Escotofobia (por Hpcharles)



Quem te disse que precisamos de máquina do tempo? De teletransporte? De pó de Pirlimpimpim? Basta cerrar seus olhos...

Quem te disse que Diadema fica longe de Paris? Que os limoeiros de sua “Rua dos Limoeiros” não são os mesmo da Rua Morgue?

Quem te enganou, afirmando que Poe não vive de verdade em sua estante bamba de sonhos e conhecimento? Pesada como as pálpebras das horas de leitura, que abasteceram seus sonhos juvenis.

Sonhos onde fantasmas tropeçam em armadilhas de Doyle. Fantasias vitorianas, “séculodezoitoanistas”, vestidos de tule e cartola. Sonhos tranquilos, com cheiro de chuva, com gosto de fruta catada no pé, sonhos bilíngues.

Será que não vês Auguste Dupin cochichando com Fitzgerald, bem aos pés de tua cama? Só falta me dizer que não escutas Vivaldi assombrado pela eletricidade batendo nas cordas, em válvulas saturadas no limite, na margem...on “The Edge”?

Dorme, minha linda! Sonha com tuas distopias, transforme-as em utopias com um  gole de chá verde.

Embriague-se em devaneios de magos de chapéu pontiagudo, unicórnios e varinhas de condão. Mande um “alô” para Fournier. Um beijo para Anne Rice. Uma reverência para Saramago em sua sabedoria de Algarve.

Agora, o escuro que te assusta, é seu melhor companheiro. Tua escotofobia te redime, te resgata. Embala suas canções prediletas, seus heróis invencíveis, seu coração de menina.

Nesse mesmo breu, com ermo debelado por interruptores fluorescentes, agora correm, sem direção, elfos, cineastas com estima de recamier e homens de caneta de pena; parnasianos, ébrios, românticos, tuberculosos...mas VIVOS!

Na mesma medida em que seu sono de década de 50 homenageia Alice e Peter Pan, no auge de seu Rapid Eye Movement, Stipe balbucia em seu ouvido de edredom: you`re The One I Love...

Sonha remansosa doce garota, com cremes que restauram a pele e o espírito, com unguentos curativos de dores na alma, com perfumes com bouquet de eucalipto, oriundo de florestas coalhadas de gnomos e fadas

Anuncie para todos as boas novas prestidigitadas, como arautos com megafones de cartolina, os arcanos guiados pela cartomância de tarot, irmanados com feiticeiros de turbante, mágicos com serrotes que não cortam e ilusionistas de cartas na algibeira.

Quem te disse que isso não acontece enquanto dormes? Quem mentiste para ti? Não existe limite para literatura, não existe baú que contenha a imaginação, cadeado que resista a arte e seus corolários de revolução, não existe isso...só aquilo...

Mas nessa estrada de sinais paradoxais, de “passarinho me contou”, não esqueça sua lancheira, caso tenhas fome. Guarneça a bolsa trançada de couro com pão de ló, queijo e cogumelos. Leve “erva de fumo” caso passe no “Condado”. Escale as muralhas de Isengard, acene para Tolkien (por mim) e lhe diga que é um gênio.

Pela manhã, quando a ilusão começar e a férrea Linha Azul te conduzir para um mundo onde gente sem esperança, preconceito, fome e pobreza surgirem homeopaticamente, como vilões de um conto de Stephen King e onde seres humanos, por sua condição, não são sequer notados em suas “capas de invisibilidade” construídas pela desigualdade; lhes dê um sorriso e diga: “é tudo ilusão”.

Siga então seu caminho onde possa dividir seus maneirismos anglicistas, seus comprimidos de “TAIIIILENOL”, seu “cup of tea”, atingindo sempre “the heart of the matter”, influenciando corações e mentes. Essa é a sua maldição abençoada.

Que Thor, Kardec, Apolo, Osíris e Jeová te acompanhem em seu percurso. De olhos abertos, no inverso do inverso, eles são verossímeis, bondosos, participativos, sorriem para ti e para a humanidade desconsolada, humilhada, carente de afeto e afagos.

