Frio e Chuvinha

Simplesmente não tem mais desculpa.

Vamos combinar que ultimamente eu tenho tido, sim, tempo para escrever no blog.

Só falta a vergonha na cara.

Então, é isso.

E vou continuar colocando os Mini Vlogs por aqui.
Eu tentei, gente, juro que tentei usar os SnapChats, mas não rolou. Aquela coisa dos 10 segundos não é pra mim. Não há uma gota de poder de síntese neste corpo. Mal consigo lidar com os 140 caracteres do Twitter - 10 segundos é de lascar. Ainda mais com um celular velhito, que trava a toda hora com o aplicativo.

E a vida?
Tá boa, de pijama, e hoje é dia 21 de Agosto, e ainda não caiu a ficha de que a Bienal do Livro de SP já começa essa semana, e que eu vou estar lá nos dias 26 e 27 - tem bate papo! \o/

Um abraço, e fique com um espetacular Mini Vlog ;)




Diários de leitura: a volta dos que não foram

Eis o retorno dos Mini Vlogs como deveriam ser: diários de leitura como complemento de postagens aqui no blog ;)

Yay.
Sim.

A partir de agora, os Mini Vlogs não estarão mais disponíveis no canal.
Apenas aqui, no blog! \o/

Bem, comecemos os trabalhos.

Estou lendo Deuses Americanos.
Do Neil Gaiman.
De novo.
Segunda tentativa.

Dessa vez, seguindo a sugestão do pessoal que acompanha o canal no youtube, resolvi tentar de novo, em inglês.
Além das sugestões, resolvi pegar esse livro de novo para ler durante o All About Gaiman (especial que está rolando no canal da May [é só clicar para ver o vídeo explicativo ;) ] ).

Com muita fé.

Mas hein, a primeira tentativa.

Lembro de ter comprado esse livro, em, quê, 2009, 2010, logo depois de ter lido Lugar Nenhum (até então, pior livro do NG da vida - sei que muita gente adora, mas eu, sinceramente, não sei por quê. Para ver meu parecer sobre esse livro, bem, taí o link :)
Nos comentários do vídeo em que comentei sobre essa leitura frustrada (frustrante?), muita gente me recomendou "A Obra Prima do Gaiman" - Deuses americanos.

Ok, eu já tinha lido Sandman, e pensei "minhanossassenhora, isso deve ser bom."

Comprei.
Edição tosca, capa estranha, diagramação tenebrosa (letras miudinhas, espaçamento inexistente, economia de papel e tinta de impressão).
Não vou comentar sobre tradução/revisão, porque - desisti no primeiro capítulo.
Naquele momento em que , você aí que leu o livro deve se lembrar, aquela deusa/prostituta pede pro rapaz adorá-la durante o ato...

A vida é muito curta.

Passei o livro adiante.

E deveria ter terminado por aí minha história com Deuses americanos, mas nãaaao... lá vai Tatiana de novo.

Edição de 10 anos de aniversário, texto "sem cortes", e... bem, veja o vídeo...




PS: Meu amigo Bruno deixou comentário na minha foto do instagram, dizendo que esse livro foi o strike 2 do Neil Gaiman pra ele, e que nunca mais passou perto de NG.
Bem, esse também foi meu strike 2.
Se eu não tivesse lido Sandman, Livro de cemitério, e outras coisas antes dos strikes, talvez também tivesse desistido... hm...

O Demonologista (A.K.A Trollado pelo Capeta) - por Hpcharles

“Vocês pertencem ao pai de vocês, o Diabo, e querem realizar o desejo dele. Ele foi homicida desde o princípio e não se apegou à verdade, pois não há verdade nele. Quando mente, fala a sua própria língua, pois é mentiroso e pai da mentira.” - (João 8:44)

E lá fui eu, ansioso por encontrar algo que finalmente chegue perto de O Exorcista, investindo na mesma ilusão acolhida pelo cinema e pela literatura faz décadas, me imbuindo na quimera de encontrar uma história do Canhoto tão legalzona como a da menina que vomitava sopa de ervilhas. Eu sei, a culpa é minha. E a vontade de ser feliz era tão grande que eu mesmo violei, em nome do sonho, uma regra que dificilmente quebro: “não confie no hype!"

