CONTO #32: Dois Hussardos (Tolstói)



          Publicado pela primeira vez em 1856, Dois Hussardos conta a história de pai e filho, duas gerações de hussardos completamente diferentes. O primeiro hussardo, pai, era um homem galante, generoso, que ajudava o próximo mesmo quando o próximo necessitado se tratava de um bêbado com uma grande dívida de jogos. Já o segundo hussardo, o filho, é um jovem aproveitador e egoísta. 
             As duas gerações de hussardos se relaciona com duas gerações de mulheres do campo; a primeira, apaixonada pelo hussardo pai, nunca se esqueceu dele; já a segunda, ao entrar em contato com o hussardo filho, se afasta bruscamente, e não tem o menor interesse por ele.
             O que Tolstoi faz aqui, é contrastar os valores sociais e morais dessas duas gerações. Ao comparar pai e filho, o autor nos mostra como a bondade e a gentileza  de antigamente deu lugar ao egoísmo e à cobiça do presente. Esse saudosismo é recorrente ao longo de todo o conto, e fica marcado com a repetição de frases como "estraguei minha mocidade", ou "aquele tempo não volta mais".

                "Estraguei minha mocidade", disse de repente para si mesmo, não porque pensasse de fato que havia estragado a mocidade - em geral, ele nem pensava no assunto - , mas apenas lhe veio à cabeça aquela frase"
(p. 395)
"A chegada do conde [hussardo pai] ao baile era esperada: o jovem bonito que o vira no hotel
já tinha avisado o decano da nobreza a respeito. A impressão produzida por aquela novidade foi variada, mas no geral não de todo desagradável. "Esse menino ainda vai nos expor ao ridículo", era o pensamento das velhas e dos homens. "E se ele me raptar?", era mais ou menos o pensamento das moças e senhoritas."
(p.405)

Onde encontrar Dois Hussardos: Contos Completos de Tolstói


CONTO #31: A cidade sem nome (H. P. Lovecraft)

          
          Publicado pela primeira vez em 1921 em uma revista amadora (fanzine?) chamada The Wolverine, A cidade sem nome (The nameless city) é o conto de H. P. Lovecraft que dá início às suas histórias sobre o mito de Cthulhu*, mitologia essa criada pelo próprio autor.
                Aqui conhecemos, então, um viajante que ao atravessar o deserto árabe se depara com essa cidade perdida no tempo, a Cidade Sem Nome, sem história, desconhecida pelo homem não por não estar contida nos livros de história, mas porque nenhum homem se atraveria a conhecê-la
                O destemido narrador, apesar de todos os avisos das vozes ancestrais para se ter cuidado e evitar aquela cidade que chegam até ele sabe-se lá como, resolve, sim, por quê, não, oras?, visitar a Cidade Sem Nome.
                 Uma vez lá dentro, ele se depara com um templo peculiar, cuja arquitetura parece bastante avançada para uma cidade abandonada há séculos como aquela, e as "esquisitices"não param por aí.
                  Excelente na arte de criar ambientes tensos, cuja tensão aumenta a cada parágrafo durante a leitura, Lovecraft vai levando o leitor através do olhar do narrador por essa "visita guiada", e acaba por deixá-lo absolutamente intrigado com o que se encontra naquele lugar abandonado e esquecido por todos.
               Como aquilo tudo foi parar ali? Quem eram os habitantes da Cidade Sem Nome? O que teria acontecido com eles?
                 Excelente porta de entrada para a obra do autor que apesar de toda a fama alcançada nas últimas décadas, ainda permanece obscuro.

OBS: A edição contendo a obra completa de H. P. Lovecraft que aparece na foto, foi lida em inglês; a tradução dos trechos a seguir foram feitas por mim.


“Quando cheguei à cidade sem nome, sabia que era amaldiçoada. Viajava sob a luz do luar por um vale assustador, e, à distância, pude ver a cidade erguendo-se sobre as areias como parte de um corpo em putrefação escapando de sua tumba destroçada. O medo escapava pelas pedras desgastadas da cidade antiga, sobrevivente de enchentes, tataravó da mais antiga pirâmide; uma aura invisível me repeliu e me obrigou a me afastar de seus sinistros segredos ancestrais que homem algum conhecia, e que nenhum homem ousaria conhecer.”
(p. 1)

