Diários de leitura: a volta dos que não foram

Eis o retorno dos Mini Vlogs como deveriam ser: diários de leitura como complemento de postagens aqui no blog ;)

Yay.
Sim.

A partir de agora, os Mini Vlogs não estarão mais disponíveis no canal.
Apenas aqui, no blog! \o/

Bem, comecemos os trabalhos.

Estou lendo Deuses Americanos.
Do Neil Gaiman.
De novo.
Segunda tentativa.

Dessa vez, seguindo a sugestão do pessoal que acompanha o canal no youtube, resolvi tentar de novo, em inglês.
Além das sugestões, resolvi pegar esse livro de novo para ler durante o All About Gaiman (especial que está rolando no canal da May [é só clicar para ver o vídeo explicativo ;) ] ).

Com muita fé.

Mas hein, a primeira tentativa.

Lembro de ter comprado esse livro, em, quê, 2009, 2010, logo depois de ter lido Lugar Nenhum (até então, pior livro do NG da vida - sei que muita gente adora, mas eu, sinceramente, não sei por quê. Para ver meu parecer sobre esse livro, bem, taí o link :)
Nos comentários do vídeo em que comentei sobre essa leitura frustrada (frustrante?), muita gente me recomendou "A Obra Prima do Gaiman" - Deuses americanos.

Ok, eu já tinha lido Sandman, e pensei "minhanossassenhora, isso deve ser bom."

Comprei.
Edição tosca, capa estranha, diagramação tenebrosa (letras miudinhas, espaçamento inexistente, economia de papel e tinta de impressão).
Não vou comentar sobre tradução/revisão, porque - desisti no primeiro capítulo.
Naquele momento em que , você aí que leu o livro deve se lembrar, aquela deusa/prostituta pede pro rapaz adorá-la durante o ato...

A vida é muito curta.

Passei o livro adiante.

E deveria ter terminado por aí minha história com Deuses americanos, mas nãaaao... lá vai Tatiana de novo.

Edição de 10 anos de aniversário, texto "sem cortes", e... bem, veja o vídeo...




PS: Meu amigo Bruno deixou comentário na minha foto do instagram, dizendo que esse livro foi o strike 2 do Neil Gaiman pra ele, e que nunca mais passou perto de NG.
Bem, esse também foi meu strike 2.
Se eu não tivesse lido Sandman, Livro de cemitério, e outras coisas antes dos strikes, talvez também tivesse desistido... hm...

O Demonologista (A.K.A Trollado pelo Capeta) - por Hpcharles

“Vocês pertencem ao pai de vocês, o Diabo, e querem realizar o desejo dele. Ele foi homicida desde o princípio e não se apegou à verdade, pois não há verdade nele. Quando mente, fala a sua própria língua, pois é mentiroso e pai da mentira.” - (João 8:44)

E lá fui eu, ansioso por encontrar algo que finalmente chegue perto de O Exorcista, investindo na mesma ilusão acolhida pelo cinema e pela literatura faz décadas, me imbuindo na quimera de encontrar uma história do Canhoto tão legalzona como a da menina que vomitava sopa de ervilhas. Eu sei, a culpa é minha. E a vontade de ser feliz era tão grande que eu mesmo violei, em nome do sonho, uma regra que dificilmente quebro: “não confie no hype!"

Meus caros, se Andrew Pyper possui algum mérito em seu livro, é o de nos ensinar que a Bíblia realmente está desatualizada. O escritor então, em um momento de genialidade,  transforma o “Pai da Mentira” em um troll corriqueiro. Tipo aquele que entra em seu canal de Youtube de forma rotineira e escreve comentários e pedidos sem o menor sentido. Só para te aporrinhar e te deixar com um “WTF” na ponta da língua. Pois é…está aí, em síntese apertadíssima, o resumo do vilão de O Demonologista.

Mas como disse antes, a culpa é minha. É que foi fácil ficar atraído pela edição bacanuda da Darkside, com capa dura aveludada, lombada imitando envelhecimento, letras em alto-relevo. Coisa do demônio, se me permitem o péssimo mas oportuno trocadilho. E parou por aí. Nas trezentas e poucas páginas em que a história é contada, nada chega nem perto de merecer o esmero empregado na edição.

