E então Einstein disse... (por Hpcharles)


Meus caros, se tem uma coisa ultrajante, que irrita até as pontas dos cabelos, é a desonestidade intelectual. Some-se a isso a burrice desmedida ou a ignorância irrefreável e temos o inferno. No entanto, ao que tudo indica, a preguiça de pensar e o pouco apreço pelo melhor contraditório, são tão frequentes quanto os vitupérios que normalmente acompanham tais comportamentos.
Não sei se a cultura do Google, que deveria facilitar a bagaça, por via oblíqua, contribuiu para piorar a malsinada fuzarca. O fato é que mesmo com respostas e conhecimento ao alcance de poucos cliques, as pessoas parecem ter ficado mais preguiçosas. E, a meu ver, a preguiça intelectual é a pior. Melhor um gordinho sagaz do que uma azêmola malhada.
Dito isso, é de bom alvitre ressaltar que o uso da palavra "FALÁCIA" é tão frequente quanto a sua utilização como artimanha em discussões ou debates, sejam elas em redes sociais ou nos meios acadêmicos. E a verdade é que isso faz pouca diferença. O raciocínio capenga é sempre nocivo, contraproducente.
Em que pese ouvirmos o termo com extrema assiduidade, me parece razoável afirmar que poucos se importam em verificar seu significado. Basta ficar apertado que a solução é gritar: “isso é uma falácia!”
Mas será que é?
Falácia é um argumento que carece de consistência lógica. Nem sempre é fácil reconhecê-la, mas tenha em mente que a conclusão de um argumento deve decorrer de suas premissas. Se assim não o for, tal argumento não deve orientar uma conclusão por invalidade, inconsistência, infundamentação ou simplesmente por não contribuir com o deslinde da questão. As falácias involuntárias, quase sempre oriundas de ignorância, são chamadas de “paralogismos”. As que visam enganar, persuadir, normalmente prolatadas por idiotas da pior espécie, vez que optam por “jogar sujo” ao dar o braço a torcer, declinando da oportunidade de aprender ou aprimorar o diálogo, são conhecidas como “sofismas”.
Muito ainda poderia ser dito sobre falácias, o que impenderia um texto bem mais extenso, minucioso e apropriado para o assunto. Não é o caso e nem o farei. Escrevi os parágrafos acima como ensejo para atacar 3 falácias específicas que encontramos com estupenda constância em nosso dia a dia, principalmente nas redes sociais. Resta dizer que muitas outras existem, mas abordarei as que mais me deixam puto. Disso não há dúvida. Nesse processo, tentarei ser o mais simples, primário e direto possível, visto que o blog abriga informalidade, não possuindo quaisquer viés acadêmico. Não é seu fito ou direção.
A primeira é a chamada “falácia do espantalho” ou do “homem de palha”. Essa é foda, meus amiguinhos. Quem sabe do que estou falando reconhece que, ao se deparar com uma no meio de uma discussão, a vontade é de dar um soco nas fuças, encerrando o certame precocemente. É ou não é? Mas não o façam porque ela não é tão difícil de se desconstituir. Calma.
A falácia do espantalho ocorre quando a refutação ou contraditório não atinge o argumento original, mas sim outro criado justamente para ser atacado em seu lugar, dando a impressão de coerência ou vitória. Ela distorce o real argumento para apresentar uma versão deficiente da ideia. É quando se investe contra o que “não foi dito”, ao invés do que foi dito. Vamos lá, quem é casado ou namora faz tempo entendeu exatamente a maldita.
Brincadeiras fora, o “homem de palha” é extremamente desagradável porque “altera ou coloca palavras que não foram ditas”, em boca alheia. E gente, isso é desagradável bagario. Meu conselho para quando isso se tornar frequente é abdicar do debate. Não há propósito nenhum em se insistir. Acreditem.
A segunda falácia que quero abordar é a chamada “red herring” ou Falácia da Diversão ou ainda, Ignoratio Elenchi. Igualmente fastidiosa, é uma falácia ainda mais fácil de ser percebida e destruída.
