CONTO #20: O Pirotécnico Zacarias (Murilo Rubião)


          Publicado pela primeira vez em 1974, O pirotécnico Zacarias é um conto difícil de se classificar: fantástico? De mistério? Estranho? A saber: O autor aqui nos conta a história de um morto-vivo. Em primeira pessoa. Sim, o narrador morreu, e é ele quem nos conta suas mazelas. 
           Logo no início, o narrador nos conta sobre a estranheza que sua "morte" (ou não) anda causando aos seus conhecidos, visto que alguns ainda acham que ele está vivo (uma vez que "o morto tinha apenas alguma semelhança comigo", diz o narrador); ora, se esse que anda e fala é parecido com o suposto morto, logo, ele não morreu.
            Mas, ele morreu. É verdade. E a gente até sabe como aconteceu. No meio da noite, foi atropelado por um carro dirigido por um jovem que levava seus amigos para a farra. Enquanto eles confabulam o que fazer com o morto (jogá-lo de um precipício? levá-lo para um cemitério?), o morto resolve participar dessa decisão, claro. Como não? Um dos jovens desmaia, e os outros resolvem emprestar as roupas dele para o morto, e levá-lo, também à farra.
              E é assim que essa história se desenrola; o morto fazendo amizade com quem o matou (?), indo para a farra, e vivendo sua vida sem que os outros saibam que ele morreu (?).
               Bizarro define. Mas é divertidíssimo.

               Aproveito para agradecer novamente à Gléssia pelo livro!  \o/

"Discutiram em seguida outras soluções e, por fim, consideraram que me lançar ao precipício,
um fundo precipício, que margeava a estrada, limpar o chão manchado de sangue,
lavar cuidadosamente o carro, quando chegassem a casa, seria o alvitre mais adequado
ao caso e o que melhor conviria a possíveis complicações com a polícia, sempre ávida de achar
mistério onde nada existe de misterioso.

Mas aquele seria um dos poucos desfechos que não me interessavam. Ficar jogado
em um buraco, no meio de pedras e ervas, tornava-se para mim uma ideia insuportável. E ainda:
o meu corpo poderia, ao rolar pelo barranco abaixo, ficar escondido entre a vegetação,
terra e pedregulho. Se tal acontecesse, jamais seria descoberto no seu improvisado túmulo
e o meu nome não ocuparia as manchetes dos jornais."
(p. 17)

Onde encontrar O Pirotécnico Zacarias: Obra completa, Murilo Rubião


PS: esse conto vai além do seu plot; há de se prestar atenção, por exemplo, ao fato de o morto-vivo ser um pirotécnico; a questão da explosão de cores no momento de sua "passagem"; a cor branca sendo mencionada em diversos momentos no conto, e por aí vai.



NOVELA #1: O negro de Pedro, o Grande (Aleksandr Púchkin)



          A diferença entre "conto" e "novela" às vezes é tênue (e a confusão é frequente): há de se prestar atenção à forma do texto, ao tamanho (se é curto, é conto; se é longo, é romance; se não é longo, nem curto, é novela), ao desenvolvimento das personagens, ao efeito no leitor, etc, etc...
          Publicado em 1837, O negro de Pedro, o Grande (Arap Petra Velikogo) é o que se pode chamar de novela inacabada; aparentemente, a intenção do autor era a de escrever uma novela sobre seu trisavô que foi comprado de um sultão, dado de presente ao czar, e tornara-se o seu preferido. Bem educado na França, militar bem sucedido (participou da Guerra de Sucessão Espanhola), querido pela maioria (a não ser por aqueles que consideravam "estranho", digamos assim, receber um negro, mesmo sendo o preferido do czar, em seus soirées), acaba se envolvendo romanticamente com uma duquesa, com quem tem um filho; volta para a Rússia, atendendo ao chamado de Pedro, o que acaba sendo conveniente, pois é necessário evitar escândalos. E por aí vai a novela, até o encerramento abrupto, que deixa o leitor indignado por não mais nada para se ler da história... 

"O aparecimento de Ibraim, a sua boa apresentação, a cultura e inteligência inata despertaram em Paris a atenção geral. Todas as senhoras queriam ver em sua casa Le nègre do tzar e disputavam-no furiosamente. O regente convidava-o muitas vezes para as suas alegres noitadas: ele tomava parte em jantares animados pela mocidade de Arouet (Voltaire) e pela velhice de Chaulieu, pela prosa de Montesquieu e Fontenelle; não perdia um baile, uma festa, uma estreia, e entregava-se ao turbilhão geral com todo o ardor da sua idade e da sua raça."
(p.21)

"A doce atenção das mulheres, que é quase o único fito dos nossos esforços, não somente não lhe alegrava o coração, mas fazia-o até vibrar de indignação e amargura. Sentia que era para elas uma espécie de bicho raro, uma criatura diferente, estranha ao mundo, para o qual fora transportada casualmente e com o qual nada tinha em comum."
(p.22)

"(...) confesso que as assembleias não são igualmente do meu agrado: a qualquer momento, pode-se tropeçar em um bêbado, ou ainda ser embriagado para divertimento de todos. É preciso tomar muito cuidado para que um peralta não faça qualquer travessura com a nossa filha; e a mocidade de hoje em dia está muito mimada, é um verdadeiro despropósito."
(p.44)

"De todos os jovens educados no estrangeiro (que Deus me perdoe!), o negro do czar é quem tem mais jeito de gente."
(p.45)



Onde encontrar O negro de Pedro, o Grande: A dama de espadas - Prosa e Poemas


CONTO #19: Linda, uma história horrível (Caio Fernando Abreu)