Meus caros, se Andrew Pyper possui algum mérito em seu livro, é o de nos ensinar que a Bíblia realmente está desatualizada. O escritor então, em um momento de genialidade,  transforma o “Pai da Mentira” em um troll corriqueiro. Tipo aquele que entra em seu canal de Youtube de forma rotineira e escreve comentários e pedidos sem o menor sentido. Só para te aporrinhar e te deixar com um “WTF” na ponta da língua. Pois é…está aí, em síntese apertadíssima, o resumo do vilão de O Demonologista.

Mas como disse antes, a culpa é minha. É que foi fácil ficar atraído pela edição bacanuda da Darkside, com capa dura aveludada, lombada imitando envelhecimento, letras em alto-relevo. Coisa do demônio, se me permitem o péssimo mas oportuno trocadilho. E parou por aí. Nas trezentas e poucas páginas em que a história é contada, nada chega nem perto de merecer o esmero empregado na edição.

Basicamente o livro conta a desventura de um professor do Departamento de Inglês da prestigiosa Universidade de Columbia que, por ser especialista em mitologia e narrativa religiosa judaico-cristã, com trabalho acadêmico reconhecido por Paraíso Perdido, é “escolhido” pelo Capiroto para ser alvo de suas investidas. Interessante? Está bonito até aí? Pois é, mas o gigantesco, o colossal problema do livro, está no desenvolvimento dessa ideia.

Desde o início o autor falha em proporcionar verossimilhança à trama, abusando de apelos emocionais fúteis e acriançados. A vida pessoal do protagonista é desinteressante, cansativa e usada, em inúmeras oportunidades, como muleta para a capitalizar a narrativa. Os poucos momentos de tensão que o livro consegue criar, como por exemplo o primeiro encontro com o Coisa Ruim em Veneza, se perdem no meio de devaneios pessoais desnecessários e “chororôs” familiares. O rapto que amarra o catedrático aos acontecimentos, criando a teia dramática, logo esgota o leitor ao contrário de instigá-lo. Para se ter uma ideia dos recursos apelativos usados, nos é revelado, bem no início, que um ativo personagem tem câncer. Ocorrre que, tal moléstia, ao longo de todo o livro, não interferirá em nada nos fatos narrados e sofridos por ele. E tanto não interferirá que ele come fast food, transa (tenta), dirige por horas e horas a fio e por fim morre em LUTA CORPORAL. Enfim, uma pessoa saudável não faria melhor. Para que então a inserção de algo tão nefasto logo no começo da narrativa? Será que o autor percebeu que sua história em si não era dramática o suficiente? Por favor…

No entanto, não se pode dizer que esses detalhes incidentais sejam o nó górdio que torna o livro ruim. O que o faz péssimo é a falta de empatia que o leitor tem com os protagonistas somados à pobreza lógica, a fragilidade de sentido entre os acontecimentos descritos ao longo da narrativa. O professor em comento é uma pessoa fraca, sem carisma e com pouquíssimo elã para enfrentar uma entidade sobrenatural, supostamente onisciente e super-poderosa. E a entidade, que é onisciente e super-poderosa, também é…como direi…enfadonha a dar com o pau. Senhores, o demônio, que ao longo dos séculos sempre foi retratado como um sedutor, como dotado de inteligência e astúcia incomparável, como um perfeito estrategista, nesse livro não passa de um troll. Sua maior maldade nesse livro parece ser impor ao infeliz professor, ao longo da história inteira, entediantes e intermináveis viagens de carro sem justificativa suficiente. Lógico que o malfadado protagonista compra um Mustang para cumprir sua tarefa, o que só serve para acentuar sua crise de meia idade e torná-lo mais caricato ainda. Enquanto fica comendo comida de estrada e fugindo de um “matador do Vaticano” (quer clichê, então toma!), o desgraçado se depara com fenômenos sobrenaturais inseridos de forma claudicante, vazia, os fazendo prescindíveis por defeito de nexo. Em um livro que se propõe a narrar uma batalha do bem contra o mal, o mínimo que se espera é uma antítese bem construída, com lógica firme e coerência cristalina.