“O templo, como eu vislumbrara do lado de fora, era muito maior do que os já conhecidos; e era presumivelmente uma caverna natural, já que continha correntes de ar provenientes sabe-se lá de que região. Lá dentro eu conseguia ficar de pé, ereto, mas pude observar que os altares eram da mesma altura dos outros templos. Nas paredes e teto pude ver, pela primeira vez,  alguns traços da arte pictórica da raça ancestral, pinturas curiosas quase apagadas pela ação do tempo; e em dois dos altares, pude ver com certa excitação um labirinto muito bem feito de relevos curvilíneos esculpidos. Ao erguer minha tocha, notei que o formato do teto era regular demais para ser natural, o que me deixou curioso sobre como os talhadores de pedra primitivos fizeram seus primeiros trabalhos. Seus conhecimentos de engenharia devem ter sido vastos.”(p.3)“Minha mente girava em pensamentos alucinados, e os avisos dos profetas árabes pareciam flutuar pelo deserto, vindos das terras conhecidas pelo homem, para a cidade sem nome que eles mesmos não ousam conhecer. Ainda assim, hesitei por um momento antes de avançar portal adentro e começar minha escalada abaixo cuidadosamente, pé ante pé, como quem desce uma escada.”
(p.3)

“Minha mente girava em pensamentos alucinados, e os avisos dos profetas árabes pareciam flutuar pelo deserto vindos das terras conhecidas pelo homem para a cidade sem nome que eles mesmos não ousam conhecer. Ainda assim, hesitei por um momento antes de avançar portal adentro e começar minha escalada abaixo cuidadosamente, pé ante pé, como quem desce uma escada.”
(p.4)


Onde encontrar The Nameless City: H. P. Lovecraft - The Collection

* Permaneço sem saber pronunciar "Cthulhu"; quem puder ajudar, agradeço :)

Projeto de leitura: Literatura Fundamental

Para quem não conhece, o Literatura Fundamental era um programa desenvolvido e transmitido pela UNIVESP TV. Voltado para a divulgação de livros base para a literatura, como o próprio título diz, ao longo de seus 4 anos de existência (o primeiro episódio foi ao ar em 2013 e o último, no final de 2016), apresentadores bem preparados conversavam, por cerca de meia hora, com professores universitários especialistas em determinadas obras de grandes autores, e aguçavam a curiosidade de telespectadores-leitores.

Além da discussão - bastante didática de forma a tornar-se interessante tanto para leigos como para estudantes de Les belles lettres - sobre alguma obra importante de determinado autor, o programa apresentava um panorama de sua vida e obra como um todo, bem como sugestões de leituras complementares.

Ou seja: um prato cheio para todos nós, leitores em eterna formação.

Sendo grande apreciadora do programa (e esperando, até hoje, o retorno de trabalho tão bacana), resolvi fazer a lista com todos os episódios disponíveis no canal da UNIVESP no Youtube.com, e montar um projeto de leitura sobre essa lista.

Caso mais alguém queira participar desse projeto, também, fique à vontade!
A grande maioria desses livros está em domínio público, e são fáceis de encontrar na biblioteca mais próxima.

Convite feito, vamos à lista:

- - Lista completa dos vídeos do Literatura Fundamental:
(Os livros que já foram resenhados no TLT terão links para os vídeos no canal logo abaixo de cada item; conforme as resenhas forem surgindo no TLT, essa lista será completada)

1*) Ilíada (Homero)
- Vídeo no TLT

2) Odisseia (Homero)
- Vídeo no TLT

3) Livro das Mil e Uma Noites

4) Dom Quixote de La Mancha (Miguel de Cervantes)
- Vídeo no TLT

5) Madame Bovary (Gustave Flaubert)
- Vídeo no TLT

6) Fausto (Johann von Goethe)
- Vídeo no TLT

* Vídeos numerados de 1 a 6, e postados no Youtube.com de 23 de março a 29 de abril de 2013; os vídeos postados a partir de 16 de maio do mesmo ano voltaram a ser numerados a partir do número 1; em 2016, os vídeos deixaram de ser numerados.


1) Divina Comédia (Dante Alighieri)

2) As Flores do Mal (Charles Baudelaire)

3) Crime e Castigo (Fiódor Dostoiévski)
- Vídeo no TLT

4) Hamlet (William Shakespeare)

5) Édipo Rei (Sófocles)

6) Esperando Godot (Samuel Beckett)

7) A Montanha Mágica (Thomas Mann)
- Vídeo no TLT

8) O banquete (Platão)

9) Trilogia Os Caminhos da Liberdade (Jean-Paul Sartre)

10) Ficções (Jorge Luis Borges)

11) Grandes Esperanças (Charles Dickens)

12) Eneida (Virgílio)
- Vídeo no TLT

13) O Grande Gatsby (F. Scott Fitzgerald)
- Vídeo no TLT

14) Cem anos de solidão (Gabriel Garcia Marquez)

