CONTO #22: Manhã de um senhor de terras (Tolstói)


          Publicado pela primeira vez em algum momento nos idos de 1850, Manhã de um senhor de terras conta a história de um jovem proprietário que resolve abandonar os estudos universitários para se dedicar às terras e ao bem estar dos mujiques que ali trabalham.
            Depois de mais de um ano dessa empreitada, o que temos aqui é a descrição dessa manhã em que, finalmente, o senhor de terras compreende aquilo que para os demais proprietários de terra, inclusive sua rica tia que tenta impedi-lo de largar os estudos e fazer uma coisa dessas: que os mujiques não querem ser ajudados; que, para eles, de certa forma, sua miséria é uma forma de honra; que muitos deles usam tudo o que recebem do senhor de terra para proveito próprio e não ajudam seus familiares; que muitos deles passaram a fazer corpo mole depois de conhecerem pessoalmente esse bondoso senhor de terras que os visitava, se interessava e lhes entregava o que era necessário; enfim, que eles respeitavam bem mais ao senhor de terras anterior (seu pai), pois ele nunca visitava as terras e seus mujiques, o que os levava a serem os únicos responsáveis por sua subsistência.

"O jovem senhor de terras, como ele havia escrito para a tia, tinha definido regras de conduta
em relação à sua propriedade, e toda a sua vida e seus afazeres estavam distribuídos em horas, dias e meses. O domingo era destinado a ouvir reclamações e pedidos dos servos domésticos e dos mujiques, a visitar os camponeses pobres da propriedade e a lhes prestar ajuda."
(p.515)

"Já faz mais de um ano que procuro a felicidade neste caminho, e o que encontrei? Na verdade às vezes sinto que posso ficar satisfeito comigo mesmo; mas é uma espécie de satisfação seca, racional. MAs não, no fundo estou insatisfeito comigo mesmo! Estou insatisfeito porque aqui não conheci a felicidade, mas eu desejo ardentemente, a felicidade. Não experimentei os prazeres e até me distanciei de tudo o que dá prazer. Para quê? Por que? A quem isso traz alívio? A tia escreveu a verdade, quando disse que é mais fácil encontrar a felicidade para si do que dá-la aos outros?
Por acaso meus mujiques ficaram mais ricos? Adquiriram educação ou se desenvolveram moralmente? Nem um pouco. Nada melhorou para eles, e para mim, a cada dia fico mais penoso. Se eu visse algum suceso em meus projetos, se eu visse gratidão..."
(p. 581)

Onde encontrar Manhã de um senhor de terras: Contos Completos de Tolstói

CONTO #21: Cell One (Cela #1*) – Chimamanda Ngozi Adichie


                       Publicado pela primeira vez na revista The New Yorker, em 2007, Cell One (Cela #1) aparece dois anos depois da coletânea de contos da autora, The Thing Around Your Neck. Essa é a história de uma família composta pelo pai, professor universitário, a mãe dona de casa, a filha fantasma narradora e o irmão, que apesar da vida boa proporcionada pelos pais, resolve entrar para uma gangue.
                       O conto já começa nos mostrando o dia em que os pais e a menina chegam em casa e a encontram revirada, as joias da mãe roubadas. Num primeiro momento a família atribui aquilo à onda recente de criminalidade na vizinhança. A narradora sabe desde o início que o responsável era o próprio irmão; os pais, custam a acreditar (primogênito, bem-criado, mimado pela mãe; como pode?).
                       Certo dia, o rapaz se envolve em uma confusão seguida de tiroteio em um bar; alguém morre e ele vai preso. Todos temem a possibilidade de o rapaz parar na “Cela #1”, lugar mais temido do presídio, de onde dificilmente se sai vivo.
                   A narradora nos conta de forma crua sobre esses eventos familiares, o sacrifício que os pais fazem para manter as visitas diárias ao presídio distante, as falhas do sistema carcerário nigeriano, o abuso das autoridades, as mudanças (?) pelas quais o irmão passa no presídio.

*OBS: no momento em que escrevo esta postagem, o livro de contos da Chimamanda ainda não tinha publicação no Brasil; a tradução do título do conto e dos trechos a seguir é livre, feita por mim; os trechos a seguir não trazem o número das páginas, pois o conto foi lido em ebook:

            “Era a época dos roubos em nosso campus tranquilo. Garotos que cresceram assistindo a “Vila Sésamo”, lendo Enid Blyton, comendo sucrilhos no café da manhã, e frequentando a escola de aplicação da universidade em sandálias de couro marrom bem cuidadas, estavam cortando as redes anti mosquito das janelas dos vizinhos, quebrando as persianas, e invadindo as casas para roubar aparelhos de TV e vídeo cassete. Nós conhecíamos os ladrões. Mesmo assim, quando os professores se encontravam no clube de funcionários ou na igreja, ou numa reunião de docentes, eram cuidadosos ao comentar baixinho sobre a horda que saía da cidade para roubar seu sagrado campus.”

“”Ei! Madame, por que a senhora gastou sua pele clara com o garoto e deixou a menina tão escura? O que o garoto está fazendo com toda essa beleza?” E minha mãe ria tímida, como se sentisse uma responsabilidade maliciosa pela aparência do Nnamabia.”

“Na segunda semana, disse a meus pais que não fossemos visitar Nnamabia. Não sabíamos por quanto tempo teríamos que fazer aquilo, e a gasolina era cara demais para se dirigir por três horas, todos os dias, e não seria ruim para o Nnamabia se virar sozinho por um dia.”

Não é minha Chimamanda preferida, mas vale a leitura.


