalkers” cibernéticos, devassagem de LCD. Eu as coloco lado a lado. A palheta de cores se mistura com o desbotado do tempo. Vintage de ideias, de lembranças, de memórias primatas .

Decido escolher um papel especial e fazer o que prego. Começo a rascunhar algumas linhas para minha pequena sobrinha que agora vive em outro continente. Provavelmente será a primeira carta que receberá em sua curta existência. Talvez hoje não lhe seja tão importante em sua juventude coalhada de sonhos e bichos de pelúcia, mas e daqui a trinta anos, quando já estarei morto ou na guarida da velhice? Que tipo de experiência isso lhe trará?

Ligo a minha máquina do tempo feita de fibras vegetais, redijo sorrisos e brinquedos de madeira, bonecos de pano e carrosséis de cavalos alados. Minhas mãos então catapultam beijos e carinhos transatlânticos, em papiros, que se cuidados, podem se perpetuar além de minha carne e alma. Mas para fazer isso, é preciso colocar a roupa, ligar o carro, pagar o preço. Suar.

O envelope segue na esteira, entre bobagens e folhetos prescindíveis, para ser tornar um dia, com sorte, imprescindível. Talvez o mais importante no entanto, seja ter tirado o remetente da fortaleza binária. Ter baixado a ponte levadiça do castelo de silício. Ter tirado o “plug” da tomada e ainda assim funcionar. Ter, por um momento que seja, enviado calor e não a frieza dos megabytes e, nesse diapasão, lembrar a mim mesmo, que o virtual não pode substituir o real. Não deveria.

Ao arrepio da modernidade a carta seguiu. Me lembro de Pessoa mais uma vez e mais uma vez ele tem razão. “As minhas memórias das cartas é que são ridículas”. Não obstante, são verossímeis, táteis, inexoráveis...

Hpcharles


Escola, Leitura, Afeto e Paternidade (por Hpcharles)


“A César o que é de César”. Essa frase saiu direto dos evangelhos sinóticos para a boca do povo e, hoje em dia, possui o sentido de que cada um possui a sua competência, ou mérito ou pertinência intransferível em relação a um fato ou situação. Se preferirem(eu mesmo não prefiro), “cada um em seu quadrado”, como insiste em repetir o refrão da música asnática.

Mas ao que tudo indica, se existe um lugar onde tal assertiva não parece encontrar guarida hodiernamente, é na relação escola/paternidade. Sendo filho de professores dedicados, desde cedo sempre escutei de meus pais, reclamações oriundas do comportamento de alunos e jovens em sala de aula e dependências dos colégios.

Eu mesmo, aluno na ocasião, fazia ouvidos moucos a tais conversas. Não me interessavam. Eu jogava no time adversário e tampouco as compreendia completamente.

Era um tal de “Fulano não sabe se comportar, Sicrano não demostra o menor interesse, Beltrano não lê um livro que seja”. Pessoalmente, nunca tive problemas disciplinares, fora raras idas `a coordenação,  para explicar o inexplicável. Coisas como briguinhas juvenis no “recreio” ou atrasos inocentes para o início das aulas, por conta do futebol no intervalo.

Fiz minhas “capetices” confesso, mas não me recordo de ter sido desrespeitoso com um professor. Nunca gritei ou ameacei algum mestre. Aí de mim se o fizesse. Sabia muito bem os meus limites e meu lugar como estudante. Mas tal limite veio de minha casa para dentro da escola, e não o contrário.

Parece que os papéis andam se invertendo. Cada vez mais, ouço depoimentos inflamados de jovens professores que demonstram, sem sombra de dúvidas, que a coisa tem piorado. De meus pais nem escuto mais as supracitadas considerações. Aos 70, acho que chegaram em seus limites. Desistiram de tentar extrapolar suas lindes e fazer o que alguns pais em suas omissões não fizeram.

Faço uma ressalva a um incidente ocorrido faz duas semanas, onde ouvi meu pai comentar com minha mãe que, durante uma aula dada em turma de ensino médio, certo aluno teria, propositalmente, soltado flatulências de forma alta e anedótica, gerando risos e piadinhas de outros tantos a seu redor. Notem que,  não se trata “in casu”, de uma criança de sete ou oito anos, mas de um rapaz de quase dezoito.

Talvez eu esteja sendo inocente ou seja um velho precoce, mas tal fato me causou repugnância e tristeza. Isso para mim seria algo impensável em meus piores dias de “traquinagem”. Com certeza, se desejasse fazer uma “gracinha”, faria algo mais criativo, desposado de vulgaridade ou de escatologia.