No caso da “red herring”, um ponto superveniente e desconexo ao debate original é trazido à baila a fim de desviar a atenção da discussão primária, para então, gerar conclusão distinta. Novamente...quem está em relação longa faz tempo, conhece bem. Sabe quando você está discutindo se o melhor seria comprar um produto ou outro e, depois de elencados os atributos de ambos - o que determinaria a melhor direção a se tomar - a lógica parece favorecer a SUA escolha? E sabe quando seguido a isso brota de forma repentina e violenta um “argumento” totalmente alienígena ao assunto? "- Você prefere esse só porque o fulaninho do seu trabalho tem um”. Duas palavras: Red Herring
Notem que a discussão foi retirada do produto e direcionada ao fato de que o desgraçado do fulaninho do trabalho tem um. É cristalino que o fato do fulaninho infeliz ter o mesmo produto não contribui para a valoração em comento. Não agrega qualidade ou defeito ao produto e, portanto não pode servir de argumento para a conclusão. É mero desvio do assunto. Coisa de quem está perdendo. Bom, a menos que seja esse mesmo exato produto que tenha determinado que a Angelina Jolie se apaixonasse pelo Brad Pitt. Aí é um puta argumento e um puta produto. Maldita geladeira!
Se faz mister lembrar que a Red Herring se distingue da falácia do Homem de Palha porque na última o argumento é deformado e, só então, atacado.
Por fim vamos abordar a famosa Falácia do Apelo à Autoridade, ou Magister Dixit. Igualmente nojenta e imbecil, tal falácia consiste em utilizar o apenas o nome, palavra ou credencial de alguma “autoridade” para validar o argumento. Em síntese apertada, é o caso do “é verdade, porque fulaninho que é pica das galáxias disse”, “é o correto porque sicrano tem doutorado no assunto”, “beltrano é professor em Oxford, logo ele está certo”. Ocorre muito também na primeira pessoa. "Eu estou correto, me graduei em Sorbonne, sou amigo do Neymar e esse ano vou ficar no camarote da Brahma". Mesmíssima merda. É a famosa "carteirada". Para ficar cristalino: é o argumento que deve sustentar a credencial e não o contrário.
Sendo assim, não é preciso ser brilhante para perceber que o que importa para uma boa conclusão é o argumento de quem possui o título, à revelia do título em si. Pelo motivo simples de que a "autoridade" pode possuir credenciais excepcionais e, ainda assim, estar flagrantemente equivocada. Acontece todos os dias. Super normal. Afinal, desde quando diploma garante razão?
Por favor, compreendam que, isso absolutamente não quer dizer que argumentos calcados na autoridade de especialistas em determinado assunto sejam necessariamente falácias. A falácia "in casu" consiste em utilizar a credibilidade de determinada pessoa como fator suficiente para se chegar a uma conclusão. Fácil de entender, não? Pelo que se tem visto na Internet...não.
E aí? O que "abunda"? Preguiça? A ignorância ou a desonestidade intelectual? Tudo junto? Desonestidade fundamentada em orgulho vagabundo, com uma pitada talvez, de invejinha juvenil de quem faz e consegue e outra de “pelasaquismo" inelutável? É provável que um pouco de cada coisa.
A verdade é que no exato instante em que abandonamos o ponto nodal do argumento, mirando desvios, apelando a embromações e enganos, perdemos o sentido da própria discussão em si. Melhor ir comer um brigadeiro, tomar uma breja e entregar a produção intelectual para quem de fato a almeja.
Então que tal, quando decidirmos por engatar qualquer tipo de conversa minimamente relevante, tentarmos nos ater ao que importa (premissas, argumentos, conclusão), deixando de lado a comezinha covardia e mesquinharia sentimental que acomete a abissal maioria dos seres humanos para assuntos mais propícios a ela. Saiu um BBB novo, assina aquela porra e pronto. Ninguém precisa saber.