Quanto a mim, agradeço por me permitir participar, de mãos dadas contigo, da grande viagem que é a tua vida. Fértil, alva, comungada, com viço de roseira.

Obrigado pelo sorriso ditoso, pela nova jornada. Entramos no trem por nossas próprias forças, mas é preciso que alguém nos dê o ticket.

Obrigado pelas conversas sem limites, desposadas das críticas de maturidade de asilo, da velhice coxa e prematura. Obrigado pelo sexo tímido, pela confiança inconsútil, pelo caráter de Távola Redonda.

Saiba que, mesmo em seu lindo mundo de fadas, de atrizes de cinema e caminhos de estrelas, você é o porto seguro que pedi. Esposa de mãos de pianista, coração onírico, verdadeira princesa em um mundo repleto de mulheres...
                            

As Caixas de Nossas Vidas (por Hpcharles)



Olho para um canto de meu quarto e nele há uma caixa. Nela nada há de materialmente significativo. Alguns cd's, roupas usadas, itens de higiene pessoal, fotografias que hoje fazem pouco sentido. No entanto, ela me incomoda. Preciso tirá-la de minhas vistas. Por que?

Existe outro conteúdo dentro dela. Só que é intangível, invisível fora de minha cabeça. Com esse é mais difícil de lidar. Ele é altamente representativo, pessoal. Traduz lembranças, sentimentos difusos. Sei que preciso compreendê-los ao invés de evitá-los. Uma cansativa sensação de fracasso dá um peteleco em meu peito. Me levanto e então prossigo.

Uma questão precisa ser relevada nesse processo. Ela é biológica, mas também é filosófica. O ser humano é o único animal que possui consciência de sua mortalidade. E isso tem um preço caro. Todo conhecimento tem um custo. Talvez venha daí sua dificuldade de lidar com perdas. Sua dificuldade paradoxal de buscar o precípuo para seguir em frente. Encerramento.

E essa é a sua maior tarefa ao longo de sua vida. Talvez a única. Lidar com suas perdas. As vitórias todos tiram de letra. A promoção no emprego, o carro novo, aquele beijo que há muito que se queria dar e finalmente aconteceu, o gol do campeonato aos 45 do segundo tempo. Tudo isso desce “redondo”. É fácil, remansoso. Não é preciso preparo, transpiração. Por vezes nem sequer saboreamos. Mas deveríamos.

Já com as perdas a história é diferente. A morte de um familiar, a demissão inesperada, o enterro de uma relação. Isso é foda. Com PH e vidro moído. Mas esse é um trabalho que precisa ser feito. Sem esse luto não seguimos em frente. É preciso vivê-lo. Só que ele é amargo, o gosto é de fel.

Certa vez uma grande psicanalista me disse: “mais de 90% das pessoas que sentam em meu divã, o fazem por um mesmo motivo. Culpa.”

Culpa porque não fizemos melhor, porque “deveríamos” ter feito melhor. Onde está a minha máquina do tempo? Nos cobramos incessantemente pelo que poderíamos ter feito, em uma atitude que não passa de mera masturbação intelectual. Não podemos mudar o passado. Mas podemos tentar entender nossas atitudes, repartir a culpa, aceitar nossa falibilidade primata e então partir para outra.

Me dispo para o banho e ao olhar no espelho, reparo em meu corpo nu e percebo rugas, pequenas cicatrizes e imperfeições. Porque não as teria também na “alma”? Não pertencem ao mesmo ser? Só não são vistas. Até conseguimos disfarçá-las para os outros, mas não para nós mesmos. Ainda não criaram tal maquiagem. A solução é abraçar o espólio, conviver com ele.

Aliás, não concordo muito com a palavra “superação”. Parece coisa de comercial de livro de auto-ajuda. Me parece que convívio, é o vernáculo pertinente, “in casu”. Fico abismado quando leio que tal “celebridade” terminou com o “amor de sua vida” ONTEM e hoje declara que hoje são “bons amigos”. Quem são esses super-heróis? Ainda tenho que lidar com o término de minha primeira namorada, quando tinha 15 anos. A questão é que o tempo embalsama a dor. Serve de unguento. Melhora tudo. Mas dá uma chafurdada para você ver?