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Onde encontrar The thing around your neck, em pré-venda em português: No Seu Pescoço

CONTO #20: O Pirotécnico Zacarias (Murilo Rubião)


          Publicado pela primeira vez em 1974, O pirotécnico Zacarias é um conto difícil de se classificar: fantástico? De mistério? Estranho? A saber: O autor aqui nos conta a história de um morto-vivo. Em primeira pessoa. Sim, o narrador morreu, e é ele quem nos conta suas mazelas. 
           Logo no início, o narrador nos conta sobre a estranheza que sua "morte" (ou não) anda causando aos seus conhecidos, visto que alguns ainda acham que ele está vivo (uma vez que "o morto tinha apenas alguma semelhança comigo", diz o narrador); ora, se esse que anda e fala é parecido com o suposto morto, logo, ele não morreu.
            Mas, ele morreu. É verdade. E a gente até sabe como aconteceu. No meio da noite, foi atropelado por um carro dirigido por um jovem que levava seus amigos para a farra. Enquanto eles confabulam o que fazer com o morto (jogá-lo de um precipício? levá-lo para um cemitério?), o morto resolve participar dessa decisão, claro. Como não? Um dos jovens desmaia, e os outros resolvem emprestar as roupas dele para o morto, e levá-lo, também à farra.
              E é assim que essa história se desenrola; o morto fazendo amizade com quem o matou (?), indo para a farra, e vivendo sua vida sem que os outros saibam que ele morreu (?).
               Bizarro define. Mas é divertidíssimo.

               Aproveito para agradecer novamente à Gléssia pelo livro!  \o/

"Discutiram em seguida outras soluções e, por fim, consideraram que me lançar ao precipício,
um fundo precipício, que margeava a estrada, limpar o chão manchado de sangue,
lavar cuidadosamente o carro, quando chegassem a casa, seria o alvitre mais adequado
ao caso e o que melhor conviria a possíveis complicações com a polícia, sempre ávida de achar
mistério onde nada existe de misterioso.

Mas aquele seria um dos poucos desfechos que não me interessavam. Ficar jogado
em um buraco, no meio de pedras e ervas, tornava-se para mim uma ideia insuportável. E ainda:
o meu corpo poderia, ao rolar pelo barranco abaixo, ficar escondido entre a vegetação,
terra e pedregulho. Se tal acontecesse, jamais seria descoberto no seu improvisado túmulo
e o meu nome não ocuparia as manchetes dos jornais."
(p. 17)

Onde encontrar O Pirotécnico Zacarias: Obra completa, Murilo Rubião


PS: esse conto vai além do seu plot; há de se prestar atenção, por exemplo, ao fato de o morto-vivo ser um pirotécnico; a questão da explosão de cores no momento de sua "passagem"; a cor branca sendo mencionada em diversos momentos no conto, e por aí vai.



NOVELA #1: O negro de Pedro, o Grande (Aleksandr Púchkin)



          A diferença entre "conto" e "novela" às vezes é tênue (e a confusão é frequente): há de se prestar atenção à forma do texto, ao tamanho (se é curto, é conto; se é longo, é romance; se não é longo, nem curto, é novela), ao desenvolvimento das personagens, ao efeito no leitor, etc, etc...
          Publicado em 1837, O negro de Pedro, o Grande (Arap Petra Velikogo) é o que se pode chamar de novela inacabada; aparentemente, a intenção do autor era a de escrever uma novela sobre seu trisavô que foi comprado de um sultão, dado de presente ao czar, e tornara-se o seu preferido. Bem educado na França, militar bem sucedido (participou da Guerra de Sucessão Espanhola), querido pela maioria (a não ser por aqueles que consideravam "estranho", digamos assim, receber um negro, mesmo sendo o preferido do czar, em seus soirées), acaba se envolvendo romanticamente com uma duquesa, com quem tem um filho; volta para a Rússia, atendendo ao chamado de Pedro, o que acaba sendo conveniente, pois é necessário evitar escândalos. E por aí vai a novela, até o encerramento abrupto, que deixa o leitor indignado por não mais nada para se ler da história... 

"O aparecimento de Ibraim, a sua boa apresentação, a cultura e inteligência inata despertaram em Paris a atenção geral. Todas as senhoras queriam ver em sua casa Le nègre do tzar e disputavam-no furiosamente. O regente convidava-o muitas vezes para as suas alegres noitadas: ele tomava parte em jantares animados pela mocidade de Arouet (Voltaire) e pela velhice de Chaulieu, pela prosa de Montesquieu e Fontenelle; não perdia um baile, uma festa, uma estreia, e entregava-se ao turbilhão geral com todo o ardor da sua idade e da sua raça."
(p.21)

"A doce atenção das mulheres, que é quase o único fito dos nossos esforços, não somente não lhe alegrava o coração, mas fazia-o até vibrar de indignação e amargura. Sentia que era para elas uma espécie de bicho raro, uma criatura diferente, estranha ao mundo, para o qual fora transportada casualmente e com o qual nada tinha em comum."
(p.22)

"(...) confesso que as assembleias não são igualmente do meu agrado: a qualquer momento, pode-se tropeçar em um bêbado, ou ainda ser embriagado para divertimento de todos. É preciso tomar muito cuidado para que um peralta não faça qualquer travessura com a nossa filha; e a mocidade de hoje em dia está muito mimada, é um verdadeiro despropósito."
(p.44)

"De todos os jovens educados no estrangeiro (que Deus me perdoe!), o negro do czar é quem tem mais jeito de gente."
(p.45)



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