Basicamente o livro conta a desventura de um professor do Departamento de Inglês da prestigiosa Universidade de Columbia que, por ser especialista em mitologia e narrativa religiosa judaico-cristã, com trabalho acadêmico reconhecido por Paraíso Perdido, é “escolhido” pelo Capiroto para ser alvo de suas investidas. Interessante? Está bonito até aí? Pois é, mas o gigantesco, o colossal problema do livro, está no desenvolvimento dessa ideia.

Desde o início o autor falha em proporcionar verossimilhança à trama, abusando de apelos emocionais fúteis e acriançados. A vida pessoal do protagonista é desinteressante, cansativa e usada, em inúmeras oportunidades, como muleta para a capitalizar a narrativa. Os poucos momentos de tensão que o livro consegue criar, como por exemplo o primeiro encontro com o Coisa Ruim em Veneza, se perdem no meio de devaneios pessoais desnecessários e “chororôs” familiares. O rapto que amarra o catedrático aos acontecimentos, criando a teia dramática, logo esgota o leitor ao contrário de instigá-lo. Para se ter uma ideia dos recursos apelativos usados, nos é revelado, bem no início, que um ativo personagem tem câncer. Ocorrre que, tal moléstia, ao longo de todo o livro, não interferirá em nada nos fatos narrados e sofridos por ele. E tanto não interferirá que ele come fast food, transa (tenta), dirige por horas e horas a fio e por fim morre em LUTA CORPORAL. Enfim, uma pessoa saudável não faria melhor. Para que então a inserção de algo tão nefasto logo no começo da narrativa? Será que o autor percebeu que sua história em si não era dramática o suficiente? Por favor…

No entanto, não se pode dizer que esses detalhes incidentais sejam o nó górdio que torna o livro ruim. O que o faz péssimo é a falta de empatia que o leitor tem com os protagonistas somados à pobreza lógica, a fragilidade de sentido entre os acontecimentos descritos ao longo da narrativa. O professor em comento é uma pessoa fraca, sem carisma e com pouquíssimo elã para enfrentar uma entidade sobrenatural, supostamente onisciente e super-poderosa. E a entidade, que é onisciente e super-poderosa, também é…como direi…enfadonha a dar com o pau. Senhores, o demônio, que ao longo dos séculos sempre foi retratado como um sedutor, como dotado de inteligência e astúcia incomparável, como um perfeito estrategista, nesse livro não passa de um troll. Sua maior maldade nesse livro parece ser impor ao infeliz professor, ao longo da história inteira, entediantes e intermináveis viagens de carro sem justificativa suficiente. Lógico que o malfadado protagonista compra um Mustang para cumprir sua tarefa, o que só serve para acentuar sua crise de meia idade e torná-lo mais caricato ainda. Enquanto fica comendo comida de estrada e fugindo de um “matador do Vaticano” (quer clichê, então toma!), o desgraçado se depara com fenômenos sobrenaturais inseridos de forma claudicante, vazia, os fazendo prescindíveis por defeito de nexo. Em um livro que se propõe a narrar uma batalha do bem contra o mal, o mínimo que se espera é uma antítese bem construída, com lógica firme e coerência cristalina.

O leitor, coitado, cansa dessa road trip sem sentido, e ansiando por ser poupado desse inferno de livro (trocadilho infame n.2) mal se dá conta quando se pega torcendo pelo demônio, desejando que o Tinhoso leve, logo e de vez, o infeliz professor.

Cumpre ressaltar que apesar das inúmeras citações a Milton, tais remissões não ajudam à criação de uma lógica teológica consistente. O bolo não dá liga e as soluções encontradas pelo autor beiram o risível. Para se ter noção ao que me refiro, em determinado momento, o chatonildo do professor pega um taxi e o motorista, que é brevemente possuído (qualquer um parece poder ser possuído a qualquer tempo sem maiores explicações ou dificuldades - #assimficafacil), muda o destino da corrida para o famoso Edifício Dakota em NY. Como o taxista o deixou na esquina norte do edifício, o professor então tem a extraordinária intuição de que deve se dirigir ao estado de Dakota do Norte. Repare a “brilhante” saída inventada pelo autor para dar continuidade à trama. E só para ficar claro, com todo o respeito…é como se a porra do Diabo o tivesse enviado para o Piauí. Essas deduções e advinhações inconsistentes e pateticamente infantis, dignas dos bons tempos dos jogos do programa do Sílvio Santos, permeiam todo o livro, com o protagonista sendo estabalhoadamente empurado para cima e para baixo dentro dos Estados Unidos.