A água corre em meus cabelos e, em um arroubo pragmático, decido que ao sair do banho vou esvaziar aquela caixa e pronto. É pá de cal. Um alívio passa correndo pelo chão do banheiro, mas entra no ralo. Falar é fácil.

Invento desculpas e xingo Klüber-Ross. Preciso da caixa para colocar as tranqueiras, é isso. Juro que hoje à noite quando eu voltar do trabalho eu limpo aquela maldita. Estou na fase da “barganha”. Mi-mi-mi puro.

Enquanto me enxugo, tomo coragem e resolvo parar de evitar o inevitável. Por minutos, apenas olho para seu conteúdo. Não ouso por minhas mãos lá dentro. Titubeio. A tentação de empurrar o papelão para baixo de um móvel qualquer é grande. Penso com meus botões: “mas para quê mexer nisso? Deixa quieto oras! Não está atrapalhando a passagem”. Mas está...

Fazemos tudo para evitar a dor. E esse é o maior problema. Empurramos para baixo do tapete. Fingimos que não vemos. Juramos que nós vamos mudar, os outros nos juram que vão mudar. A dieta começa na segunda. E as caixas vão se acumulando embaixo do armário. Será que ainda tem espaço?

Decido por derradeiro que o “couro vai comer” e compulsivamente retiro os objetos, separando os que podem ser úteis daqueles que já deixaram de ser úteis faz muito tempo. Mas se já não eram úteis, porque não foram jogados fora antes?

Porra de retentividade mórbida! Me dou conta então de que certas coisas já estavam mortas faz tempo e era eu que insistia em guardá-las. Depois era só colocar a responsabilidade nos ombros do outro, né? “Mea culpa, mea máxima culpa”.

Aquele alívio que passou correndo no banheiro, agora estava ali do meu lado, olhando para mim. A tensão diminui. O ritmo e a facilidade da tarefa aumentam, causando surpresa inclusive a mim.

Tirei a rejeição, a baixa-estima já saiu, a raiva pulou para fora com a foto do aniversário na casa dos amigos. Dou uma risada quando lembro que odiei aquele dia. Quando me recordo que não queria sequer estar lá. Porque fiz tanta tempestade para limpar essa caixinha? Porque diabos na hora da tristeza, só lembramos das coisas boas e não daquelas que nos trouxeram até aquela situação, em primeiro lugar? Agora vejo com clareza meridiana que tanta coisa já havia perecido e a única coisa que fazia a caixa ser importante era a caixa em si, e não seu conteúdo. Acreditei que ali dentro houvesse um leão, mas jazia um criceto.

Um sorriso de vitória reside em meu rosto agora. Claro que tenho que me cobrar por não ter feito isso antes. “Olá culpa filha da puta, como vai?”. Tudo tem seu tempo. Mas também não devemos esquecer que somos nós que fazemos nosso tempo. Que a vida é ação.

De fato, não limpava a caixa porque não vislumbrava os motivos corretos para fazê-lo. Precisava limpar a caixa não para jogar tudo fora. São só objetos, não significam nada de verdade. Precisava limpar a caixa porque precisava da própria caixa, não do que estava dentro.

Precisava da caixa para disponibilizar o espaço. Para poder enchê-la de coisas novas. Não tinha percebido que a caixa é a mesma de sempre. O que colocamos dentro dela é que muda. Como colocar novas fotos, novos empregos, novas roupas, novos amores, se ela ainda está repleta de objetos velhos? Se não há espaço?

Lembro do brilhantismo de Newton e dou uma gargalhada quando penso na possibilidade do cientista ter descoberto que, “dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço”, tenha ocorrido ao tentar arrumar o baú da esposa.