          Publicado em 1988 e parte integrante do livro "Os dragões não conhecem o paraíso", Linda, uma história horrível conta a história desse filho, que já não via a mãe há anos, indo visitá-la sem aviso (a mãe não tem telefone, eis a desculpa). 
          O conto que já traz em sua epígrafe um trecho de Só as mães são felizes, de Cazuza (Você nunca ouviu falar em maldição, nunca viu um milagre, nunca chorou sozinha num banheiro público, nem nunca quis ver a face de Deus.), transmite um desconforto terrível, a ponto de fazer o leitor desejar terminar logo a leitura para acabar logo com aquilo. Mas não me entenda mal: é um excelente conto. O desconforto se dá quando percebemos que a mãe não está exatamente feliz em rever o filho (preferia que ele tivesse avisado antes), e o filho que está ali por precisar de seu porto seguro, se vê de tal forma desconcertado, que já quer ir embora dali depois de cinco minutos; a partir daí é ladeira abaixo até que as coisas comecem a entrar nos eixos. Mas até lá, o leitor sofre com a incapacidade do filho de desabafar com essa mãe, que não entenderia sua homossexualidade, que não entenderia o problema maior que o levou a buscá-la (AIDS - em que grau de avanço da doença as manchas tomam conta do corpo do acometido? Não sei, mas é nesse pé em que o filho está.).
             E Linda?
         Linda é a cadela de estimação da mãe. Tão envelhecida e decaída quanto sua dona (e seu filho?), traz no corpo manchas de um misto de senilidade e sarna; e é quando essas manchas são notadas pelo filho que o autor puxa o nosso tapete e caímos ao chão em posição fetal chorando convulsivamente.
             A falta de comunicação, o choque de gerações, a incompreensão e o isolamento para evitar a fadiga são temas desse conto.

"Tu não avisou que vinha - ela resmungou no seu velho jeito azedo, que antigamente ele
não compreendera. Mas agora, tantos anos depois, aprendera a traduzir como
que-saudade, seja-bem-vindo, que-bom-ver-você ou qualquer coisa assim. Mais carinhosa, embora inábil."
(p.10)

"De repente, então, enquanto nem ele nem ela diziam nada, quis fugir.
Como se volta uma fita num videocassete, de costas, apanhar a mala, atravessar a sala, o corredor de entrada, ultrapassar o caminho de pedras do jardim, sair novamente para a ruazinha de casas quase todas brancas. 
Até algum táxi, o aeroporto, para outra cidade, longe de Passo de Guanxuma, até a outra vida de onde vinha. 
Anônima, sem laços nem passado. 
Para sempre, para nunca mais. 
Até a morte de qualquer um dos dois, teve medo. 
E desejou.
Alívio, vergonha."
(p. 12)





       

CONTO #18: Êxtase (Katherine Mansfield)

       
          
          Publicado pela primeira vez em 1918, Êxtase (Bliss) conta a história de Bertha Young, essa mulher estranhamente feliz
            Tudo vai bem na vida de Bertha. Trinta anos de idade (considerada por muitos como o início da derrocada na vida das mulheres - note bem o início do conto: "Embora tivesse trinta anos, Bertha Young ainda passava por momentos como aquele..." [momento, esse, de alegria inexplicável, veja bem]). Bem casada. Mãe de uma bebê linda e fofa. Vida boa, sem grandes preocupações, a não ser a presença constante de uma babá que às vezes passa dos limites, e de quem tem um certo ciúme com relação à bebê. Amigos influentes.
       Naquela noite, Bertha e a família recebem amigos para o jantar. Dentre eles, uma amiga diferente, que ela adora e que o marido achincalha em comentários para a esposa. 
          E o que parece um conto sobre a vidinha boa da classe média, vai tomando a forma de uma história de infidelidade; na sua cara; bem debaixo do seu nariz; com todas as dicas sendo jogadas, assim, no seu colo. E só você não vê. Tudo isso de forma elegante e comedida.
         Ao ler o conto, bote reparo no simbolismo, principalmente envolvendo a lua e a pereira no jardim. Fica a dica.

"O que fazer se você tem trinta anos e, ao dobrar a esquina da própria rua, de repente
é tomada por uma sensação de êxtase, êxtase absoluto! - como se tivesse engolido um pedaço
luminoso daquele sol da tarde e que ardesse em seu peito, irradiando uma chuvinha de centelhas em cada partícula, até cada uma das pontas dos dedos...?"
(p. 11)

"Como isso era absurdo. Por que, então, ter um bebê se ele deve ser mantido - não em um estojo como um violino raro, raríssimo - e sim no colo de outra mulher?"
(p. 14)

"Harry tinha tanto gosto pela vida. Ah, como ela apreciava isso nele. E sua paixão
pela luta - por encarar tudo que surgia contra si como mais um teste de poder e coragem - , isso ela também entendia. Mesmo quando ocasionalmente podia lhe fazer parecer um pouco ridículo àqueles que não o conheciam bem... Mas havia momentos nos quais ele se atirava numa batalha onde
não havia batalha... "
(p. 19)

"Não, eles não tinham a mesma sensação. Eles eram uns queridos - queridos -, e ela adorava tê-los
ali, à sua mesa, e oferecer comida e vinhos deliciosos. Para dizer a verdade, desejava
lhes dizer como eram encantadores, e que grupo decorativo compunham,
como pareciam estimular uns aos outros e como lhe faziam lembrar
uma peça de Tchekhov!"
(p. 21)

          Depois da leitura desse conto, fiquei com a impressão de que Clarice Lispector não só lia Katherine Mansfield, como a copiava fortemente. 

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