Meus caros, há muito pouco a se aproveitar nesse livro. Confesso que ao ler nos jornais e na Internet algumas notas sobre O Demonologista, fiquei atraído pela possibilidade de que uma boa história de horror houvesse sido criada. Mas não há nada. Os diálogos entre o protagonista e a entidade carecem de profundidade, de inteligência e até de coerência Bíblica, em se tratando de uma entidade ligada ao cristianismo. O autor conseguiu a peripécia de tornar o Demônio uma figura sem atrativos e criou como contraponto um “herói” sem viço, anêmico, sem virilidade, incapaz de gerar identificação ao leitor.

No entanto, se você comprou um exemplar de O Demonologista buscando apenas algum tipo de história de horror trivial, não se desepere. A encontrará. Ao terminar de ler, você certamente se recordará assustado o quanto pagou pela edição e se assombrará ao lembrar do tempo que foi jogado fora e que poderia ter sido empregado fazendo algo melhor, como por exemplo...ler um bom livro. E por fim sentirá aquele característico frio na nuca ao elocubrar se você só leu essa bobagem até o final porque gastou dinheiro, porque é masoquista, ou se foi o Demônio que te fez ler. É isso. Só pode. Foi ele. Maldito troll do inferno!




O Demonologista (The Demonologist)
Andrew Pyper
2015

A fileira de carrinhos (por Hpcharles)




Existem fases em que dormimos menos. O sono quica e te estraga não só para o dia seguinte, mas para a vida. Ficamos irritadiços, nos tornamos injustos, brigamos até com o café, nosso grande amigo. Mas os sonhos, pelo menos comigo, se tornam mais vívidos, significativos, mensageiros. Semana passada tive um sonho desses.
Me vi bem criança, ainda sem culpas ou arrependimentos, sem ter sido visitado pela política ou pela religião. Estava feliz. Sentado no chão de sinteco polido, montava uma longa fileira de carrinhos de metal. O sol entrava por uma fresta da janela não alcançada pela cortina colorida, aquecia a mim e clareava todo o recinto. Eu sorria mas ao mesmo tempo era meticuloso, obstinado em deixar a carreata retilínea. Ao notar um pequeno desvio de um dos carrinhos, me punha logo a ajeitá-lo, implacavelmente. Por vezes tentava usar o rodapé como parâmetro, mas não confiava em sua exatidão. Para aquela tarefa, só confiava em mim.
E ficava assim por muito tempo. Como se aquilo fosse imprescindível. Como se os mini para-choques dos mini veículos, necessitassem ser colados precisamente, um atrás do outro, de maneira peremptória e plena. O prumo era mais importante do que os carros, mais relevante do que a brincadeira, mais valioso do que eu. Era o que sabia naquele instante, naquele sonho.
No entanto, em determinado momento, de sobressalto, sem avisar ao sonhador, solto um riso divertido e dou um tapa nos “matchboxes”, desmanchando irremediavelmente todo o árduo trabalho que tivera. Após isso, me levanto e saio do quartinho como se aquilo tudo não tivesse sentido qualquer. Como se todo aquele esforço espartano para alinhar a fileira fosse inócuo, improfícuo, inútil em qualquer finalidade.
Acordo então e, novamente infestado de insônia, passo a deslindar a experiência que tive, buscando-lhe significado ou razão. Penso nos carros como momentos de minha vida e em como tentei ajustá-la, assim como fiz como a fileira. Me recordo de como tentava não deixar espaço entre os carrinhos, a fim de que se encaixassem de forma mais eficaz. Lembro dos momentos de minha existência em que o alinhamento parecia exato e o comboio era como uma hoste de vassalos rigidamente exigidos por suseranos para, depois, descobrir que não era. E que houve um desfile de carros alegóricos. Fantasias. E que a realidade é que a linha estava toda enviesada. E que minha vida também estava enviesada e eu não percebia. Apesar de, constantemente, tentar alinhá-la. Assim como não entendia como eu, quando criança quimera, fui capaz de desfazer tudo o que construí com apenas um tapa. Sem considerar que isso acontece todos os dias na vida de tantas pessoas.
O que saberia aquele garoto que eu, muito mais vivido, muito mais adulto, muito mais versado, não poderia saber? Me ergo da cama e me dirijo até a cozinha para beber um copo de água. Sento alguns instantes à mesa da sala e de repente tudo parece fazer sentido. Entendo tudo.
Descubro o que percebeu o menino ao destruir a fileira e que o homem não era capaz de desvendar. E não apenas isso, sabia o porquê. O sonhador não entendia o sonho porque não se cuidava de sapiência, mas de pureza. A perda da inocência, corolário nefasto de se viver a vida, é que passamos a enxergar algumas coisas e ficar cego à outras. Deixamos de confiar, de acreditar. Primeiro nos outros e depois paramos de confiar em nós mesmos, inúmeras vezes.
Nos concentramos em aparar arestas, em contornar crises, nos prendemos ao último carro da fileira, quando existem outros tantos mais à frente, mais atuais, que compõem a frota e que também foram importantes para que toda a linha, enfim, consignasse determinada figura. E então transformamos a caravana em cáfila, por dinheiro, e depois em cortejo fúnebre, por morbidez, ao invés de apenas brincar com os carrinhos. No final não vemos mais a fileira como ela é. Vemos a fileira, mais névoa. Vemos a fileira, mais as vicissitudes. Vemos apenas as vicissitudes. 
O que o pequeno menino sentado no quarto descobriu antes de mim, porque olhava e via, e depois fez questão de se esquecer para poder sobreviver, é que não fazia sentido ficar mexendo nos carrinhos. Mesmo em sua brincadeira soube que era perda de tempo, pois a linha nunca ficaria perfeita para ele. E não ficaria porque constatou que não é a fileira de carrinhos que fica torta. O que fica torta, na verdade, é a vida.