Minha pasta com material de trabalho fica incrivelmente leve. Me visto com alegria e roupas coloridas, despojadas. Ajeito o cabelo e pego as chaves do carro. Mas paro um instante e olho para o mesmo canto do quarto, onde se encontra a mesma caixa.

Dessa vez ela não me assusta, pelo contrário. Ela está vazia. É convidativa, atraente. Mal posso esperar para saber o que vou colocar nela. O que estará reservado para aquele espaço. Quais sabores, odores, quais viagens? Qual a cor do cabelo, gosto musical, que filmes entrarão ali? Não importa. O que importa por enquanto é que ela está disponível. Já estava faz muito tempo. Eu é que não via.

Recebo um e-mail no telefone. Um amigo me chamando para seu aniversário. Um novo aniversário. Aceito. Bato a porta. Encerro o assunto. 

E a caixa finalmente é fechada.

Manhã de Natal (por Hpcharles)




Desperto com o cheiro de meu próprio vômito.

O lençol ordinário, que não troco faz semanas, está banhado em suor. O odor é acre, pútrido. Olho para a mesinha de cabeceira ao lado da cama e noto que sobraram alguns dedos de whisky na garrafa destampada. Por um milésimo de segundo acredito na vida e levo o gargalo até a boca, sorvendo o que restou do veneno. Não fora o suficiente.
Lógico.
Abro a cortina, a luz me cega. Do outro lado da rua, deitado na calçada, noto um mendigo abodegado. Já está desperto, olhando para o nada. Sem esperar nada. Sem acreditar em nada. Sujo, infame, sem filosofias a não ser a de roer os ossos que lhe seriam jogados no dia da redenção. De minha janela, aceno para ele mostrando a garrafa de whisky vazia. Ele balbucia algo ininteligível e senta novamente em seu trono de cimento e cacos de vidro, na calçada. É Natal.
Mesmo de longe, consegui vislumbrar feridas pustulentas em suas mãos. Chagas, “intratadas, incuradas”, viciadas, infectas por se arrastarem no asfalto quente e coalhadas de fezes de cães e ratos. Isso não lhe importava. E por que haveria de importar? Um gato de rua apareceu metafisicamente e lhe lambeu os estigmas. É Natal.
Fecho as persianas, o sol me incomoda mais do que o moribundo do outro lado da rua. Olho para a pequena mesa onde se encontra a velha máquina de escrever de meu pai e procuro, ávido, algo que sei que deixei ali. Algo que me interessa. Muito. E não é uma rena. É neve, pois é Natal.
Empurro para o lado e jogo ao chão, emburrado e asnático, folhas e contas que não paguei, e encontro o que queria. Não poderia ter usado tudo. Mesmo eu, o calejado, o herói geneticamente privilegiado, o “specimen” fabricado para a química transgressora, não conseguiria. Pego o cartão de uma loja de departamentos qualquer, que recebi e nunca desbloqueei, e separo mais uma carreira. As mãos não tremeram e a primeira benção se consignou. O milagre da multiplicação se materializava e, em um ato de prestidigitação pura, aspirei as três carreiras em uma tacada. Como um campeão. É Natal.
Todo lado direito de minha face adormece e me sinto energizado. Enfia aquele seu Red Bull no cu, ok? Aprende a brincar, playboy de merda. Olímpico e renovado, me dirijo ao banheiro e abro a torneira da antiga banheira com pés de metal, orgulho inalienável de meu muquifo decrépito. Calmo, inexplicavelmente calmo, tempero a água com a ponta dos dedos. Tépido. É Natal.
Tiro a roupa, aquela suja com vômito, agora ácido, e a jogo ao chão, porco sem lama. Pego o maço de cigarros, a caixa de fósforos – e uma preocupação acima do normal me aflige, no que concerne a molhar a pequena lixa na lateral da caixinha. Levo também uma garrafa de vodka que guardo fechada faz dois meses, algo que para mim equivaleria derrotar os malditos 300 espartanos, sozinho. Arrebento o lacre com os dentes e minha gengiva sangra como se houvesse uma briga de faca em minha arcada inferior. Cuspo vermelho e exalo fel. Foda-se. É Natal.
Falta pouco.
Pego meu cadavérico exemplar de Finnegans Wake e leio as últimas páginas, marmorizando um clichê patético, apenas para rir um pouco de mim. Como se fosse necessário. Incrível, mas passei a desprezar Ulysses depois de um teco qualquer, em uma noite qualquer. Maldito pó. Ou maldito Joyce. Escolham, tô nem aí. Afinal, é Natal.
Então pego minha navalha.
Nunca lidei bem com dinheiro, mas taí uma compra da qual nunca me arrependi. Em que pese minha sui generis fixação com algumas armas brancas, ninguém condenaria minha escolha. O cabo de madrepérola, o entalhe meticuloso, uma pequena caveirinha engravada na lâmina. Foda. Se acreditasse em caixão e pertences para o além, a levaria comigo. Mas não sou egípcio...e porra, é Natal! Que mesquinhez é essa?
Molho o filtro do cigarro na vodka, o acendo sem pressa e, cirurgicamente, o levo aos lábios. Inalo a fumaça cancerígena, lembro do roto da esquina e me culpo porque percebi que sobraria vodka. Derramo meia garrafa do álcool russo na garganta. Sem concessões. A gengiva não existe mais...existe, mas não a sinto. Tudo é perfeito. Pois é Natal.
Tomo a navalha nas mãos ao mesmo tempo em que termino o Finnegans Wake. É incrível como sempre fiquei produtivo com as drogas. Talvez porque elas me fizessem me suportar, ou talvez porque me fizessem suportar os outros. Mas isso não será mais um problema. É Natal e me darei o presente pelo qual anseio desde de os 14 anos. Foda-se a bicicleta, às picas com o autorama.
Olho para meu pulso esquerdo, veias salientes, azuladas, uma pequena tatuagem imbecil. Espraguejo mentalmente acerca da necessidade e precisão do corte vertical, pois cometer um erro de principiante nessa altura do campeonato tiraria todo o mérito de ter terminado a porra do Joyce. Um estúpido pensamento pedante me vem pouco antes do metal tocar a carne e fico em dúvida se não deveria mesmo é ter me concentrado em The Faerie Queene. Mas estou sem farinha, com pouca paciência e o dia da redenção é hoje. Essa é a promessa judaica-cristã em toda a sua miserável essência. A purgação da culpa que ela mesmo criou. E vou cobrar pessoalmente daquele pederasta comunista que plagiou Confúcio, Epicteto, Zoroastro, Buda e a puta que o pariu. Ou alguém acha que o pai da criança é o Espírito Santo? Aquela pomba imbecil. Não é pomba, eu sei, é a porra da metáfora draconiana de sempre. Por mim poderia ser um ornitorrinco, ou um dromedário, muda pouco. Mas vamos acabar com o pessimismo. É Natal.
Dou mais um gole na vodka, o esôfago já se foi, apago o cigarro na lateral do meu pescoço, não por masoquismo, mas para ter certeza de que ainda estou vivo e querer me sentir vivo uma última vez mais.