Existem momentos em que é melhor silenciar a pena, embatucar a voz. É condão dos sábios escolherem com inteligência, como e quando se manifestarão. É esperto calar silente quando genuinamente não há nada relevante a se dizer, pois se minimiza a probabilidade do erro. É mérito ser gentil, sem ser condescendente, quando se renunciar ao sacrossanto silêncio.

“É melhor calar-se e deixar que as pessoas pensem que você é um idiota, do que falar e acabar com a dúvida”. E sabe como eu sei que isso está certo? Foi Einstein quem disse. Tá, eu sei que foi Lincoln, mas seu eu disser que foi Einstein, fica mais legal ainda. Ninguém contesta. Ou contesta?

2014/2015 – As metas e promessas (por Hpcharles)


Todo fim de ano é a mesma coisa, os blogs, vlogs e os comentários nas mais variadas redes sociais tendem a fazer uma análise das metas conquistadas(ou não), no ano que vai se encerrando, passando, para, logo em seguida, começar a descortinar as fatídicas promessas para o ano vindouro. Eu confesso que vejo e leio tudo aquilo com alguma credulidade, vez que sinto sinceridade e desejo de sucesso naquelas palavras e vídeos. Ao mesmo tempo, me deprimo um pouco. E não poderia ser diferente, pois tais desígnios apenas atestam minha incapacidade como ser humano e confirmam a minha inabilidade em me comprometer com projetos mais audaciosos do que melhorar meu temperamento.
Senão vejamos.
Eis alguns comentários consignando metas que li e ouvi, mais de uma vez, para meu absoluto assombro e inveja da pior estirpe...
“Esse ano serei feliz!”
Oh, really?! Por que diabos não pensei nisso antes? Sim, por que não direcionei todas as minhas forças para algo tão absolutamente cristalino a despeito de todos os anos já vividos? Bom, talvez porque A PORRA DA VIDA SEJA DIFÍCIL PRA CARALHO! E porque felicidade é uma questão de momento. Ela vem e ela vai. Simples assim.
“Esse ano comprarei menos”.
Ok, essa eu entendo. MAS O QUÊ?! Feijão? Cachaça? Camisetas (ao longo dos 10 últimos anos essa promessa não incluiu roupas. Lógico!) Gadgets que você NÃO PRECISA, mas quer?! Por favor, quando for tornar pública uma meta de vida tão arbitrária quanto previsão de cartomante, tente ser pelo menos um pouco mais específico. Isso é roubar nas metas. Não vale, ok?
“Esse ano vou emagrecer”.
Mesmíssima merda. Quanto? Acho razoável e justíssimo cobrar uma média, não é mesmo? Se forem duzentos gramas, cumpro logo hoje. Mas depois da sauna. Vamos parar com a apelação!
“Esse ano serei mais paciente, educado, gentil com familiares e nas redes sociais”.
Taí uma meta bacanuda! Eu me engajaria nessa junto com a galera. É claro que é preciso se considerar na equação os crentelhos, os gênios políticos do mundo virtual, os silvícolas e trolls que “abundam” nossa querida internet. É preciso lembrar também que um esforço espartano será necessário para deixarmos de lado - ou pelo menos diminuirmos - a mania vagabunda que temos de descontar todas as nossas frustrações cotidianas e bateções de pezinho oriundas de nossa infância mal resolvida, em nossos pais, esposas/maridos, namoradas/namorados, noivas/noivos, filhos, porteiro, filhos do porteiro ou no cara que demorou para acelerar quando o sinal abriu. Isso porque é mais fácil ser um bebezão supersensível do que tentar ser mais paciente e justo. Assumir responsabilidade é sempre mais complicado do que repartir a culpa.
“Esse ano lerei 257 livros, verei 4098 filmes (fora as séries) e beberei menos”.
Acredito na parte dos livros e filmes :)
Agora, afeto à realidade, como sempre sou...notem as MINHAS metas para 2014 e percebam porque posso ser cunhado de incompetente mas nunca de hipócrita. Botei o chapéu onde a mão alcança! E "mifu"! Não adiantou porra nenhuma, falhei miseravelmente.
1 – Jurei que não ia mais jogar o controle remoto da televisão na parede (ou qualquer outro objeto ao meu alcance), todas as vezes em que o Luiz Antônio ou o Muralha (pretensos jogadores do Flamengo, para quem vive em Marte ou então não fecha com o certo e não torce para o Mengão, papaizão, doutrinador de antis), errassem mais um passe de dois metros.
Lógico que não consegui. Mas é o Luiz Antônio e o Muralha. Se tivesse me comprometido com a paz entre Israel e a Palestina, teria mais chance de sucesso.
2 – Falaria menos palavrão. Lógico que não consegui, “a revanche”. Mas a culpa é toda do Luiz Antônio e do Muralha, aqueles pernetas filhos da puta do caralho!
3 – Treinaria escalas na guitarra pelo menos 4 vezes por semana, mas com o metrônomo. Cumpri pela metade. Metrônomo é chato bagaraio.
4 – Beberia menos. Precisa responder? “gulp...”
5 – Seria mais paciente com os meus, ao menos. Bom, já tinha me referido a isso. Acho uma meta possível e legal demais. Penso que consegui. Tendo em vista o huno que era, o visigodo que fui um dia, melhorei do vômito para o vinho. Escorrego, é um trabalho em construção, mas acredito realmente que melhorei.
Nota: Se o Luiz Antônio e o Muralha forem negociados ao fim desse ano, em 2015 tenho grandes chances de me tornar um monge budista. E pelo que dizem, deus é pai, não é padastro.
Agora tio HP vai passar uma lição de vida inestimável, que foi exatamente o que fez com que pessoas como Bill Gates sejam o que são. Prestem atenção! Todas as vezes em que você se impuser metas que exijam mais confiança de você, não se esforce mais. Simplesmente reduza suas metas e aceite sua insignificância.
Por isso mesmo reduzi minhas metas para 2015, de 5 para 3. Vamos a elas, porque aqui o bagulho é sério.
1 – Não vou mais jogar o controle remoto da televisão todas as vezes em que o Luiz Antônio ou o Muralha entrarem em campo.
Tô de sacanagem com vocês! Não vou cometer o mesmo erro duas vezes, não é mesmo? O que preciso é encontrar uma autorizada que venda controles a preço de custo. Serão duas metas para o ano que vem e olhe lá. Viu como sou bom no que proponho? Nem começou o ano e já matei uma meta.
2 – Lerei Finnegans Wake no original.
3 – Abaixarei a tampa do vaso.