O leitor, coitado, cansa dessa road trip sem sentido, e ansiando por ser poupado desse inferno de livro (trocadilho infame n.2) mal se dá conta quando se pega torcendo pelo demônio, desejando que o Tinhoso leve, logo e de vez, o infeliz professor.

Cumpre ressaltar que apesar das inúmeras citações a Milton, tais remissões não ajudam à criação de uma lógica teológica consistente. O bolo não dá liga e as soluções encontradas pelo autor beiram o risível. Para se ter noção ao que me refiro, em determinado momento, o chatonildo do professor pega um taxi e o motorista, que é brevemente possuído (qualquer um parece poder ser possuído a qualquer tempo sem maiores explicações ou dificuldades - #assimficafacil), muda o destino da corrida para o famoso Edifício Dakota em NY. Como o taxista o deixou na esquina norte do edifício, o professor então tem a extraordinária intuição de que deve se dirigir ao estado de Dakota do Norte. Repare a “brilhante” saída inventada pelo autor para dar continuidade à trama. E só para ficar claro, com todo o respeito…é como se a porra do Diabo o tivesse enviado para o Piauí. Essas deduções e advinhações inconsistentes e pateticamente infantis, dignas dos bons tempos dos jogos do programa do Sílvio Santos, permeiam todo o livro, com o protagonista sendo estabalhoadamente empurado para cima e para baixo dentro dos Estados Unidos.

Meus caros, há muito pouco a se aproveitar nesse livro. Confesso que ao ler nos jornais e na Internet algumas notas sobre O Demonologista, fiquei atraído pela possibilidade de que uma boa história de horror houvesse sido criada. Mas não há nada. Os diálogos entre o protagonista e a entidade carecem de profundidade, de inteligência e até de coerência Bíblica, em se tratando de uma entidade ligada ao cristianismo. O autor conseguiu a peripécia de tornar o Demônio uma figura sem atrativos e criou como contraponto um “herói” sem viço, anêmico, sem virilidade, incapaz de gerar identificação ao leitor.

No entanto, se você comprou um exemplar de O Demonologista buscando apenas algum tipo de história de horror trivial, não se desepere. A encontrará. Ao terminar de ler, você certamente se recordará assustado o quanto pagou pela edição e se assombrará ao lembrar do tempo que foi jogado fora e que poderia ter sido empregado fazendo algo melhor, como por exemplo...ler um bom livro. E por fim sentirá aquele característico frio na nuca ao elocubrar se você só leu essa bobagem até o final porque gastou dinheiro, porque é masoquista, ou se foi o Demônio que te fez ler. É isso. Só pode. Foi ele. Maldito troll do inferno!




O Demonologista (The Demonologist)
Andrew Pyper
2015

A fileira de carrinhos (por Hpcharles)