E então me opero.

É Natal e tudo dá certo.

O sangue transborda, férreo, não sinto mais nada. Dor, culpa, sofrimento, amargura, raiva. Apenas paz. Não deixo bilhetes, bens, amores, filhos. Apenas cesso de existir. E isso é lindo. Começo a desfalecer pela hemorragia e tenho consciência disso...é só brilho e alívio.
Meu corpo finalmente vai escorregando nas águas rubras da banheira e ouço um barulho oco, seco. A porta se abre e vejo uma figura de cabelos compridos, já indistinguível por conta de meu estado. Ele segura a minha mão. Diz que tudo vai ficar bem. Se debruça sobre o chão, recolhe a garrafa de vodka cheia pela metade e se vai. Veio pela garrava e levou meus pecados. Todos eles.
Foi o único Cristo que conheci. E foi o melhor. O desdentado que não teve seus pés beijados, o mulambo que defeca no chão, o maltrapilho banido pelo cheiro de merda que emana de seus fundilhos, o pária salvador com sua cabeça infestada de lêndeas. Mas o que bebeu da minha garrafa sem limpar o gargalo. O único que nunca me prometeu nada que não cumprisse. O único que compartilhou minhas fraquezas, sem perguntar quais seriam. O único que não me julgou. O único que me deu a mão, quando viu o pior de mim - e manteve a mão junto à minha -, me redimindo da vida que nunca quis, me fazendo vencer o mundo, me devolvendo ao universo como poeira das estrelas, pagando minha dívida, extinguindo o fogo e me transformando em carne. Apenas carne e pus. Nada mais. Porque nada há mais. Porque é isto tudo o que somos. Quando a navalha encontra a carne e lhe ensina tudo o que é preciso saber.
É Natal.