Quanto à minha meta referente à leitura, 100% de vocês não poderia ligar menos e eu que me dane. Fui eu quem escolheu o livro, né? Então, foda-se. Agora...quanto a abaixar a tampa do vaso...
Bom, aí os sentimentos são difusos e me parece razoável que a questão de gênero seja inclusa na percepção de tamanha empreitada ao arrepio de qualquer sexismo alegado, mas injustificado.
As mulheres diriam:
“É sempre assim, os bons já estão comprometidos.”
“Se abaixar a tampa do vaso e ainda acertar a regência verbal, é um príncipe na terra. Simples assim”.
“Vou compartilhar esse texto com a porra do meu marido para ele aprender o que é uma meta de vida!”
“Podia até ser anão, tudo o que eu sempre quis foi um homem que abaixasse a tampa do vaso. Meu pai de santo pode confirmar”.
“Querido, o problema não é desejo, é mira. Mas boa sorte assim mesmo. Alguém tem que conseguir, pode ser você. Eu mesma não ligo pra isso. De verdade. Juro. É lenda urbana, um exagêro descabido, não muda nada na relação. Mas em todo o caso, sou loura, alta, olhos verdes, uso desodorante e meu telefone é o..........”
Os homens:
“Pulha! Isso é um maníaco, um tarado! Em um país mais sério estaria preso!"
“Qual é o endereço desse filho da puta?!”
“Hahahaha, esse lixo tá pensando que vai mudar a evolução em um ano? Só falta esse merda dizer que não vai deixar a toalha molhada em cima da cama. Bolsonaro 2018!"
“Cancelando a inscrição nesse blog agora, porque se minha mulher vir essa porra terei que prometer a mesma coisa que esse lunático. Eu não preciso disso na minha vida. Adeus!"
“É viado”.
Pois é gente, feliz Natal e um esplêndido 2015 para vocês. Espero do fundo coração, agora sem brincadeiras, que vocês conquistem o mundo no ano que chega. Que sejam mais humanos, mais participativos, que leiam mais livros interessantes, vejam mais filmes relevantes, que sejam MAIS FELIZES, SIM! Porque a felicidade está na procura e não no achado. Porque é na busca que ela se torna própria e genuína, mesmo que momentânea. E porque é melhor estar feliz do que não estar. Não choramos porque estamos tristes, estamos tristes porque choramos. Acredito nessa filosofia. E acredito que podemos vencer o mundo se a tarefa de vencê-lo for comungada, dividida, sem preconceitos ou exclusões. Essa é a única meta que realmente deveríamos perseguir. Todas as outras são secundárias porque viriam na esteira da primeira. A vida é curtíssima. Amem mais.
E obrigado por aturarem a gente durante esse ano.
Grande abç!
PS.: Luiz Antônio e Muralha estão excluídos do meu “posfácio”. Que se fodam esses ceguetas de merda que não acertam o gol nem por decreto. Tomara que as esposas dessas nulidades futebolísticas leiam esse texto e os mande treinar a mira no vaso. Aí eu quero ver, motherfuckers! Payback is a bitch!