Interferi na conversa para saber o que aconteceu com o “pequeno Nero” que promoveu a “requintada” brincadeira. Fiquei sabendo então, que o mascote do demônio era notório por tais hábitos, e que as propriedades musicais de seu cólon, eram bem conhecidas no colégio. Já havia sido inclusive chamado a uma reunião com os pais, que em síntese apertada, entenderam que o que o “filhote” fazia, não passava de uma inocente palhaçada. Aduziam que aquilo tudo era um excesso da escola em sua disciplina, que não era para tanto.

Me digam agora: o pequeno débil mental possui culpa no cartório? Cuida-se aqui  de se crucificar o aprendiz de suíno pelo comportamento de lorde inglês? Me parece que não. O problema está na manjedoura. Na mamadeira de vitamina de abacate que sempre foi dada pela babá, já que a mãe mesmo, tinha hora no cabelereiro. No direito, costuma-se dizer que a não punição de uma conduta inapropriada, se traduz em incentivo a ela própria, por via oblíqua. E não é exatamente isso o que acontece? Não é esse o “sinal dos tempos”?

Notem que, a estratégia da instituição de ensino foi perfeita. Sabedora da reincidência da fuleiragem, chamou os pais e a relatou, como se esperasse, de quem de direito, uma postura que coibisse o infeliz comportamento, já que educação é atribuição da família e não da escola.

Professores, diretores, profissionais ensino, NÃO SUBSTITUEM os pais. Não estão ali para isso, não possuem o dever e nem a competência para tal. Mas pelo visto, parece que tem gente que crê que, quando paga uma mensalidade, se exime automaticamente do pátrio poder, da responsabilidade natural do progenitor. Tem pai que é “miguxo” do filho. É camarada, parceiro. Tem alguns que até se esquecem que possuem idades distintas. Pois deveriam lembrar antes de tudo, que pai tem que ser pai.

Se não queriam ter trabalho, dizer “não”, cobrar atitude, estabelecer limites, que então não embarcassem na jornada. Tal viagem só tem passagem de ida. É preciso que se entenda que ter filho não é para todos. Isso é um fato. Depois quem paga é a criança.

Cada vez mais me deparo com pais que são verdadeiros adolescentes. Crianças cuidando de crianças. “Ah, tá aporrinhando? Bota na aulinha de teatro que lá ele fica mais calmo”. “Ah, tá muito agitado? Mete o moleque no Jiu-jitsu que ele gasta toda aquela energia”. “Dá um dinheirinho para ele ir ao shopping encontrar os amiguinhos do condomínio.”

Acho ótimo, mas só isso não basta. Será que se ele enfiar o porrete em um sujeito na rua, a culpa será da academia de artes marciais também? É, a culpa é sempre do outro. Mas também se acontecer não faz mal, né? Papai tira da delegacia e depois encaminha ao psicólogo para saber o que há de errado com o menino. “Eu sabia que aquela escola (academia, amigo, professor, namorada) não era flor que se cheirasse, desencaminhou meu filho. Coitado, acho que vou dar um carro zero para ele superar o trauma.”

Parece ficção, mas não é. Isso acontece mais do que se imagina. Em um mundo louco, cada vez mais pais se locupletam de sua obrigação primária de educar e a substituem por presentes e objetos, com o intuito de sublimar suas culpas, suas ausências, suas inaptidões. Transformam crianças em adolescentes mimados, que por sua vez, se tornam adultos desinteressados, que frequentemente, como alunos, se indispõem com aqueles professores que querem dar aula de verdade. Afinal, professor bom é aquele “dá trabalhinho” para ajudar a nota, não é mesmo? Ora, vão virar uma laje!

Isso sem contar é lógico, aqueles pais que enxergam as instituições de ensino com absoluto demérito. Que chegam em pantagruélicos carros importados para buscar os filhos, mas vivem pedindo desconto em mensalidades. Será que conhecem o custo da vida acadêmica nos países de primeiro mundo? Pois é, lá se sabe o valor do estudo. Por aqui não. Lá primeiro vem a escola e só depois, o carro. Mas isso é lá, né? O que sabem eles? Por aqui nós temos a “malemolência brasileira”, a “ginga”, o “rebolado”. Somos foda! E aí de quem diga o contrário.

Claro que existem pais desidiosos em todos os lugares do mundo, mas parece que nossa educação, que já anda em frangalhos, não precisa acumular mais uma tarefa. Escola dá ensino, oferece caminhos, estabelece diretrizes, mas educação é obrigação indiscutível dos pais.

“Pôxa, meu filho nunca gostou de ler”. Sério? De que maneira ele foi incentivado? Ele via os pais lerem como hábito? Ó, “Revista Caras” enquanto faz as unhas não vale, tá? Eu sinceramente penso que algumas pessoas acreditam que cultura não tem preço e que o hábito de ler, pelo menos no princípio, não requer esforço. Isso não poderia ser mais falso.