Young APAE (por Hpcharles)



“A children's story that can only be enjoyed by children is not a good children's story in the slightest.”
― C.S. Lewis

"Classic" - a book which people praise and don't read.”
― Mark Twain

   Uma de minhas mais vívidas lembranças da adolescência é a de meu pai me levando à livraria Leonardo da Vinci, no Rio de Janeiro. Para mim era o que havia. Cinema no Centro, comer um filé à parmegiana em um restaurante do qual não me lembro o nome e, por fim, nos encaminharmos ao subsolo do Edifício Marquês do Herval, na Av. Rio Branco.

   Meu coroa, até hoje um leitor obstinado, quase patológico, se é que assim posso dizer, sempre me parava em frente à vitrine antes de entrarmos para me comunicar o recado de sempre: “Beto, você pode escolher o livro que quiser, mas ficará responsável por lê-lo. Sem desculpas”. E assim o fazia.
  Entendi, algum tempo depois, que com isso meu pai pretendia me ensinar duas coisas. A primeira e cristalina, é que para um livro ser analisado com algum apuro, precisa, "ao menos", ter alguns de seus capítulos lidos apropriadamente para lhe averiguar estética e forma. Óbvio? Para alguns, sim. Para outros, ao que tudo indica, basta se ler a orelha.
  A segunda, e a qual quero abordar nesse texto, é a mensagem mais “camuflada” na diretriz em comento e que, basicamente, aduz: “se nem eu que sou seu pai lhe digo o que você deve ler, não permita que outros o digam”.
  Banhado em tal liberdade, aos 16 já havia lido Bukowski e, bem antes, bastante coisa de Doyle, incluindo aí, não só a coleção de SH, mas também alguns livros de suas Histórias Fantásticas e de Ficção Histórica. Já havia lido também Steinbeck e Faulkner. Simplesmente porque queria. E podia.
  Não faz tanto tempo, comecei a ouvir o termo Y.A. com frequência nauseante. Cunhou-se, pelo que se nota, uma subdivisão que compreende pessoas entre 14-21 anos, podendo se estender até os 29. Pasmem! Jovens-adultos, essa é a categoria criada para se qualificar uma literatura com determinadas características que atendam ao universo dessa faixa etária. O curioso é que para mim só existiam dois tipos de livros: os bons e os ruins.
  É de clareza meridiana que os livros infantis precisam ser distinguidos dos adultos, mas a justificativa é absolutamente pertinente. Crianças, em sua abissal maioria, ainda podem se perder em ironias, sarcasmos, coloquialismos, metáforas. As figuras de estilo lhes são difíceis ou inacessíveis, exceções consignadas. Toda a estrutura de linguagem é apropriada e dirigida para o aprendizado primário e básico, em virtude da capacidade cognitiva ainda não ter se desenvolvido suficientemente para uma literatura mais exigente ou pouco fluída. Por outro lado, me causa estranheza a ideia de se “enlatar” o adolescente, vez que este já superou as questões supracitadas.
  Mentira. Não causa, não. Eu entendo perfeitamente a jogada. Em que pese o fato de que as pessoas possuem um desenvolvimento cognitivo ou intelectual diferenciado, o negócio aí é dinheiro. Vamos ser honestos. Vamos abrir o jogo de uma vez. Sacam o tal do “público alvo”? Pois é. Fica mais fácil trabalhar. Ajudam também as prateleiras e capas estratégicas, em cores únicas, brilhantes, “fofinhas”.