E então dormi para o menino poder voltar a brincar.

Jim Duran para Governador do Universo (por Hpcharles)



Em primeiro lugar, gostaria de deixar claro que não conheço Jim Duran pessoalmente. Não posso me considerar seu amigo ou confidente, vez que não conquistei tal prerrogativa. Tampouco, quem me conhece ou acompanha meus textos - cada vez mais escassos - sabe que não sou muito afeto a afagos. Estou mais para aquele cara intragável que reclama e critica a quase tudo com a complacência de um huno, com ou sem razão e fora de hora, culpando tais surtos como mero fruto de uma infalível reflexão pouco otimista acerca de um mundo onde existe pouquíssimo whisky para se resgatar e se separar os menoscabados sãos e ilibados, dos filhos das putas e ignorantes que abundam como ratos em nossa combalida e acrimônia sociedade.
Esclarecido isso, é de bom alvitre ressaltar que conheci Duran através de minha esposa (mais uma que devo a ela). Confesso, despudorado, que sigo seu canal no Youtube e vejo seu Instagram com fidelidade de cão guia. O fato de o professor ter apenas pouco mais de 800 inscritos e o Bonde da Stronda quase 600.000, para mim já bastaria para evidenciar que, se deus existe, ele não se importa. E para provar, evidentemente, que estamos fodidos. E mal pagos. E sem vaselina. E com vidro moído.
Quando não se conhece uma pessoa a quem se admira nos permitirmos traçar em nossas mentes doentias, coalhadas de patologias carinhosamente esculpidas por nossos amados progenitores, as mais variadas acepções e julgamentos, livres de quaisquer limites. Bom, pelo menos até que o corpo de bombeiros bata em nossa porta ou que o Haldol com Fenergan faça efeito. Mas só se for o caso. Jim é tão legal que não inspira qualquer negatividade. Nem os sociopatas se irritam e imbecis não o seguem. E se seguem, não deveriam.
Pois vou me permitir, ao arrepio de consentimento, passar minhas impressões sobre o poeta e mestre que, por trapaça do universo, nunca tive em sala de aula. É claro que posso estar redondamente enganado, mas que se foda...as impressões são minhas.
Pra começo de conversa, Jim Duran faz o impossível nos dias de hoje. É um gordo aceito. Bebe, fuma e está em constante movimento físico e intelectual. Parece ser queridíssimo do público feminino e é cool as fuck. Para mim, o cara é a epítome do que considero o verdadeiro Rock and Roll. É como se o Hank Moody resolvesse trocar a cocaína pela picanha com a gordurinha nas bordas e isso não alterasse em nada os episódios.
“Ah, Hp...que exagero”. Exagero nada. “Eu quero acreditar”. Duran não teve nenhuma oportunidade em Hollywood e nasceu no Brasil. Vamos contextualizar a parada. Tá dando duro em sala de aula, onde deve enfrentar muito mais alienígenas do que Duchovny jamais o fez em todas as temporadas de Arquivo X.
Jim é aquele cara que mostra seus livros sentado em uma mesa em frente à geladeira e penso comigo... “danem-se os livros...mostra o que tem na geladeira”. Não que não curta o que o sujeito lê, muito pelo contrário. Mas é que de Duran espero mais. Espero que faça um poema sobre a mostarda especial que comprou na noite anterior, contrariando o que reza a cartilha de quem recebe salário de professor. E espero isso porque quero copiá-lo. Sem ele saber.