Escotofobia (por Hpcharles)



Quem te disse que precisamos de máquina do tempo? De teletransporte? De pó de Pirlimpimpim? Basta cerrar seus olhos...

Quem te disse que Diadema fica longe de Paris? Que os limoeiros de sua “Rua dos Limoeiros” não são os mesmo da Rua Morgue?

Quem te enganou, afirmando que Poe não vive de verdade em sua estante bamba de sonhos e conhecimento? Pesada como as pálpebras das horas de leitura que abasteceram seus sonhos juvenis.

Sonhos onde fantasmas tropeçam em armadilhas de Doyle. Fantasias vitorianas, “séculodezoitoanistas”, vestidas de tule e cartola. Sonhos tranquilos, com cheiro de chuva, com gosto de fruta catada no pé, sonhos bilíngues.

Será que não vês Auguste Dupin cochichando com Fitzgerald, bem aos pés de tua cama? Só falta me dizer que não escutas Vivaldi assombrado pela eletricidade batendo nas cordas, em válvulas saturadas no limite, na margem...on “The Edge”?

Dorme, minha linda! Sonha com tuas distopias, transforme-as em utopias com um  gole de chá verde.

Embriague-se em devaneios de magos de chapéu pontiagudo, unicórnios e varinhas de condão. Mande um “alô” para Fournier. Um beijo para Anne Rice. Uma reverência para Saramago em sua sabedoria de Algarve.

Agora, o escuro que te assusta, é seu melhor companheiro. Tua escotofobia te redime, te resgata. Embala suas canções prediletas, seus heróis invencíveis, seu coração de menina.

Nesse mesmo breu, com ermo debelado por interruptores fluorescentes, agora correm, sem direção, elfos, cineastas com estima de recamier e homens de caneta de pena; parnasianos, ébrios, românticos, tuberculosos...mas VIVOS!

Na mesma medida em que seu sono de década de 50 homenageia Alice e Peter Pan, no auge de seu Rapid Eye Movement, Stipe balbucia em seu ouvido de edredom: you`re The One I Love...

Sonha remansosa, doce garota. Sonha com cremes que restauram a pele e o espírito, com unguentos curativos de dores na alma, com perfumes com bouquet de eucalipto, oriundo de florestas coalhadas de gnomos e fadas

Anuncie para todos as boas novas prestidigitadas, como arautos com megafones de cartolina, os arcanos guiados pela cartomância de tarot, irmanados com feiticeiros de turbante, mágicos com serrotes que não cortam e ilusionistas de cartas na algibeira.

Quem te disse que isso não acontece enquanto dormes? Quem mentiste para ti? Não existe limite para literatura, não existe baú que contenha a imaginação, cadeado que resista a arte e seus corolários de revolução, não existe isso...só aquilo...

Mas nessa estrada de sinais paradoxais, de “passarinho me contou”, não esqueça sua lancheira, caso tenhas fome. Guarneça a bolsa trançada de couro com pão de ló, queijo e cogumelos. Leve “erva de fumo” caso passe no “Condado”. Escale as muralhas de Isengard, acene para Tolkien (por mim) e lhe diga que é um gênio.

Pela manhã, quando a ilusão começar e a férrea Linha Azul te conduzir para um mundo onde gente sem esperança, preconceito, fome e pobreza surgirem homeopaticamente, como vilões de um conto de Stephen King e onde seres humanos, por sua condição, não são sequer notados em suas “capas de invisibilidade” construídas pela desigualdade; lhes dê um sorriso e diga: “é tudo ilusão”.

Siga então seu caminho onde possa dividir seus maneirismos anglicistas, seus comprimidos de “TAIIIILENOL”, seu “cup of tea”, atingindo sempre “the heart of the matter”, influenciando corações e mentes. Essa é a sua maldição abençoada.

Que Thor, Kardec, Apolo, Osíris e Jeová te acompanhem em seu percurso. De olhos abertos, no inverso do inverso, eles são verossímeis, bondosos, participativos, sorriem para ti e para a humanidade desconsolada, humilhada, carente de afeto e afagos.