  Os temas repetitivos, as estórias contadas em tom melífluo, com escrita condescendente, muitas vezes pedestre, abundam. São enfadonhas, previsíveis, pobremente escritas e sobretudo, desnecessárias.  A menos que se leve em consideração a grana. Aí se tornam "indispensáveis e originais". É o que dizem. Quem inventou essa “catiguria” ou cuidou de expândi-la, sabe que os adolescentes formam um público que gera muito lucro. Muito mesmo. Sabem também o quão influenciáveis são. Adolescente, via de regra, quer pertencer a um grupo, ser aceito, participar. Ele sabe o que o outro está lendo, já viu no Facebook, no Twitter, no Instagram, no celular do amiguinho, aquele mesmo que tem uma capinha dos Vingadores ou com orelinhas da Minnie.
  Ele compra o livro que disseram que foi feito para ele, sabendo que farão um filme especial, também feito para ele, baseado naquela mesma “obra-prima” de hype inegável. Com aquele livro, ele sentiu que era especial. O autor o conhece, só pode, tamanha semelhança com seu mundo. Só que, é claro, no livro tudo é “cool”. Os diálogos, os romances e até os piores dramas. O quão isso é parecido com a realidade, não é mesmo? Identificação pura.
  No universo Y.A. o negócio é ser legalzão. Tudo é tão conectado, tão gostoso e ramansoso, é como dormir de conchinha. Vampiros são legais, sádicos, cancerosos e crianças que matam crianças, são mais legais ainda. Distopias sem originalidade vendem milhões, unindo o mundo para torná-lo melhor. E tudo de presente para o adolescente, aquele pequeno motherfucker.
  Mas quem disse que é isso mesmo que o adolescente quer, ou precisa, ou deve ler? Não foi ele. Ou foi? Ou será que escolheram por ele e fizeram parecer que fora ele próprio que o fez? Quão conveniente. Esse é o truque. Vil e filho da puta.
  Pois eu duvido muito que, se perguntados diretamente, esse mesmo público alvo não diga que prefere escolher DE VERDADE o que deseja ler. Mas para isso, é preciso que saibam que podem ler coisas diferentes do que a mídia lhes empurra, grotescamente, goela abaixo. É preciso que acreditem que são capazes de ler uma literatura melhor, livros mais bem escritos. Que aceitem que não precisam consumir o que é fácil ou agradável. É necessário que saibam que existem prateleiras no fundo das livrarias.
  Me incomoda um pouco que os enganem, ainda mais se disfarçando de “miguxos”, quando na verdade os subestimam por muitos trocados. A literatura deve entreter, mas também desafiar. E uma coisa não exclui a outra necessariamente. Quanto à mídia e a indústria do entretenimento, eu já desisti faz tempo. A qualidade pouco importa e todos sabem. Se vender, está ótimo. Mas gostaria que alguns autores parassem de ver os adolescentes como bichinhos de estimação e se eximissem de escrever, vislumbrando nestes jovens, o condão da responsabilidade pelo pagamento da hipoteca de suas casas de praia. Se concentrassem em construir bons livros e pronto. Sem concessões, sem desdenhar de suas capacidades intelectuais. O que tenho visto é apadrinhamento e não literatura de excelência.
  Espero, sinceramente, que esse panorama mude daqui a algum tempo. Que esse frisson, esse direcionamento perca força, ao menos. E torço para que esses mesmos adolescentes de hoje, que acreditam que o que consomem (e que lhes fora vendido meticulosamente por um mercado sem nenhum escrúpulo) é o que há de bom para se ler, não se decepcionem tanto quando verificarem que absolutamente não é. Com sorte descobrirão que a culpa não é deles e nem tampouco das estrelas. É apenas uma questão de grana e de ganância. Nada mais.

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