Existem fases em que dormimos menos. O sono quica e te estraga não só para o dia seguinte, mas para a vida. Ficamos irritadiços, nos tornamos injustos, brigamos até com o café, nosso grande amigo. Mas os sonhos, pelo menos comigo, se tornam mais vívidos, significativos, mensageiros. Semana passada tive um sonho desses.
Me vi bem criança, ainda sem culpas ou arrependimentos, sem ter sido visitado pela política ou pela religião. Estava feliz. Sentado no chão de sinteco polido, montava uma longa fileira de carrinhos de metal. O sol entrava por uma fresta da janela não alcançada pela cortina colorida, aquecia a mim e clareava todo o recinto. Eu sorria mas ao mesmo tempo era meticuloso, obstinado em deixar a carreata retilínea. Ao notar um pequeno desvio de um dos carrinhos, me punha logo a ajeitá-lo, implacavelmente. Por vezes tentava usar o rodapé como parâmetro, mas não confiava em sua exatidão. Para aquela tarefa, só confiava em mim.
E ficava assim por muito tempo. Como se aquilo fosse imprescindível. Como se os mini para-choques dos mini veículos, necessitassem ser colados precisamente, um atrás do outro, de maneira peremptória e plena. O prumo era mais importante do que os carros, mais relevante do que a brincadeira, mais valioso do que eu. Era o que sabia naquele instante, naquele sonho.
No entanto, em determinado momento, de sobressalto, sem avisar ao sonhador, solto um riso divertido e dou um tapa nos “matchboxes”, desmanchando irremediavelmente todo o árduo trabalho que tivera. Após isso, me levanto e saio do quartinho como se aquilo tudo não tivesse sentido qualquer. Como se todo aquele esforço espartano para alinhar a fileira fosse inócuo, improfícuo, inútil em qualquer finalidade.
Acordo então e, novamente infestado de insônia, passo a deslindar a experiência que tive, buscando-lhe significado ou razão. Penso nos carros como momentos de minha vida e em como tentei ajustá-la, assim como fiz como a fileira. Me recordo de como tentava não deixar espaço entre os carrinhos, a fim de que se encaixassem de forma mais eficaz. Lembro dos momentos de minha existência em que o alinhamento parecia exato e o comboio era como uma hoste de vassalos rigidamente exigidos por suseranos para, depois, descobrir que não era. E que houve um desfile de carros alegóricos. Fantasias. E que a realidade é que a linha estava toda enviesada. E que minha vida também estava enviesada e eu não percebia. Apesar de, constantemente, tentar alinhá-la. Assim como não entendia como eu, quando criança quimera, fui capaz de desfazer tudo o que construí com apenas um tapa. Sem considerar que isso acontece todos os dias na vida de tantas pessoas.
O que saberia aquele garoto que eu, muito mais vivido, muito mais adulto, muito mais versado, não poderia saber? Me ergo da cama e me dirijo até a cozinha para beber um copo de água. Sento alguns instantes à mesa da sala e de repente tudo parece fazer sentido. Entendo tudo.
Descubro o que percebeu o menino ao destruir a fileira e que o homem não era capaz de desvendar. E não apenas isso, sabia o porquê. O sonhador não entendia o sonho porque não se cuidava de sapiência, mas de pureza. A perda da inocência, corolário nefasto de se viver a vida, é que passamos a enxergar algumas coisas e ficar cego à outras. Deixamos de confiar, de acreditar. Primeiro nos outros e depois paramos de confiar em nós mesmos, inúmeras vezes.
Nos concentramos em aparar arestas, em contornar crises, nos prendemos ao último carro da fileira, quando existem outros tantos mais à frente, mais atuais, que compõem a frota e que também foram importantes para que toda a linha, enfim, consignasse determinada figura. E então transformamos a caravana em cáfila, por dinheiro, e depois em cortejo fúnebre, por morbidez, ao invés de apenas brincar com os carrinhos. No final não vemos mais a fileira como ela é. Vemos a fileira, mais névoa. Vemos a fileira, mais as vicissitudes. Vemos apenas as vicissitudes. 
O que o pequeno menino sentado no quarto descobriu antes de mim, porque olhava e via, e depois fez questão de se esquecer para poder sobreviver, é que não fazia sentido ficar mexendo nos carrinhos. Mesmo em sua brincadeira soube que era perda de tempo, pois a linha nunca ficaria perfeita para ele. E não ficaria porque constatou que não é a fileira de carrinhos que fica torta. O que fica torta, na verdade, é a vida.

E então dormi para o menino poder voltar a brincar.

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