Eu sei que aqueles que são seus amigos de verdade, os que o amam intensamente, seus familiares, alunos e até as bulas de remédio, lhe enchem os colhões para que pare de fumar, para emagrecer, para parar de beber. Isso é comezinho quando se atinge certa idade. Mas eu, egoísta que sou, quero é lhe levar uma garrafa de Jack Daniels para a bebermos inteira. Aos shots e ouvindo AC/DC. Porque bêbado, Duran deve ser ainda mais legal. Aquele bêbado que se acalma e não se torna excessivamente amável, porque no caso do poeta em comento, não seria preciso. Porque dormiria em sua embriaguez, porque se sabe capaz de amar sóbrio.
É claro que, consignada a minha inexplicável empatia - essa é a palavra - pela personalidade afetuosa e interessante que acompanho de longe, e resignado pela distância física, deveria, por apego ao bom senso e amor ao próximo, ensaiar a  mesma cantilena que ele deve estar de saco cheio de ouvir, no sentido de se cuidar. Bom, Jim...sorry, buddy...não será por mim. Para mim você não tem de mudar nada. Ok, poderia mudar para o Rio. Tem um boteco legal aqui perto. Eu converso com o Fagundes e ele abre uma conta para ti. Fico como fiador. Servem linguiça frita acebolada e chopp gelado. Não recomendo o ovo rosa, mas o Fagundes é gente boa e tem sempre um Engov sob o balcão. Com sorte, faria vista grossa ao charuto. Mas tem que conquistar o portuga, irmão. Isso é contigo.
O que me impressiona é que, nesse universo de vlogs e blogs literários, onde indicam tantas coisas boas, tantos livros fantásticos, tantos filmes imperdíveis, pouca gente recomende Jim Duran. Então é isso. Eu recomendo Jim Duran. Pronto. Sua poesias enternecedoras, suas fotos despretensiosas, quase todas com um coeficiente de nostalgia, seus comentários eivados de gentileza, sua personalidade naturalmente descolada, seu coração onde parece caber todo um país, tudo fica devidamente recomendado.
Ontem ouvi Duran recitar Bukowski e não ouvi a voz de Duran, mas de Bukowski. Primeiro pensei em prestidigitação vulgar, mas não, eu deveria saber. Foi mediunidade pura. Uma combinação de além-túmulo. Eles se entenderam. Foi isso. Jim irá negar, mas foi isso.
Quando vejo seus vídeos, sou estranhamente acometido de um paradoxal sentimento de raiva e de culpa. Raiva porque queria que ele fizesse mais vídeos, porque desejo que ele fale mais sobre como enxerga a vida à revelia das frivolidades cotidianas, porque dele, naquele momento em que singra a tela de meu computador, exijo ilações metafísicas e, porque, acima de tudo, entendo que Jim precisa mostrar o que tem em sua geladeira. Mas e a culpa? A culpa é justo porque tive raiva dele por um segundo que seja. Fogo de artifício. Como ter raiva de uma figura como essa? Duran é aquele tipo de sujeito que te daria a última mordida de seu Big Mac. O maldito é ungido pela malemolência comportamental. E ponto.
Mas como escrevi, nem sei muito do cara. Tudo chute. E, se estiver errando o gol, por obséquio, não me contem. E não me contem porque fidedignamente acredito que precisamos de mais Duran no mundo. Precisamos de mais Duran recitando Bukowski no mundo. Precisamos de mais fotos do gordo aceito, bebendo whisky e fumando seu charuto, com seu cachorro negro no colo, sendo professor, abraçando genuinamente e sendo abraçado ainda mais genuinamente e largando um foda-se, só para mostrar que é humano e que pode. Porque Duran é daqueles que cai e levanta. Que cura ressaca com cerveja, onisciente de sua mortalidade e fraquezas, mas também sabedor que é o resultado inelutável do que sua existência filosófica e poética fez dele. Jim Duran então não se debate ou esperneia não porque sabe que seria inútil. Mas porque é meio que teimosia, meio que bebida e fumo, meio que dono de um cachorro negro, meio que indomável, meio que mestre, meio que poeta.
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