Cultura custa caro, requer tempo e dedicação e o desenvolvimento da leitura  e da capacidade crítica, impende gradações e fases, que, obviamente, dependem do ritmo e da individualidade de cada um. Mesmo assim, é preciso empenho.

Sempre li com facilidade, mas atribuo isso ao fato de meus pais, de forma rotineira e incessante, me motivarem. Nunca fizeram restrição à forma em si. Me enchiam de gibis, revistas e jornais. Os livros vieram naturalmente na esteira desse comportamento. De Lobato a Eco, de Doyle a Nietzsche. Os gostos mudam, a concentração aumenta e com o tempo, o hábito se estabelece. Mas repito, se não houver incentivo, o que “vai  rolar” é Angry Birds e PS3 mesmo. Não me entendam mal, também gosto, mas há espaço e hora para tudo.

Digo mais: quem quer ler, lê até em pé, no ponto de ônibus. Quem quer ler se cadastra em uma biblioteca pública e aluga um livro. Quem quer ler pega emprestado, quem quer ler...lê. O resto é conversa fiada. “Ó, a pêra com leite ficou pronta, filhão! Quer que mamãe leve na cama para você não interromper as mensagens de textos com os coleguinhas?”

É basilar que, se a escola proporciona o método, o conteúdo e ajuda na forma, cumpre aos pais o mínimo: apresentar limites, traçar as linhas de comportamento social apropriado, punir quando necessário. Pagar as contas não é o bastante. Nunca foi. Pai não é banco. O que está ocorrendo é que, existem pais que não deixam os filhos na escola para que os mesmos amealhem conhecimento. O que fazem de fato, é se livrar de um fardo. Ou pior, passar o fardo para quem não deveria carregar. Mas e o “quem pariu Matheus que o embale”? Onde fica?

O resultado disso são estudantes capengas, relapsos, que vem a se tornar profissionais com diplomas de ensino médio e superior, mas que se constituem em verdadeiros analfabetos funcionais. Garanto a vocês que, mesmo em minha profissão, onde a escrita e a retórica são indispensáveis, tem muito advogado que não sabe redigir o básico e não possui vocabulário suficiente para traduzir um pensamento com exatidão. E sabem porque? Porque leram pouco. Se não se lê, não se constitui vocabulário, não se desenvolve a melhor dialética. Falta base, falta fundamento. Vou mais longe, quem não lê, sequer exerce plenamente sua cidadania, pois não entende ou conhece apropriadamente, as nuances do país em que vive, em que vota.

Claro que tem gente que vai dizer: “É, mas tivemos um presidente que não lia e mesmo assim foi presidente”. Sim e que belo exemplo, não é? Será que se lesse não poderia ter sido um presidente melhor? Digam vocês...

De fato, o que me causa perplexidade é a forma como a banda toca nos dias de hoje e como o condão da educação foi relegado a segundo plano, após o trágico fenômeno da ditadura militar. As vezes me pergunto: a quem interessa isso? Para quem seria útil uma população com baixo nível de educação acadêmica e alto nível de alienação?

É lamentável que, para uma profissão insubstituível como a de professor, o que restou consignado foram salários indignos, condições de trabalho que muitas vezes não possuem o mínimo do mínimo para se exercer o magistério e, agora como se não bastasse, ainda lhe imputam, muitas vezes, a necessidade de desempenhar o papel de pais. Qualquer dia serão cobrados por afeto também, esperem só.

Por derradeiro, lembro que o pior é que esses jovens um dia crescerão e, se isso não for mudado, o que ensinarão a seus filhos é o mesmo que aprenderam com os próprios pais. Afinal, é o que tinham para dar e a vida é pródiga na repetição de exemplos e comportamento.

Porém apesar do cenário dantesco, ainda sou otimista nessa luta, nesse bastião. Tenho que ser, pois senão faço as malas hoje. Ainda acredito que, com esforço de pais e professores na educação e no ensino respectivamente, comungados com uma politica menos estúpida e egoísta, esses jovens de hoje possam crescer o suficiente para serem bons pais e quiçá, bons leitores. Sejam pais tão bons que, no reverso da vida, ao se tornarem pais de seus pais na velhice inelutável, leiam para eles os livros que nunca foram lidos em suas infâncias, e assim, o néscio ciclo se quebre e se transforme em progresso, ao abrigo da literatura redentora, do afeto genuíno e da educação imprescindível.

Hpcharles.

“Enquanto minha guitarra chora suavemente*” (por Hpcharles)


Foi preciso que vinte anos se passassem. Mas aquela paixão nunca morreu. Talvez tenha sido a primeira, a que nunca me decepcionou de fato. Como um namorado mal agradecido a deixei de lado, sem jamais ter sido rejeitado ou traído. Isso é mais do que se consegue na maioria das relações.