15) Em busca do tempo perdido (Marcel Proust)
- Vídeo no TLT (Diário de leitura "Lendo Proust)

16) Ulysses (James Joyce)
- Vídeo no TLT

17) A comédia humana (Honoré de Balzac)

18) Moby Dick (Herman Melville)

19) As cidades invisíveis (Italo Calvino) 

20) Os sertões (Euclides da Cunha)

21) O estrangeiro (Albert Camus)

22) O processo (Franz Kafka)

23) Os ensaios (Montaigne)

24) Uma temporada no inferno (Arthur Rimbaud)

25) O jardim das cerejeiras (Anton Tchekhov)

26) A terra desolada (T. S. Eliot)

27) Decamerão (Giovanni Boccaccio)

28) O coração das trevas (Joseph Conrad)

29) A República (Platão)

30) O conde de Montecristo (Alexandre Dumas)
- Vídeo no TLT

31) Um lance de dados (Mallarmé)

32) 1984 (George Orwell)

33) Os Lusíadas (Camões)

34) Os moedeiros falsos (André Gide)

35) Metamorfoses (Ovídio)

36) A morte em Veneza (Thomas Mann)

37) Seis personagens à procura de um autor (Luigi Pirandello)

38) O lobo da estepe (Hermann Hesse)

39) Memórias do cárcere (Graciliano Ramos)

40) A vida de Galileu (Bertolt Brecht)

41) Oliver Twist (Charles Dickens)

42) Grande sertão: veredas (João Guimarães Rosa)
- Vídeo no TLT

43) Mrs Dalloway (Virginia Woolf)

44) A morte de Virgílio (Hermann Broch)
- Vídeo no TLT

45) Robinson Crusoé (Daniel Defoe)

46) Tartufo (Molière)

47) O rinoceronte (Eugène Ionesco)

48) Histórias Extraordinárias (Edgar Allan Poe)

49) Otelo, o mouro de Veneza (William Shakespeare)

50) Mensagem (Fernando Pessoa)

51) O vermelho e o negro (Stendhal)

52) O leopardo (Lampedusa)
- Vídeo no TLT

53) A ilustre casa de Ramirez (Eça de Queiróz)

54) A língua absolvida (Elias Canetti)

55) O som e a fúria (William Faulkner)
- Vídeo no TLT

56) Um bonde chamado desejo (Tenessee Williams)

57) As irmãs Makioka (Junichiro Tanizaki)

58) Memorial do Convento (José Saramago)

59) O deserto dos tártaros (Dino Buzzati)

60) Pedro Páramo (Juan Rulfo) 

61) O complexo de Portnoy (Phillip Roth)

62) Primeiras trovas burlescas (Luiz Gama)

63) A hora da estrela (Clarice Lispector)

64) Os miseráveis (Victor Hugo)
- Vídeo no TLT

65) Cantos de Maldoror ( Isidore Ducasse ou Conde de Lautreamont )

66) O burlador de Sevilha (Frei Gabriel Telles, ou Tirso de Molina )

67) Lolita (Vladimir Nabokov)
- Vídeo no TLT

68) Contraponto (Aldous Huxley)

69) A consciência de Zeno (Italo Svevo)

70) Medeia (Eurípedes)

71) Teogonia (Hesíodo)

72) A náusea (Jean-Paul Sartre)

73) Noite de reis (William Shakespeare)

74) Orgulho e preconceito (Jane Austen)
- Vídeo no TLT

75 e 76) O Jogo da amarelinha (Julio Cortazar): Parte 1 e Parte 2

77) O retrato de Dorian Gray (Oscar Wilde)
- Vídeo no TLT

78) Pais e filhos (Ivan Turgueniev)

79) Longa jornada noite adentro (Eugene O'Neill)

80) Alice no país das maravilhas (Lewis Carrol)

81) Adeus às armas (Ernest Hemingway)

82) Os cantos (Ezra Pound) 

83) As aventuras de Huckleberry Finn (Mark Twain)

84) Desonra (J. M. Coetzee)

85) Contos (Hans Christian Andersen)

86) O náufrago (Thomas Bernhard)

87) On the road (Jack Kerouak)

88) O Mahabharata

89) Finnegans wake (James Joyce)

90) Guerra e paz (Tolstói)
- Vídeo no TLT (Diário de leitura "Lendo Guerra e paz")

91) As viagens de Guliver (Jonathan Swift) 

92) Folhas de relva (Walt Whitman)

93) Contos maravilhosos, infantis e domésticos (Irmãos Grimm)

