“Enquanto minha guitarra chora suavemente*” (por Hpcharles)


Foi preciso que vinte anos se passassem. Mas aquela paixão nunca morreu. Talvez tenha sido a primeira, a que nunca me decepcionou de fato. Como um namorado mal agradecido a deixei de lado, sem jamais ter sido rejeitado ou traído. Isso é mais do que se consegue na maioria das relações.


Os dedos estão completamente enferrujados e a técnica – se havia alguma – terá que ser novamente aprendida. Mas isso pouco importa. A eletricidade corre de novo em minhas veias, as cordas de aço batem no corpo da Les Paul, pedais multicoloridos transfiguram o timbre, notas se chocam com válvulas saturadas. A sensação é enebriante. Viciante. Inelutável. Cocaína feita de madeira.

Tenho 18 anos de novo. Paudurescência pura. Festejados riffs pedem licença em meu cérebro, ídolos mortos sussurram acordes metafísicos em meus tímpanos. Renato Russo agora dança desajeitadamente em meus dedos e Jim Morrison espera sua vez na fila, em suas viagens de peyote.

Por alguns momentos que seja, a dor de cotovelo de ter escolhido a mulher errada é aplacada. A guitarra perdeu para a pena, para os livros de direito, para uma justiça que só existe em glamorosos filmes de tribunais americanos. Maldito dinheiro. O quanto é necessário para que nos vendamos? Para virarmos putinhas de cartões Platinum, marionetes dirigindo estúpidos carros importados?

Mas toda vez que penso que não há saída, vem o rock’n’roll e me dá um soco na boca. Por baixo do costume e da gravata, as tatuagens me lembram a minha verdadeira essência. Cuspo o veneno, limpo o sangue do golpe da vida com cifras e um gole de Jack Daniels. There`s still some simpathy for the devil in me.

Lembro de tanta gente que virou às costas e traiu o Rock para vestir a nova roupa do rei, que chamam pernosticamente de MPB e tenho nojo. Eu fiz escolhas erradas, mas não estou enterrado ainda. Nasci rock’n’roll e vou morrer rock’n’roll. Podem me cobrar. Eu quebro o osso mas não mudo a opinião.

Não, não sou eclético. E vou ser honesto, odeio quem é. Acho uma puta falta de coragem, coisa de quem não sabe o que quer. Esse tipo de gente não escolhe nem o sabor da pizza, quanto mais o que vai ouvir. Ora, vá baixar o cd do Bryan Adams em outro terreiro!

Podem me chamar de arrogante, de dono da verdade, não tô nem aí. Pelo menos eu sei que estrada pegar. E ela tem que ter poeira nos olhos.  Tem que ter cheiro de maple e rosewood.

Como um canalha “Rodrigueano”, hoje me entrego a várias e paradoxalmente sou  fiel ao mesmo tempo em minha imatura crise dos 40. Transo sem preservativo com Gibsons e Fenders. Em minha bigamia sem vergonha, não quero saber quem tem razão. Pago pensão às duas. Que Clapton e Page saiam no tapa, às conhecem infinitamente melhor do que eu.

Mas uma coisa eu sei. Que toda vez que olho para o pedestal em meu quarto, onde repousam obras de arte, esculpidas por mãos de Luthiers, eu me alegro por ter reencontrado a música em minha vida. Nela não há limites, não há idade, não há culpa. Vislumbro apenas uma miríade de sentimentos e lembranças.

Notas erradas, acordes incompletos, música fora do compasso. Foda-se. Ainda estou vivo e vou correr atrás, mesmo com a vida dando banda, botando o pé na frente. That`s the spirit. O tempo de lamentar acabou. Empurro o botão do volume, piso no Overdrive e o resto...é o resto.

Olho de relance para minha estante e os códigos eivados de leis que nunca fizeram sentido em minha vida, riem para mim com escárnio. Rio de volta, arreganho os dentes e faço um bend na guitarra. Artigos são substituídos por pentatônicas e pestanas. A Montblanc agora vale menos que a palheta de cinco reais. Me sinto invencível como uma criança.

São duas horas da manhã e sou trazido à realidade pelo interfone que toca me alertando que o show daquela noite acabou e não tem "bis". São os vizinhos. Eles tem razão. Me recolho. Devolvo o instrumento a seu pedestal, desligo o equipamento incandescente e dou um último gole no copo de whisky.

Me sento por um minuto e choro copiosamente. Boa parte de minha existência foi marcada pela música. Mesmo quando me afastei dela, ela nunca se afastou de mim. Tal qual o amante que errou, eu peço desculpas com uma lágrima no canto dos olhos.

Sem nada pedir em troca, fecho o estojo da guitarra, que solitária em seu caixão de veludo, nunca me cobra, enquanto chora suavemente...


                                                                       Hpcharles


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*Dedicado aos meus amigos Beto Laureano e Fernando de Sá pelo apoio inconsútil

4 comentários:

  1. Fabrício, talvez eu não tenha sido bem claro quanto à conotação que quis dar a palavra "eclético". Os gêneros de música que vc citou pertencem a um gosto musical mais elaborado. Não gosto apenas de rock não. Curto jazz, soul, blues e flamenco entre outras coisas. Vc por exemplo me parece saber muito bem o que ouve.

    Me referi a quem diz que é eclético pq tem vergonha de assumir que curte é pagode, sertanejo, funk, axé e excrescências do mesmo quilate. É claro que foi uma provocação velada a essa bosta que entope nossos ouvidos em cada esquina.

    Não gosto de gente que se vende e do que é ruim. E sabemos que tem coisa que é indiscutivelmente ruim.

    1 abç.

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  2. Vc falou tudo, e eu de certa forma me solidarizo com o seu sentimento de retorno à música. Tive uma escolha difícil a fazer, qdo, por questões de saúde (uma lesão muscular) fui forçada a optar por só trabalhar e deixar a guitarra por longos meses de lado. Nunca pensei em viver de música, mas a música é inerente à minha pessoa, e ficar só olhando as minhas guitarras e todo o equipamento q demorei tanto tempo pra construir e solidificar, tá sendo deveras complicado rs Por já ter estudado uma gama de outros instrumentos, acredito q a guitarra é o instrumento q mais desperta essa relação tão forte de sentí-la como um membro da familia, uma amante, um casamento pra sempre. É assim q eu sinto. Sua pegada de enferrujada não tem nada, muito pelo contrário, está em ótima forma e com um som digno de ser apreciado.
    Um abraço,
    Cristina :-)

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