Os dedos estão completamente enferrujados e a técnica – se havia alguma – terá que ser novamente aprendida. Mas isso pouco importa. A eletricidade corre de novo em minhas veias, as cordas de aço batem no corpo da Les Paul, pedais multicoloridos transfiguram o timbre, notas se chocam com válvulas saturadas. A sensação é enebriante. Viciante. Inelutável. Cocaína feita de madeira.

Tenho 18 anos de novo. Paudurescência pura. Festejados riffs pedem licença em meu cérebro, ídolos mortos sussurram acordes metafísicos em meus tímpanos. Renato Russo agora dança desajeitadamente em meus dedos e Jim Morrison espera sua vez na fila, em suas viagens de peyote.

Por alguns momentos que seja, a dor de cotovelo de ter escolhido a mulher errada é aplacada. A guitarra perdeu para a pena, para os livros de direito, para uma justiça que só existe em glamorosos filmes de tribunais americanos. Maldito dinheiro. O quanto é necessário para que nos vendamos? Para virarmos putinhas de cartões Platinum, marionetes dirigindo estúpidos carros importados?

Mas toda vez que penso que não há saída, vem o rock’n’roll e me dá um soco na boca. Por baixo do costume e da gravata, as tatuagens me lembram a minha verdadeira essência. Cuspo o veneno, limpo o sangue do golpe da vida com cifras e um gole de Jack Daniels. There`s still some simpathy for the devil in me.

Lembro de tanta gente que virou às costas e traiu o Rock para vestir a nova roupa do rei, que chamam pernosticamente de MPB e tenho nojo. Eu fiz escolhas erradas, mas não estou enterrado ainda. Nasci rock’n’roll e vou morrer rock’n’roll. Podem me cobrar. Eu quebro o osso mas não mudo a opinião.

Não, não sou eclético. E vou ser honesto, odeio quem é. Acho uma puta falta de coragem, coisa de quem não sabe o que quer. Esse tipo de gente não escolhe nem o sabor da pizza, quanto mais o que vai ouvir. Ora, vá baixar o cd do Bryan Adams em outro terreiro!

Podem me chamar de arrogante, de dono da verdade, não tô nem aí. Pelo menos eu sei que estrada pegar. E ela tem que ter poeira nos olhos.  Tem que ter cheiro de maple e rosewood.

Como um canalha “Rodrigueano”, hoje me entrego a várias e paradoxalmente sou  fiel ao mesmo tempo em minha imatura crise dos 40. Transo sem preservativo com Gibsons e Fenders. Em minha bigamia sem vergonha, não quero saber quem tem razão. Pago pensão às duas. Que Clapton e Page saiam no tapa, às conhecem infinitamente melhor do que eu.

Mas uma coisa eu sei. Que toda vez que olho para o pedestal em meu quarto, onde repousam obras de arte, esculpidas por mãos de Luthiers, eu me alegro por ter reencontrado a música em minha vida. Nela não há limites, não há idade, não há culpa. Vislumbro apenas uma miríade de sentimentos e lembranças.

Notas erradas, acordes incompletos, música fora do compasso. Foda-se. Ainda estou vivo e vou correr atrás, mesmo com a vida dando banda, botando o pé na frente. That`s the spirit. O tempo de lamentar acabou. Empurro o botão do volume, piso no Overdrive e o resto...é o resto.

Olho de relance para minha estante e os códigos eivados de leis que nunca fizeram sentido em minha vida, riem para mim com escárnio. Rio de volta, arreganho os dentes e faço um bend na guitarra. Artigos são substituídos por pentatônicas e pestanas. A Montblanc agora vale menos que a palheta de cinco reais. Me sinto invencível como uma criança.

São duas horas da manhã e sou trazido à realidade pelo interfone que toca me alertando que o show daquela noite acabou e não tem "bis". São os vizinhos. Eles tem razão. Me recolho. Devolvo o instrumento a seu pedestal, desligo o equipamento incandescente e dou um último gole no copo de whisky.

Me sento por um minuto e choro copiosamente. Boa parte de minha existência foi marcada pela música. Mesmo quando me afastei dela, ela nunca se afastou de mim. Tal qual o amante que errou, eu peço desculpas com uma lágrima no canto dos olhos.

Sem nada pedir em troca, fecho o estojo da guitarra, que solitária em seu caixão de veludo, nunca me cobra, enquanto chora suavemente...


                                                                       Hpcharles


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*Dedicado aos meus amigos Beto Laureano e Fernando de Sá pelo apoio inconsútil

Só eu fico indignada com essas coisas?

Foto original:
Foto modificada:

Porque até mesmo Marilyn Monroe prefere a tradução X à Y ou à Z...
Claro.

Detalhe: Eve Arnold, fotógrafa responsável pela foto histórica tirada em 1954 em Nova Iorque com o título Marilyn Monroe Reading Ulysses , faleceu em janeiro desse ano...
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