Quanto a mim, agradeço por me permitir participar, de mãos dadas contigo, da grande viagem que é a tua vida. Fértil, alva, comungada, com viço de roseira.

Obrigado pelo sorriso ditoso, pela nova jornada. Entramos no trem por nossas próprias forças, mas é preciso que alguém nos dê o ticket.

Obrigado pelas conversas sem limites, desposadas das críticas de maturidade de asilo, da velhice coxa e prematura. Obrigado pelo sexo tímido, pela confiança inconsútil, pelo caráter de Távola Redonda.

Saiba que, mesmo em seu lindo mundo de fadas, de atrizes de cinema e caminhos de estrelas, você é o porto seguro que pedi. Esposa de mãos de pianista, coração onírico, verdadeira princesa em um mundo repleto de mulheres...
                            

As Caixas de Nossas Vidas (por Hpcharles)



Olho para um canto de meu quarto e nele há uma caixa. Nela nada há de materialmente significativo. Alguns cd's, roupas usadas, itens de higiene pessoal, fotografias que hoje fazem pouco sentido. No entanto, ela me incomoda. Preciso tirá-la de minhas vistas. Por que?

Existe outro conteúdo dentro dela. Só que é intangível, invisível fora de minha cabeça. Com esse é mais difícil de lidar. Ele é altamente representativo, pessoal. Traduz lembranças, sentimentos difusos. Sei que preciso compreendê-los ao invés de evitá-los. Uma cansativa sensação de fracasso dá um peteleco em meu peito. Me levanto e então prossigo.

Uma questão precisa ser relevada nesse processo. Ela é biológica, mas também é filosófica. O ser humano é o único animal que possui consciência de sua mortalidade. E isso tem um preço caro. Todo conhecimento tem um custo. Talvez venha daí sua dificuldade de lidar com perdas. Sua dificuldade paradoxal de buscar o precípuo para seguir em frente. Encerramento.

E essa é a sua maior tarefa ao longo de sua vida. Talvez a única. Lidar com suas perdas. As vitórias todos tiram de letra. A promoção no emprego, o carro novo, aquele beijo que há muito que se queria dar e finalmente aconteceu, o gol do campeonato aos 45 do segundo tempo. Tudo isso desce “redondo”. É fácil, remansoso. Não é preciso preparo, transpiração. Por vezes nem sequer saboreamos. Mas deveríamos.

Já com as perdas a história é diferente. A morte de um familiar, a demissão inesperada, o enterro de uma relação. Isso é foda. Com PH e vidro moído. Mas esse é um trabalho que precisa ser feito. Sem esse luto não seguimos em frente. É preciso vivê-lo. Só que ele é amargo, o gosto é de fel.

Certa vez uma grande psicanalista me disse: “mais de 90% das pessoas que sentam em meu divã, o fazem por um mesmo motivo. Culpa.”

Culpa porque não fizemos melhor, porque “deveríamos” ter feito melhor. Onde está a minha máquina do tempo? Nos cobramos incessantemente pelo que poderíamos ter feito, em uma atitude que não passa de mera masturbação intelectual. Não podemos mudar o passado. Mas podemos tentar entender nossas atitudes, repartir a culpa, aceitar nossa falibilidade primata e então partir para outra.

Me dispo para o banho e ao olhar no espelho, reparo em meu corpo nu e percebo rugas, pequenas cicatrizes e imperfeições. Porque não as teria também na “alma”? Não pertencem ao mesmo ser? Só não são vistas. Até conseguimos disfarçá-las para os outros, mas não para nós mesmos. Ainda não criaram tal maquiagem. A solução é abraçar o espólio, conviver com ele.

Aliás, não concordo muito com a palavra “superação”. Parece coisa de comercial de livro de auto-ajuda. Me parece que convívio, é o vernáculo pertinente, “in casu”. Fico abismado quando leio que tal “celebridade” terminou com o “amor de sua vida” ONTEM e hoje declara que hoje são “bons amigos”. Quem são esses super-heróis? Ainda tenho que lidar com o término de minha primeira namorada, quando tinha 15 anos. A questão é que o tempo embalsama a dor. Serve de unguento. Melhora tudo. Mas dá uma chafurdada para você ver?

A água corre em meus cabelos e, em um arroubo pragmático, decido que ao sair do banho vou esvaziar aquela caixa e pronto. É pá de cal. Um alívio passa correndo pelo chão do banheiro, mas entra no ralo. Falar é fácil.