94) A vida e as opiniões do cavaleiro Tristam Shandy (Laurence Sterne)

95) O apanhador no campo de centeio (J. D. Salinger)
- Vídeo no TLT

96) Canções da inocência e Canções da experiência ( William Blake)

97) O paraíso perdido (John Milton)

98) O homem sem qualidades (Robert Musil)

Episódios de 2016:

Viagens na minha terra (Almeida Garret)
- Vídeo no TLT

- Anjo negro (Nelson Rodrigues)

- Vidas secas (Graciliano Ramos)
- - Vídeo no TLT

- O cortiço (Aluísio Azevedo)
- - Vídeo no TLT

- A cidade e as serras (Eça de Queirós)
- - Vídeo no TLT

- Diálogo sobre a Conversão do gentio (Manuel da Nóbrega)


25/01/2018 Total de livros lidos E resenhados no TLT até o momento: 26


CONTO #30: William Wilson (Edgar allan Poe)

           
        
           Um dos melhores contos já escritos.
           Duvida?
           Está em domínio público, aproveite para tirar a prova.
           E deve ser lido antes de sua primeira incursão pela Trilogia de Nova York, de Paul Auster (para entender, veja o vídeo clicando no link).
           Publicado pela primeira vez em 1839, William Wilson tem como tema principal o dopplegänger, ou seja: o duplo. O outro, ele mesmo. Ou não. Leia o conto. 
           A história toda se desenvolve no limiar entre a imaginação e a realidade.
          Logo nos primeiros parágrafos, o narrador, e também o nosso protagonista, nos deixa claro que ele faz parte de uma estirpe de sonhadores ( Aqueles que sonham de dia...), de pessoas com a imaginação muito fértil. E, estando ele na hora da morte, resolve contar, como quem passa a limpo  ou revê a vida antes de expirar, tudo o que o levou a estar ali, naquele momento.
       O narrador, William Wilson, se demora recriando o ambiente por onde passara os anos da infância (o internato) detalhadamente, até passar para as lembranças de seus professores, colegas, e - William Wilson. Não ele mesmo, o outro. O aluno novo que além de ser seu homônimo, seu rival, aquele que o humilha e deve ser humilhado de volta, o garoto de mesma altura e feições tão semelhantes que chega a ser tomado por seu irmão gêmeo, que além de tudo compartilha a mesma data de nascimento.
           Estranho, não? 
           Como todo bom dopplegänger.
      Temos um salto no tempo. William Wilson, ele mesmo, o narrador, já é um universitário arrogante, beberrão, jogador inveterado. O jovem indefeso cresce e se transforma basicamente em tudo aquilo que de início, conforme as primeiras páginas da narrativa correm, jamais imaginaríamos que ele fosse se tornar.
         Tudo vai bem nessa vidinha fanfarrona que ele leva, até receber a inesperada visita de quem? Quem?? QUEM???
          Ele mesmo.
          Não! O outro. O homônimo. O outro William Wilson.
          A partir de então, a história se desenrola de um jeito impressionante.
      

"Que seja permitido, no momento, apresentar-me como William Wilson. A página imaculada ora diante de mim não necessita ser manchada com meu verdadeiro nome. Este já constituiu por demais objeto do desprezo, do horror, do repúdio de minha estirpe. (...) Ah, o mais desamparado pária dentre os párias! Para o mundo não estás morto eternamente? para suas glórias, para suas flores, para suas douradas aspirações? e acaso uma nuvem densa, desoladora e infinita não paira por todo o sempre entre tuas esperanças e o céu?"
(...)
A morte se aproxima; e a sombra que a precede lançou uma influência suavizante sobre meu espírito. anseio, ao cruzar o vale sombrio, pela simpatia - quase ia dizendo pela piedade - de meus semelhantes. Eu de bom grado os faria crer que fui, em alguma medida, escravo de circunstâncias além do controle humano."
(p. 25)

"Em sua rivalidade poder-se-ia conjecturar que agia unicamente por um desejo caprichoso de estorvar, surpreender ou mortificar minha pessoa; embora houvesse ocasiões em que eu não conseguia deixar de observar, com um sentimento de admiração, humilhação e irritação, que temperava suas injúrias, seus insultos ou suas contradições com uma afetuosidade de modos que era decerto por demais inadequada e seguramente por demais indesejável. Esse comportamento singular eu só o podia conceber como derivando de uma rematada presunção dando-se ares vulgares de apoio condescendente e proteção."
(p. 31)

Onde encontrar William Wilson: Contos de Imaginação e Mistério



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