Invento desculpas e xingo Klüber-Ross. Preciso da caixa para colocar as tranqueiras, é isso. Juro que hoje à noite quando eu voltar do trabalho eu limpo aquela maldita. Estou na fase da “barganha”. Mi-mi-mi puro.

Enquanto me enxugo, tomo coragem e resolvo parar de evitar o inevitável. Por minutos, apenas olho para seu conteúdo. Não ouso por minhas mãos lá dentro. Titubeio. A tentação de empurrar o papelão para baixo de um móvel qualquer é grande. Penso com meus botões: “mas para quê mexer nisso? Deixa quieto oras! Não está atrapalhando a passagem”. Mas está...

Fazemos tudo para evitar a dor. E esse é o maior problema. Empurramos para baixo do tapete. Fingimos que não vemos. Juramos que nós vamos mudar, os outros nos juram que vão mudar. A dieta começa na segunda. E as caixas vão se acumulando embaixo do armário. Será que ainda tem espaço?

Decido por derradeiro que o “couro vai comer” e compulsivamente retiro os objetos, separando os que podem ser úteis daqueles que já deixaram de ser úteis faz muito tempo. Mas se já não eram úteis, porque não foram jogados fora antes?

Porra de retentividade mórbida! Me dou conta então de que certas coisas já estavam mortas faz tempo e era eu que insistia em guardá-las. Depois era só colocar a responsabilidade nos ombros do outro, né? “Mea culpa, mea máxima culpa”.

Aquele alívio que passou correndo no banheiro, agora estava ali do meu lado, olhando para mim. A tensão diminui. O ritmo e a facilidade da tarefa aumentam, causando surpresa inclusive a mim.

Tirei a rejeição, a baixa-estima já saiu, a raiva pulou para fora com a foto do aniversário na casa dos amigos. Dou uma risada quando lembro que odiei aquele dia. Quando me recordo que não queria sequer estar lá. Porque fiz tanta tempestade para limpar essa caixinha? Porque diabos na hora da tristeza, só lembramos das coisas boas e não daquelas que nos trouxeram até aquela situação, em primeiro lugar? Agora vejo com clareza meridiana que tanta coisa já havia perecido e a única coisa que fazia a caixa ser importante era a caixa em si, e não seu conteúdo. Acreditei que ali dentro houvesse um leão, mas jazia um criceto.

Um sorriso de vitória reside em meu rosto agora. Claro que tenho que me cobrar por não ter feito isso antes. “Olá culpa filha da puta, como vai?”. Tudo tem seu tempo. Mas também não devemos esquecer que somos nós que fazemos nosso tempo. Que a vida é ação.

De fato, não limpava a caixa porque não vislumbrava os motivos corretos para fazê-lo. Precisava limpar a caixa não para jogar tudo fora. São só objetos, não significam nada de verdade. Precisava limpar a caixa porque precisava da própria caixa, não do que estava dentro.

Precisava da caixa para disponibilizar o espaço. Para poder enchê-la de coisas novas. Não tinha percebido que a caixa é a mesma de sempre. O que colocamos dentro dela é que muda. Como colocar novas fotos, novos empregos, novas roupas, novos amores, se ela ainda está repleta de objetos velhos? Se não há espaço?

Lembro do brilhantismo de Newton e dou uma gargalhada quando penso na possibilidade do cientista ter descoberto que, “dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço”, tenha ocorrido ao tentar arrumar o baú da esposa.

Minha pasta com material de trabalho fica incrivelmente leve. Me visto com alegria e roupas coloridas, despojadas. Ajeito o cabelo e pego as chaves do carro. Mas paro um instante e olho para o mesmo canto do quarto, onde se encontra a mesma caixa.

Dessa vez ela não me assusta, pelo contrário. Ela está vazia. É convidativa, atraente. Mal posso esperar para saber o que vou colocar nela. O que estará reservado para aquele espaço. Quais sabores, odores, quais viagens? Qual a cor do cabelo, gosto musical, que filmes entrarão ali? Não importa. O que importa por enquanto é que ela está disponível. Já estava faz muito tempo. Eu é que não via.

Recebo um e-mail no telefone. Um amigo me chamando para seu aniversário. Um novo aniversário. Aceito. Bato a porta. Encerro o assunto. 

E a caixa finalmente é fechada.

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